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Estado das árvores ‘revela desleixo’ por parte da Administração de Benguela

Terça-feira, iniciou o período oficial para a podadura das árvores em Angola. No município de Benguela, o aspecto das árvores que compõem a cidade das Acácias Rubras, demonstra negligência e falta de cuidado por parte da Administração Municipal de Benguela, sustentam dois ambientalistas. E, o descuido com as árvores reflecte-se na má apresentação da cidade, que celebra hoje, 17 de Maio, 401 anos.

POR: Zuleide de Carvalho

Porque alguém tem de defender as árvores, dado que a Administração Municipal de Benguela (A.M.B.) aparenta preocupar-se pouco com o assunto, os especialistas em Ambiente João Buaio e Isaac Sassoma acusam esta entidade de negligência. Um pouco por toda a parte (onde ainda, felizmente, se encontra), o arvoredo espalhado pela sede municipal da província apresenta-se mal cuidado e as evidências são múltiplas. Vão desde diversos galhos secos e, os verdes, mal aparados, troncos erguidos mas mortos, palmeiras com mais ramos velhos, castanhos, do que verdes, descoloração da cal, pintada nos troncos, até infestações por bichos ou fungos. Face a isto, o ambientalista João Buaio diz que a A.M.B. realiza a podadura eventualmente, todavia, “a questão é como é feita a poda das árvores, noto que não tem seguido os parâmetros, as regras”.

Quando é o Estado a desrespeitar a lei…

O dia 15 de Maio representa a abertura legal e oficial da época de poda das árvores, segundo a Lei do Ambiente em vigor a nível nacional, estendendo-se até 15 de Agosto, período de Cacimbo. Por conseguinte, uma semana antes, o mestre em Ambiente e Ordenamento do Território, João Buaio, observou mais uma prova quanto à despreocupação do Estado relativamente às árvores, localmente representado pela Administração Municipal de Benguela. É facto que, oito dias antes de a época estabelecida por lei começar, a A.M.B. realizou a poda de várias árvores, por “motivos que nada têm a ver com o bem-estar ambiental”. Na manhã de Quarta-feira, dia 9, OPAÍS constatou que funcionários da Administração de Benguela cortavam galhos e ramos de várias árvores ao longo da cidade.

Acção praticada antes do período legal para a poda, logo, infracção. Para o ambientalista Buaio, isso revela a falta de preocupação que este órgão estatal tem para com o meio. Sobre isto, o responsável pelos Espaços Verdes da A.M.B. declarou a OPAÍS que, este ano, a podadura começou mais cedo, em algumas ruas, devido à realização da corrida de automóveis que se avizinha. Assim, “o Estado decidiu priorizar o lazer em detrimento da saúde das árvores”, cortando-as antes que estas estejam preparadas para sofrer tal intervenção, pondo em causa o seu crescimento e maturação. Por vontade de alguns, pagam as árvores, algo condenável para o mestre em ambiente, que apela: “não colocar em causa a vida da árvore, a poda é para ela se regenerar, não para danificar.” “Notamos que parece um abate das árvores, em que são cortados os galhos até ao fim, não se obedece à estrutura da árvore, a regra diz: não cortar mais do que 25% dos galhos…”, alertou.

Quando o crescimento caótico das árvores prejudica o cidadão…

Pelas artérias da cidade de Ombaka, diversas são as ruas em que os ramos da árvores cresceram de tal forma que cobrem grande parte dos passeios, estendendose abaixo de um metro de distância do chão. Francisca Capitango, interpelada por OPAÍS após ser obrigada a baixar-se, com as costas encurvadas, para transitar num dos passeios da extensa Av. Fausto Frazão, de tão longos os ramos das espinheiras existentes, mostrou-se irritada. “O administrador é que tem de ver esse problema, senão, está mal assim…” reclamou a cidadã, caminhando para o hospital, deixando para trás o caos de ramos de espinheiros, de fronte a uma unidade policial.

A jovem Elizângela Ferreira desloca- se de Segunda a Sexta-feira, à pé, ao colégio. Caminhando, todos os dias baixa-se para fugir dos galhos das árvores que quase que tocam o chão, de tão compridos. “Não é correcto. Em vários sítios encontras esse tipo de problema”. Na sua opinião, “o Governo devia mandar cortar, (mas não muito), vai impedir o oxigénio, mandar só endireitar, para nós andarmos à vontade”, reclamou. Para além da ameaça à coluna vertebral dos transeuntes, árvores mal cuidadas crescendo desordenadamente encobrem sinais de trânsito, tombam os ramos pesados sobre pessoas, viaturas e sobre cabos eléctricos, realçou o engenheiro ambiental Isaac Sassoma.

Árvores mal cuidadas “às portas” da Administração

Por seu turno, José Júnior, benguelense de 48 anos de idade, reprova a falta de atenção e cuidado que a Administração Municipal tem para com o arvoredo local, males identificáveis à vista de todos. Visto a passar pela estrada, esquivando- se a andar encurvado, caso transitasse num passeio da Av. Comandante Kassanji, tal como centenas de populares o fazem diariamente, prestou o seu parecer sobre a problemática. “Dificulta a passagem das pessoas porque nós vemos que os ramos das árvores já estão quase a bater no chão, sinceramente, a Administração, que tem o poder de podar as árvores, não o faz”, acusou. Enumerando potenciais perigos, enunciou: “se a pessoa passar por aqui, está sujeita a ser picada pela ponta dos galhos, na cabeça, nas vistas… Penso que deveriam cuidar deste problema, já está há muito tempo”, alertou. Saliente-se que, as árvores caóticas que incomodaram o cidadão, encontram-se a apenas 200m da Administração Municipal de Benguela. Daí que, “fazer manutenção das árvores, pintar, para que não sejam comidas pelos bichos”, exige- se.

A resposta institucional da A.M.B.

Ricardo Lomeia, engenheiro civil, é director municipal da repartição de Espaços Verdes há 6 anos. Satisfeito a 60% com a arborização de Benguela, fez saber que na Administração não há nenhum funcionário formado em Ambiente. O período legal é determinante, “é nesta altura que as árvores conseguem sobreviver ao clima, face aos cortes que se vão fazendo”, declarou. Todavia, funcionários da Administração cortaram árvores uma semana antes da mudança climática. Mapas de planificação não existem, praticando-se podadura em anos intercalados. Não houve poda em 2017, logo, neste ano haverá, porém, não na totalidade territorial, pois, a Administração carece de meios e recursos humanos para tal.

Restam 9 colaboradores na área municipal dos Espaços Verdes. Outrora, eram mais de cinquenta no gabinete, adiantou o responsável Lomeia. Em urgências, para podar árvores muito altas, pedem emprestado aos Bombeiros um carro com escada telescópica. Por isso, o dirigente apela à população para ajudar a A.M.B. a identificar os pontos da cidade com árvores que carecem de intervenção, pois não têm olhos em todo o lado e “a Administração somos todos nós.” Uma grande limitação laboral prende-se com a inexistência de uma viatura com elevação suficiente para podar as Palmeiras Reais abundantes em Benguela, com mais ramos secos do que verdes, porque ninguém os poda há anos.

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