Yuri Quixina: “Se os países africanos fossem fortes as organizações regionais seriam fortes”

O Economia Real desta edição analisa a inoperância das organizações regionais africanas, os riscos do proteccionismo à luz da nova pauta aduaneira e outros assuntos, com o professor de Macroeconomia, Yuri Quixina

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

O ponto prévio de hoje é africano. Dia 25 de Maio, o continente assinala o seu dia, marcado com elevada dívida pública. O que se lhe oferece dizer?

Certo, África comemora mais um ano desde que alcançaram as independências. É uma data histórica, e os países devem reflectir de onde saíram, onde estão e para onde vão, na medida em que o continente continua a deparar-se com problemas económicos, sociais e políticos. Continuamos na armadilha da pobreza, pouca produtividade, poupança reduzida, dívida elevada e as pessoas continuam a nascer.

A OUA terá cumprido o seu papel que era, essencialmente o da libertação, e a UA tem no centro a integração económica, mas que não acontece. Onde está o erro?

Peter Drucker dizia que ‘não existem países pobres, existem sim países mal geridos’. Penso que ficamos pela primeira fase. Mas África ainda não é independente do ponto de vista económico, e nalgumas partes ainda não é independente do ponto de vista político-militar.

Como atingir a independência plena?

As actuais lideranças de África devem pensar nas crianças que ainda não nasceram, porque a nossa acção hoje tem impacto nas vidas delas. Deng Xiaoping pensou em Xi Jinping, temos que pensar nas gerações vindouras. O africano não pensa nas gerações vindouras. Gestão medíocre, sem foco no longo prazo.

Porque acha que as organizações regionais não funcionam?

São clubes de amigos. Primeiro é que os países são muito fragilizados, fazer organizações regionais é mera conversa, porque as experiências que se prestam entre si são mínimas. Se os países membros fossem individualmente fortes, as organizações regionais seriam fortes. A União Africana depende do financiamento estrangeiro. A China, a União Europeia, e os Estados Unidos da América contribuem para a União Africana. Nós é que somos o demónio de nós mesmos.

Que solução para África?

Lideranças com novas ideias. É preciso capacidade para renovar o sistema económico, político, de educação, saúde, e essa capacidade o continente não tem. Defendo novas ideias e não uma nova geração de políticos. Há diferença entre nova geração e novas ideias, há pessoas que confundem muito.

Dos temas da semana económica, foi destaque o anúncio da extinção da Mecanagro por ser insustentável. Agrada-lhe esta medida, é o que sempre defendeu, é boa notícia?

Sim. Sou capitalista e defendo o capitalismos competitivo de mercado. Quem faz a economia sãos as empresas e as famílias. Não é o Estado. As civilizações não inventaram o Estado para ter empresas. Um país em que o Estado tem muitas empresas, vai ser pobre. É importante dizer que não vamos apenas extinguir empresas, há muitas empresas públicas com salários em atraso. Primeiro devem pagar os salários aos trabalhadores. Há relatos de pessoas com atrasos de 50 meses de salário.

A 34ª edição da Feira Internacional de Luanda já tem data e local. A Zona Económica Especial. Isso tem algum valor especial?

É importante dizer que essa estratégia é para reduzir os custos e na Zona Económica Especial já há uma estrutura, enquanto no Cazenga está tudo degradado.

Preocupa-lhe a degradação das estruturas da FILDA no Cazenga?

Quando o Estado tem propriedades, há maior facilidade de degradarem porque não as utiliza para ter lucratividade. Mas se o espaço fosse de um privado não se degradaria, porque sabe que tem que maximizar para pagar alguns encargos. O mesmo aconteceu com os estádios de futebol.

Acredita que essa edição atraia muitos investidores?

Pode incentivar, tendo em conta a perspectiva do discurso do Presidente da República. Essa edição pode servir de barómetro para medir até que ponto o discurso e alguns actos surtiram efeito.

E a nova pauta aduaneira versão 2017 pode entrar em vigor em Agosto…

Ainda continua a ter um carácter de uma economia intervencionista, em que pretendemos proteger os nossos empresários com políticas proteccionistas. Toda e qualquer política económica tem um único objectivo: aumentar o bem-estar. Se uma política económica aumentar o mal-estar, aumentar os preços, corroerem a renda do cidadão, como a política proteccionista, não vale a pena implementá-la.

Mas, as hoje chamadas ‘grandes economias’, ao longo do seu processo de construção usaram o proteccionismo, não é legitimo Angola usar, tendo em conta estar na fase de construção da sua economia?

Quais foram os custos que tiveram ao implementar políticas proteccionistas, como é que o povo sofreu naquela época. O meu foco são as famílias…

Mas hoje a sociedade americana é próspera!

Depois tiveram que abrir porque o povo exigiu e fez uma pressão enorme.

Você defende a necessidade de sofrer agora para prosperar amanhã!?

Se for para o povo sofrer, não defendo isso.

Insisto nesta questão. Você é um reformista e defende a ideia segundo a qual os processos de reforma são duros, mas com benefícios futuros…

Essa é basicamente a lógica, mas a grande questão que se coloca é que ao sofrer, devemos sofrer todos. A reforma não é para fazer sofrer um grupo, enquanto o outro não sofre. Isso não é reforma. E mais: políticas proteccionistas não atraem o investimento directo estrangeiro.

Na rubrica ‘Conselhos Úteis’, passemos à questão “Como criar o próprio negócio”. Depois de passar da ideia ao registo da empresa, como mantê-la sustentável no longo prazo, considerando que a actual “taxa de mortalidade das empresas é alto?

As empresas sobrevivem dependendo do nicho de mercado em que operam. Os elevados encargos com taxas e impostos são dos principais factores de morte das empresas, porque depois do registo da empresa, começa a contar o registo fiscal. Ser empresário aqui é um acto de heroísmo. Logo, o empreendedor deve ter foco e definir boas parcerias. A gestão é crucial. Deve contratar pessoal necessário e produtivo.

Sugestão de leitura:

Título: A Mentalidade Anticapitalista’, O livro visa defender a economia e modo de produção capitalista, ao mesmo tempo que busca compreender a razão para o repúdio ao sistema mais criticado do mundo. Autor: Ludwig von Mises, economista austríaco Ano de publicação: 1956.