SINPROF e SINPTENU trocam acusações de corrupção

Em causa está a desactivação de 74 professores fantasmas na Lunda-Norte e o desentendimento que resultou da última greve que paralisou as escolas por uma semana. Todavia, tanto o SINPROF como o SINPTENU imputam o fracasso da Reforma Educativa ao Ministério da Educação

Texto de: Milton Manaça

O secretário-geral da Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Não Universitário (SINPTENU), Zacarias Jeremias, disse haver indícios graves de corrupção promovidos pelo SINPROF, organização dirigida por Guilherme Silva. Zacarias Jeremias, que falava em conferência de imprensa, acusa o SINPROF de apadrinhar os 74 agentes da educação “fantasmas” que foram desactivados, desde o mês passado, na província da Lunda- Norte, auferindo salários chorudos, sem nunca terem passado pelas escolas ou salas de aulas.

Segundo Jeremias, os professores fantasmas estavam filiados ao SINPROF e ganhavam como coordenadores, mediante a falsificação de documentos. Zacarias Jeremias foi mais longe, tendo dito que Guilherme Silva chantageou o então ministro da Educação, Pinda Simão, para facilitar a cedência de apartamentos na centralidade do Kilamba em troca do levantamento da greve.

Para além desta situação, disse que Guilherme Silva terá viajado num avião privado, de Luanda a Lunda-Norte, para negociar uma greve de professores, acrescentando que a corrupção neste sindicato é uma prática antiga. Disse que o SINPROF não está interessado em resolver os problemas da classe, mas sim em cuidar de interesses particulares de algumas pessoas filiadas ao sindicato. “Por isso decretaram a greve de forma unilateral para negociarem sozinhos e buscar protagonismo no sector”, frisou.

O responsável disse que está disponível para provar as suas acusações em tribunal, mas realçou que o objectivo não é o de fragilizar o outro sindicato, mas sim acabar com essas práticas que beneficiam a poucos e sacrificam muitos.

“Vai ter de provar em tribunal” Em defesa da sua organização, Guilherme Silva começou por dizer ao OPAÍS que todas as acusações são infundadas e visam apenas manchar o bom nome do seu sindicato. Sobre os apartamentos no Kilamba, disse que o SINPROF remeteu um ofício à Imogestin que, por sua vez, orientou que fosse o Ministério da Educação a fazer chegar o documento, em finais de 2017.

Guilherme Silva, que reside na província do Cuanza-Sul, lembrou que o direito à habitação está consagrado na Constituição e o facto de ser sindicalista não lhe retira a garantia de beneficiar um imóvel do Estado. Silva disse que o SINPROF não promove, nem acolhe, nenhum funcionário fantasma na sua organização, e “quem dá entrada no sistema financeiro do Estado não somos nós.

Não somos a entidade patronal”, disse, frisando que foram os seus membros na Lunda- Norte que denunciaram o caso. Sobre o suposto avião particular, o sindicalista disse que esta denúncia foi feita por um antigo secretário do SINPROF, nesta província, mas que não é verdade. Por fim, disse que Zacarias Jeremias terá de estar preparado para provar todas acusações em sede do tribunal, realçando que os seus advogados já estão a dar tratamento do caso.

“MED é o culpado do fracasso da Reforma Educativa”

Envolta em polémicas, desde que foi implementada em 2002, a Reforma Educativa sempre abriu acesos debates entre a classe docente, o Ministério da Educação (MED) e a sociedade.

No Encontro Nacional da Educação, realizado de 6 a 10 do corrente mês, em Luanda, terão surgido críticas, por parte de alguns membros do Executivo, que afirmavam que a má qualidade dos professores é a causa do fracasso da reforma, segundo os sindicatos.

Para Guilherme Silva, a Reforma Educativa foi uma imposição do MED aos professores, e em momento algum quis ouvir as partes envolvidas no processo, apesar dos sucessivos apelos. Para ele, a reforma foi uma cópia de outras realidades que não obedeceu aos pilares exigidos, principalmente a formação dos recursos humanos.

“ Cabe ao Ministério assumir o fracasso porque a reforma morreu à nascença e não teve pernas para andar. Como é Possível ter qualidade com um professor a leccionar nove disciplinas numa sala com 80 ou 100 alunos e sem material didáctico?” questionou. Aliás, recordou que na abertura do ano lectivo houve a promessa, da parte da titular da pasta da Educação, de “inundar” as escolas com livros até finais de Março, o que, segundo ele, não aconteceu até ao momento.

O SINPTENU converge na mesma opinião e Zacarias Jeremias diz que esta acusação não tem qualquer justificação, pois que a entidade empregadora nunca deu ouvidos a quem quer que seja.

Zacarias Jeremias dá como exemplo agentes que foram recrutados pelo Ministério sem qualquer agregação pedagógica, em detrimento de cidadãos que passaram por uma escola de formação de professores que, no seu entender, deveriam ter acesso direito a vagas e não disputarem com outros candidatos na abertura de concursos públicos.

“MED deve arcar com todas as consequências resultantes deste processo, porque foram eles que colocaram pessoas sem agregação, não criaram condições e não atenderam aos apelos que fizemos”, rematou.