loader

Adilson de Carvalho Gonçalves:“Deficiência nunca foi obstáculo para seguir os meus sonhos”

Adilson de Carvalho Gonçalves, de 30 anos idade, pai de duas filhas, é deficiente físico desde a infância. Diariamente vive dificuldades para se deslocar ao local de trabalho ou ao curso. Quando o faz de cadeira de rodas leva três ou mais horas para chegar ao destino

POR: Maria Teixeira

Embora em algumas ocasiões seja visto como um problema pelos taxistas, e ter de lidar com outras dificuldades que a sociedade impõe aos cadeirantes, como a falta de rampas de acesso em alguns locais e edifícios públicos e privados, Adilson Gonçalves soma e segue. A vontade de vencer honestamente na vida, a fim de proporcionar uma refeição condigna à mulher e duas filhas, constitui a mola impulsionadora da sua vida. Destemido, entre Segunda e Sexta- feira, o jovem deixa o bairro do Mirú, em Viana, com destino a vila desse município, em busca de conhecimento no Centro de Formação Profissional de Construção Civil (CENFOC) ou para atender alguém interessado nos seus serviços de ladrilhador. Para chegar ao destino, recorre aos táxis que levam as pessoas do interior do bairro até à paragem da ponte partida, num dos pontos da Estrada Deolinda Rodrigues, no sentido descendente, onde atravessa para apanhar outro para a vila de Viana. Quando não encontra condutores dispostos a auxiliá-lo na arrumação da cadeira no porta-bagagem, alegando que dá muito trabalho, só tem duas saídas: regressar para casa contra a sua vontade, ou mover a cadeira até ao destino.

Contou que no período da manhã é mais difícil dispor de transporte, apesar de estar em condições de pagar a passagem. “Quando as paragens estão cheias, os cobradores e motoristas não aceitam nos levar, com a pressa de encher o carro para ganhar dinheiro. Não existe amor ao próximo. Eles nos vêem como doentes. Por isso, aproveito para fazer um apelo aos taxistas, no sentido de não nos verem como um obstáculo”. Apesar de ter uma profissão, a falta de clientes, em consequência da crise que o país enfrenta, é o que mais danos provoca ao jovem. A queda nos contratos de trabalho leva-o a enfrentar dias muito difíceis, em que não tem dinheiro para assegurar as refeições dos membros da sua família ou custear a passagem. “Há dias em que tenho que faltar à formação por falta de dinheiro para pagar o táxi. Só estou assim por causa da crise”, justificou-se.

Poliomielite na base

Adilson de Carvalho Gonçalves é deficiente físico desde a infância. Apanhou poliomielite ainda em pequeno, doença viral que lhe compromete o movimento das pernas. O que para muitos poderia ser um factor de desânimo, para ele tornou-se um propósito, uma verdadeira motivação para o alcance dos seus sonhos Trabalhando na área de construção civil, o jovem, informático de profissão, supera os limites inerentes ao exercício desta actividade, considerada de alto risco, por causa da sua condição física, cumprindo “com brio e profissionalismo” as responsabilidades que lhe são atribuídas.

Quando criança, numa época que havia pouco conhecimento e informação sobre os cuidados com os afectados por esta doença, Adilson Gonçalves chegou a ser submetido pelos familiares a massagens e consultas visando a sua melhoria. “A minha deficiência veio muito cedo, quando era bebé, em consequência da pólio. Assim contaram os meus familiares próximos: nasci bem, e depois apanhei a pólio”. Reconhece que os seus familiares tudo fizeram para que recuperasse os movimentos das parnas, mas, acredita, estava “destinado”. Não voltaria a disfrutar de tal condição. Apesar da triste notícia, a família não viu nisso um motivo de exclusão. Fez o contrário. Os pais concederam a Adilson Gonçalves uma vida semelhante à de todos os seus irmãos, “oportunidades, ralhetes, ensino e igualdade”. Segundo filho, no meio de quatro irmãos, sempre foi tratado por igual e nunca com diferença. Diz que toda essa forma de relacionamento era natural, interagiam com ele de uma forma que se sentisse incluído na família.

Um universo de possibilidades

Tudo isso contribuiu para que, desde então, Adilson Gonçalves, não vivenciasse as dificuldades inerentes às de um cadeirante. À sua frente vislumbrava um universo de possibilidades, por essas e outras razões, decidiu fazer o curso de Construções e Edificações, com duração de dois anos, no Centro de Formação Profissional de Construção Civil (CENFOC). Adilson Gonçalves afirma que é responsabilidade da pessoa com deficiência ser o promotor do seu sucesso. Isso é possível pela demonstração de capacidade profissional e pelo diálogo com as empresas e instituições. “Cada pessoa com deficiência tem que fazer a sua própria história e ser parte da mudança dessa sociedade que somos.

O papel da pessoa com deficiência é mostrar às empresas, e não só, como elas devem adequar condições para recebê- la. Mostrar capacidade e não usar a deficiência como uma forma de querer distinção nesse emprego”, declarou. Segundo jovem, a escolha do curso refere-se com o que aprendeu na adolescência com o seu tio e o pai. Conta que desde cedo fez ladrilhagem e canalização com o seu tio, e, depois, trabalhos de electricidade com o pai. Sublinhou que, dada a curiosidade que sempre nutriu pela área da construção civil, foi aprimorando os conhecimentos sozinho. “Atendendo à minha condição física, as pessoas diziam que construção civil não era para mim, pelo que, de princípio, procurei fazer o curso médio de informática e, depois, percebi que a minha vocação é mesmo o ladrilho. Hoje sustento a minha família com os recursos financeiro que ganho exercendo essa actividade de que muito gosto”, confessou. O jovem vive maritalmente, tem duas filhas, e é um exemplo vivo de que o sucesso é consequência do nosso próprio protagonismo. Apercebendo-se da sua vocação, um tio seu recomendou-lhe a formar- se em Construções e Edificações, no CENFOC. “Trabalho nesta área há mais de 10 anos, e vou atingir o mais alto nível, que é a Engenharia Civil, embora seja técnico médio de informática”, ressaltou.

Ambiente escolar favorável

Apesar de estar a fazer um curso que exige muito de si, os seus colegas do curso nunca o discriminaram e nem mesmo os formadores dos módulos. Sempre foi aceite no curso sem nenhuma diferença. “Os meus colegas aceitam-me normalmente, e às vezes pedemme algumas explicações, resultado da minha experiência profissional. Por vezes, sirvo de apoio aos formadores para dar alguma explicação aos colegas. Os formadores não me excluem e põemme sempre à vontade”, explicou. O curso está repartido em módulos. O formador de Instalações Hidráulicas Wilson Alone, que trabalha no centro há dez anos, descreveu Adilson como um jovem dinâmico e com muita vontade de aprender. “Nesse o curso ele é o primeiro, mas já tivemos no centro um jovem com problemas auditivos que, apesar das dificuldades, tanto de parte dele como da nossa, terminou com êxito”, disse.

Primeiro com necessidades especiais

Em entrevista a OPAÍS, o director do CENFOC de Viana, Manuel Pimentel, contou que Adilson é o primeiro formando com necessidades especiais a escolher fazer um curso do género. Os cursos de Construções de Edificações e Construtores e o de Assistente de Topografia e Estruturas Metálicas começaram em Outubro do ano passado. “Temos o primeiro caso num curso de qualificação, mas temos tido outros, noutros cursos transversais como na área de Administração de Serviços, Informática, Contabilidade, etc. E este ano, não sei se por influência desse jovem a fazer o curso técnico de qualificação, temos mais três a fazerem o curso de informática”, contou. O arquiteto urbanista disse que estão a adaptar-se para receber cidadãos com necessidades especiais, com base no estabelecido na Lei de Acessibilidades e Mobilidade.

“Vamos adaptar os acessos colocando rampas. Já está em carteira. Serão os próprios formandos a construir um elevador no edifício quando entrarem na fase da prática, no segundo semestre, a fim de suprimir as barreiras arquitectónicas, criando possibilidade de diminuir as restrições no acesso ao centro”, disse. Salientou ainda que “é a prática do eu quero, eu posso”, e a restrição, por vezes, é só física e não intelectual. Os cursos do centro abrem várias possibilidades e se o aluno quer ele consegue.

Assim que concluir a formação, Adilson terá melhores condições técnicas para ladrilhar e fazer o assentamento de paredes até uma certa altura, desde que tenha um ajudante. Poderá, igualmente, orientar projectos e fazer medições orçamentais. “Então, não há limites para quem quer vencer, desde que tenha força de vontade. Nós nunca pusemos barreiras à pessoa com alguma deficiência. Temos adaptado os professores para essas situações”, frisou. O Centro de Formação de Construção Civil, criado em 2008, está localizado na Vila Chinesa, município de Viana, em Luanda. Ministra diversos cursos, sendo os mais procurados o de Canalização, Pedreiro, Frio Comercial e Industrial, Pintura e Estuque e Soldadura. De acordo com o seu director, já formou mais de seis mil pessoas.

Últimas Notícias