Estação das Estrelas

À noite, em pleno Cacimbo, em local de pouca luz eléctrica, os sonhos são quase palpáveis. Se bem agasalhados, lá fora, podemos ver todas as estrelas, tantas quanto caibam no universo dos nossos olhos, no tamanho dos nossos sonhos e na grandeza da nossa imaginação.

POR: José Kaliengue

Esta é a estação das estrelas, seguramente, que se mostram na nudez da sua infinita beleza sem a cortina das nuvens. Eu gosto do Cacimbo, gosto de o sentir no arrepio causado pela água fria na pele, gosto de o ver a sair dos meus lábios quando falo, em vapor. Gosto que me tome a alma exigindo um abraço, um carinho. O Cacimbo é belo, na força das poucas flores que resistem, porque quase tudo seca, cantando no campo a maravilhosa promessa de uma ressurreição cíclica. Às primeiras chuvas, o manto verde voltará a ser estendido por divina mão. O cacimbo tem som, no crepitar dos troncos na lareira, nos cânticos nocturnos sem origem, das aldeias, e é escola nas histórias contadas pelos mais velhos, lições para toda a vida, nas vozes dos animais que nos moldam o espírito. Tudo isto podemos ter nas estrelas, que de manhã se vão deitar para dar espaço ao planáltico céu que tem o mais extasiante de todos os azuis. Mais belo não há que o céu angolano em pleno Cacimbo. Obra mais sublime jamais será pintada que o pôr-do-sol no planalto ou no Cunene. E dura tão pouco o Cacimbo!