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Estudo angolano sobre transmissão vertical da malária implementado no Brasil

Ignorado pelas entidades competentes em Angola, o trabalho feito por uma especialista angolana em neonatologia e pediatria, em 2009, tem as suas recomendações implementadas com sucesso em Pernambuco, no Brasil. O trabalho mostra que existe malária congénita (transmitida da gestante para o feto), em Angola, e que pode levar à morte do bebé

Texto de: Romão Brandão

Fotos de: Pedro Nicodemos

Concluído pela especialista em neonatologia e pediatria Elisa Gaspar, em 2009, o estudo resulta do tema de defesa do mestrado em saúde materno infantil que fez em Pernambuco, no Brasil.

O tema de pesquisa foi “a transmissão vertical da malária” e desenvolveu o seu trabalho na Maternidade Lucrécia Paim, porque há 26 anos que trabalha nesta unidade hospitalar e foi constatando que alguns bebés nasciam já com malária. Por ser um diagnóstico novo no nosso país, colocar no relatório que era malária congénita suscitava críticas de muitos médicos, principalmente os mais velhos pediatras, alegando não ser possível que um bebé nascesse com malária, infectado pela mãe.

O estudo que surgiu para deixar claro o diagnóstico que a nossa entrevistada fazia, levou-a ao Brasil para fazer o mestrado. “Fiquei um ano lá, para aprender todas as técnicas de investigação, dois anos cá (num vai-vem), com recolhas de amostras. Formei uma equipa composta de médicos, enfermeiros, técnicos de laboratórios, motoristas, etc., que recebeu formação, aqui no país, durante um mês, dada por um grupo de técnicos investigadores brasileiros”, conta.

Em 2008 recolheram as amostras de sangue de mulheres que fossem à maternidade para ter o bebé, depois do parto recolheram amostras de sangue do cordão umbilical, da placenta e recolheram também do bebé. Tinham um papel de filtros com quatro divisões, compostas pela mãe, placenta, cordão umbilical e bebé. Todos os resultados deram positivo (transmissão vertical da malária) na maternidade Lucrécia Paim, bem como no Laboratório Nacional de Saúde Pública. As mesmas amostras foram levadas ao Brasil, para dois laboratórios diferentes, e também deram positivo. “Tanto mais que eles até elogiaram o trabalho”, disse.

O objectivo era continuar a pesquisa em toda a Angola, para ver qual era a prevalência de malária congénita no país, mas “aqui em Angola não fazes nada porque não te deixam fazer”, disse, acrescentando que teve de parar por ali, apenas com as análises dos casos da Lucrécia Paim.

Desprezado por uns, aproveitado por outros

Elisa Gaspar percebeu que sofreu muita pressão, do tipo de pessoas que dizem “se eu não faço, então não vou deixar-te fazer”. Quando perguntada se o programa nacional de luta contra a malária implementou o seu estudo, respondeu: “não sei, não me disseram nada, não disseram obrigado, nem me deram algum retorno. Eu fiz, como não me deixaram trabalhar mais, desliguei-me”.

Chegou a entregar o estudo ao Programa Nacional de Combate à Malária e ao Presidente da República. Este aprovou, elogiou e disse que, por ser pioneiro, os ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia, bem como a Faculdade de Medicina, deveriam analisar melhor e mandar para o Conselho de Ministros, de forma a ser aprovado. Nada das orientações do PR foi cumprido, e a partir dali começou o que a nossa entrevistada intitulou de “guerra”: a Saúde Pública, o Programa da Malária, o ministro, “todos contra mim, alegando que estava a colocar o bico onde não devia. Eu, como não queria guerra, então fiquei por ali”.

Em contrapartida, o Brasil, não só reconheceu o trabalho, como o implementou, sem a pesquisadora angolana saber. Ou seja, só no presente ano é que tomou conhecimento de que o seu trabalho de fim do curso de mestrado foi implementado na cidade de Pernambuco. Há duas semanas, foi convidada pelo Estado de Pernambuco para receber uma homenagem, intitulada “Grupo de Mulheres que Mudaram a História de Pernambuco”.

Ficou sem perceber e nem imaginou que fosse por causa do trabalho de investigação científica. Posta na actividade, foi-lhe informado que há um grupo de técnicos da Saúde do Brasil que trabalha na comunidade, que implementou as recomendações do seu trabalho de investigação científica e, neste momento, não há registos de malária em grávidas e recém-nascidos, naquela região.

‘É um trabalho de que até já me tinha esquecido’

Pelo facto de ter sido concluído há 10 anos, a investigadora já se tinha se esquecido do estudo, pelo que ficou espantada ao saber que o Brasil o implementou

Todos os anos, um grupo de mulheres homenageia pessoas que mudaram a história de Pernambuco e, para isso, chamou os técnicos que implementaram o projecto, mas estes, humildemente, disseram que o trabalho foi feito por outra pessoa e eles apenas o tinham implementado, pelo que a homenagem devia ser feita à autora do trabalho. Foi daí que Elisa Pedro Gaspar, no dia 05 de Maio, recebeu a homenagem pelo facto de o seu trabalho ter mudado a história de Pernambuco, com a extinção de casos de malária em grávidas e recém-nascidos.

Antes, Pernambuco tinha muitos casos de malária congénita, agora, possivelmente os outros Estados poderão pedir o mesmo trabalhado para implementar. “É um trabalho de que até já me tinha esquecido, dado o tempo passado, mas fico muito feliz pela homenagem. Angola tem muitos servos, Angola tem muitos pesquisadores e muita gente que quer dar o seu contributo para mudar muita coisa, mas, infelizmente não são reconhecidos”, disse.

“Aqui em Angola é assim mesmo”, lamenta, “tive muitas dificuldades ao fazer o trabalho”. Independentemente de ter tido autorização para movimentar as amostras, lembra que uma das dificuldades esteve relacionada com dois colegas da sua equipa que desistiram da investigação porque a directora pedagógica da maternidade, na altura, disse que se eles continuassem jamais seriam especialistas de medicina.

Entretanto, dedica a homenagem que recebeu à Maternidade Lucrécia Paim, às mães que participaram na pesquisa, bem como aos bebés que já devem ter 9 ou 10 anos de idade. Foram 503 pessoas (entre mães e bebés) que participaram.

Disposta a implementar em Angola

Mesmo a ser desvalorizada, mesmo com as pessoas competentes a não pensaram no povo ou na Nação, mesmo a sofrer represálias, a investigadora Elisa Gaspar foi persistente e concluiu o trabalho.

Tudo porque sente que tem de fazer alguma coisa para o seu país, onde a malária é a primeira causa de morte. O estudo mostrou que é possível a mãe com malária passar a doença ao feto, o que pode levar ao aborto espontâneo, à morte da mãe por malária, juntamente com o feto.

“Talvez agora, com este prémio, as pessoas que barraram a sua implementação, repensem. Que o Governo de Angola procure apoiar cada vez mais a investigação científica, pois somos capazes, o que falta é apoio”, sublinhou Elisa Pedro Gaspar, que se mostra disposta a implementar as recomendações do seu trabalho no país, mas reconhece que não depende de si.

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