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Livro de Carmo Neto analisado na II edição da aula literária pelo Movimento Litteragris

A obra publicada sob a égide da União dos Escritores Angolanos, intitula-se “Degravata”, reúne 23 contos e crónicas, e está inserida na colecção “Sete Egos”

POR: Augusto Nunes

“Degravata” a mais recente obra literária do escritor Carmo Neto foi levada, esta Quarta-feira, à reflexão na União dos Escritores Angolanos, pelo Movimento Litteragris, agremiação artístico-literária com um pendor para academia. A actividade que juntou estudantes do Instituto Ciências Religiosas (ICRA), da Faculdade de Letras, da Universidade Agostinho Neto, escritores, bem como o público leitor, no âmbito do projecto “O leitor e o autor”, foi objecto de uma aula de campo, onde o autor observava os pontos de vista apresentados pelo leitor sobre a referida obra. Curiosamente, nesta aula de aproximadamente duas horas de duração, moderada por Hélder Simbad, os jovens prelectores, que por sinal são estudantes de literatura, pelo ICRA, concentraram- se, na análise textual do conto “O novo professor”, retirado da obra “Degravata” do escritor Carmo Neto, o homenageado desta II edição.

António Chitota Campos, um dos prelectores do evento, ao de bruçar-se sobre a obra, apresentou inicialmente uma sinopse, tendo em seguida feito uma análise estrutural da narrativa, remetendo- nos à vivência de um professor, que desejando ser Ministro, decidiu hospedar em sua casa um curandeiro, mas não obteve sucesso e não foi nomeado, facto que o deixou nervoso, chegando ao ponto de espancá-lo. Neste conto, os alunos lembram o professor para conferir se teria sido o mesmo, que desejava ser ministro e quis “garinar” com a Bela, sua aluna. Marcelo Castelhano, o outro jovem a quem também coube a análise da estrutura interna e externa da mesma obra, referiu que a narrativa textual retrata a vida de um jovem corajoso, muito dedicado aos estudos, simpático e muito respeitado pelo perfil que ostentava, pelas ideias que passava, bem como pela esperança que dava no que diz respeito à mudança e o desenvolvimento do país em que estava inserido.

Ernesto Daniel, membro fundador do Movimento Litteragris, na sua sócio-crítica, intitulada “Um olhar no que quer interessante”, realça que uma obra literária constitui um modo de apresentação de certa realidade, estando intrinsecamente ligada aos modos como um determinado povo se afirma culturalmente. O prelector recordou que, na literatura, esses modos são descritos de forma aleatória por via de um nível de discurso eminentemente social, na óptica de Edmund Cros. Referiu que é deste discurso social empregado na obra “Degravata”, que os levou a analisá-la no âmbito da sócio-crítica, em que abordaram os aspectos sociais vinculados aos 23 contos que compõem o livro, sem que se perca de vista a dimensão sistemática do discurso estético.

Ernesto Daniel salienta, que o primeiro conto, “Degravata”, dá título à colectânea, constituindo assim uma quebra linguística incomum. O título, segundo o também docente universitário, traz uma abordagem esteticamente verossímil ao contexto onde está inserido o autor. Ernesto Daniel realçou, igualmente, que numa perspectiva de aglutinação estilística, “Degravata” é a junção de preposição de (De) com o substantivo (Gravata) ganha novos contornos semânticos, que no âmbito da sócio-crítica procura abranger o facto literário com a colocação do texto nos discursos sociais; O lugar onde os diferentes discursos entram em circulação na sociedade, num momento dado, materializando-se no texto literário, em conexão com o conjunto do que se diz, do que se imprime e do que se escreve durante o estado de uma sociedade.

A obra

O livro com 52 páginas, foi publicado sob a chancela da União dos Escritores Angolanos e tem o prefácio de Laura Padilha e a introdução de José Luís Mendonça. Reúne 23 contos e crónicas, e está inserida na Colecção Sete Egos e com capa ilustrada pelo artista plástico Benjamim Sabby.

O escritor

Nascido a 16 de Outubro de 1962, em Malanje, Carmo Neto é advogado e jornalista. Membro da Ordem dos Advogados de Angola e da União dos Jornalistas Angolanos. Exerceu a função de director da Revista Militar das Forças Armadas Angolanas, durante os anos 80, tendo sido primeiro por eleição e depois por nomeação. É membro fundador do Jornal Desportivo Militar. Concluiu o curso de Direito em 1988/89, o que lhe conferiu a possibilidade de exercer advocacia, num escritório próprio. Publicou A Forja (1985), Meu réu de colarinho branco (1988), Mahézu (2000), Joana Maluca (2004) e Degravata (2017).Tem neste momento duas obras por publicar, sendo uma de contos e outra, uma novela. Os seus contos integram diversas antologias publicadas em Angola e fora do país, estando assim traduzido em inglês, francês, árabe e espanhol.

A organização

O Movimento Litteragris é uma agremiação artístico-literário com um pendor de academia, fundada a 17 de Outubro de 2015, no salão nobre da União dos Escritores Angolanos. É uma organização artístico- literária juvenil que nasce da necessidade de se ampliarem os espaços de transmissão de conhecimentos literários, que até então era apenas tarefa da Faculdade de Letras, ISCED e da União dos Escritores Angolanos, através do seu programa esporádico, “Makas a Quarta-Feira”. Por força disso, o Movimento tem como actividades aulas de Filosofia e Arte, Introdução aos Estudos Literários, Língua Portuguesa, Literatura Angolana e Análise Literária, realizadas aos Domingos das 14 às 17 horas e 30 minutos na Escola 5004, localizada na Vila de Viana, em Luanda. Litteragris é a fusão de dois termos latinos: Litter (letras) e Agris (campo). É o primeiro Movimento Juvenil de Angola a definir uma poética comum, consubstanciada na fusão de escolas literárias angolanas com o surrealismo, concretizado através de uma linguagem algo simbólica., procurando assim, pintar uma proposta estética diferente no quadro da literatura angolana.

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