garantia de segurança no “Malueca” custa 100 Kz por dia a cada casa

Um grupo de cidadãos estrangeiros continua a fazer patrulhamento no bairro da Mulenga, alegadamente para garantir a segurança das residências, combatendo os marginais, apesar de a Polícia Nacional ter proibido tais acções, por ser a segurança da sua inteira responsabilidade

  • Texto de: Milton Manaça
  • Foto de: Carlos Augusto

O bairro situado entre os municípios de Cacuaco e do Cazenga, em Luanda, tornou-se popular nos últimos dias por conta dos relatos de pessoas queimadas, mortes e outros casos de justiça feita por mãos próprias. Zonas acidentadas, ruas de difícil acesso e sem iluminação é o cenário que caracteriza vários pontos do temível bairro Malueca.

A população diz que a Polícia nunca se responsabilizou pela sua segurança e o bairro é altamente perigoso, razão pela qual a sua segurança foi entregue a um grupo de cidadãos estrangeiros de confissão religiosa islâmica, a troco de 100 Kwanzas, pagos diariamente por cada residência.

Lussaty Moisés, residente no Malueca há mais de 20 anos, é um dos que testemunhou o surgimento do grupo há quatro anos e diz que a ele se deve a tranquilidade, embora pouca, mas quanto baste, para as pessoas colaborarem com o referido grupo, pagando o montante acima mencionado e denunciando os malfeitores.

“São os muçulmanos que nos ajudam aqui. Por isso, é normal que cada um de nós contribua com este valor”, frisou, acrescentando de seguida que “o acordo tem trazido vários benefícios aos moradores”.

Cada residência tem o registo do nome e o contacto telefónico dos integrantes do grupo, apelidado de “Os muçulmanos”, que são accionados a qualquer hora do dia, caso haja assaltos ou qualquer perigo iminente de moléstia por parte dos marginais, principalmente no período nocturno.

Por volta da 1hora da madrugada de ontem, diversos agentes da Polícia Nacional dos dois municípios fizeram uma ronda pelo bairro, surpreendendo os moradores, alguns dos quais afirmaram ser a primeira vez que são contemplados em acções do género.

“Estamos surpreendidos por ver a Polícia, porque nunca passaram neste bairro”, disse Ana Joaquim, de 29 anos, enquanto presenciava a detenção de dois jovens, na zona do Campo da Poeira, por suposto crime de desacato à autoridade.

No Cazenga, conforme presenciou a equipa de reportagem de OPAÍS, participaram 150 efectivos da Ordem Pública, Polícia de Intervenção Rápida (PIR), Brigada Canina e agentes reguladores de trânsito.

A munícipe Ana Joaquim realçou que os moradores sempre consideraram Malueca como um bairro esquecido pelas autoridades, apesar dos sucessivos apelos que foram fazendo à Polícia e às comissões de moradores. A interlocutora afirmou que nem todos contribuem com o valor estipulado, mas realça que todos sentem os efeitos da acção de “Os muçulmanos”, vistos como heróis do bairro.

Aqueles com quem cada agregado familiar pode contar sempre que vir a sua integridade física em risco. Apesar de já existir uma alegada proibição por parte da Polícia Nacional, o Malueca ainda continua a ser guarnecido pelos “Muçulmanos”, segundo contaram os interlocutores.

Cantina assaltada cinco vezes

Residente há 15 anos em Angola, o cidadão de nacionalidade tchadiana, Hamed Hadrack, é um dos que por várias vezes foi vítima de assaltos. Segundo Hamed, a delinquência atingiu proporções alarmante, sendo as cantinas um dos alvos preferenciais dos marginais que fazem recurso a armas de fogo de diferentes tipos e calibres.

Uma das suas cantinas que já foi alvo de cinco assaltos consecutivos, sendo que numa das ocasiões foi tirado da cama, em casa, para ir abrir o estabelecimento que se encontra noutra rua. Os delinquentes entram nas residências pelo tecto ou arrombando as portas e janelas.

Na ocasião, o interlocutor mostrou-se satisfeito pelo facto de a Polícia iniciar com as rondas no local, enfatizando que proporcionará maior tranquilidade aos seus habitantes. Entretanto, alertou que só se alcançarão os objectivos preconizados caso o patrulhamento seja frequente e houver prontidão no atendimento às solicitações dos cidadãos.

Importa referir que na semana passada a Polícia Nacional anunciou que os bairros mais violentos dos municípios de Viana, Cacuaco e Cazenga serão reforçados por 500 efectivos da Polícia de Intervenção Rápida (PIR), Cavalaria e Cinotecnia e um núcleo que se responsabilizaria pelas buscas de informações.
“Esse trabalho é da competência da Polícia”

Numa entrevista recente à imprensa, o director do gabinete de comunicação Institucional e Imprensa da Delegação do Ministério Interior (MININt) em Luanda, Mateus Rodrigues, reconheceu a existência do grupo de cidadãos estrangeiros que tem feito a segurança do bairro Malueca.

Mateus Rodrigues disse que “esses elementos extrapolaram os seus limites realizando actividades que é da exclusiva competência da Polícia”, acrescentando que o grupo de cidadãos foi cometendo crimes, facto que levou a Polícia a orientar que as actividades fossem cessadas e consequentemente detidos dois integrantes dos “muçulmanos”.

Os dois detidos são acusados de fazerem parte da milícia que mataram os jovens Luís Evaristo e Isaquiel Lupassa, de 18 e 28 anos de idade, respectivamente, quando estes saíam de uma festa.

Esses dois cidadãos terão sido abordados pelos que realizavam patrulhamentos no bairro com o propósito de manter a ordem e tranquilidade na zona. Na manhã seguinte, ambos foram encontrados mortos, carbonizados numa vala no bairro comandante Bula.