Apenas 16% das mulheres fazem planeamento familiar

A maior parte das unidades de saúde no país, desde o nível primário ao terciário, não oferece serviços de planeamento familiar, pelo que, a taxa de uso de contraceptivos é de 16%, no geral, quando o nosso país deve atingir os 50%. Enquanto isso, o crescimento económico não acompanha o crescimento populacional

Texto de: Stela Cambamba

A falta de técnicos capacitados, a escassez ou mesmo falta de contraceptivos nas unidades sanitárias, incluindo dificuldades organizacionais para prestar planeamento familiar, contribuem para a baixa taxa de uso de contraceptivos, tendo em conta as metas que o sector da saúde pretende alcançar, de 50% no geral.

Segundo a médica e mestre em ciências de saúde, Hirondina Concobica, há necessidade de aumentar o uso de contraceptivos em mulheres em idade reprodutiva, tendo em conta que a taxa de prevalência de contraceptivos ainda é muito baixa, e dos 16%, no geral, 13% são mulheres casadas. Embora reconheça que não será fácil aumentar a taxa, pois devese primeiro trabalhar as mentes, não só das mulheres como também dos próprios parceiros.

O trabalho desenvolvido neste sector para diminuir as mortes maternas, porque as mulheres dariam espaço suficiente entre os filhos, e não teríamos a média de fecundidade de seis filhos por cada mãe. “Toda a mulher com a vida sexual activa e em idade reprodutiva, dos 15 aos 49 anos, deve saber que de uma relação pode ocorrer uma gravidez, por isso, é essencial saber prevenir, e é através do planeamento familiar que se vai tomar as precauções necessárias”, adverte.

A médica falava à margem do Workshop realizado ontem em alusão ao Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher, uma reflexão foi desenvolvida em redor das múltiplas dimensões que caracterizam a mortalidade materna em Angola e as estratégias concebidas pelo Ministério da Saúde para promover uma maternidade segura.

Outra preocupação levantada pela médica incidiu nos métodos de planeamento familiar distribuídos gratuitamente pelo Governo. Apontou que algumas unidades sanitárias que não oferecem métodos, e outras devido a constrangimentos como transportes, o produto não chega. Este facto concorre também para a baixa taxa de adesão ao planeamento familiar, sendo que a carência nas instituições está geralmente associada à própria organização do sistema ou da unidade de saúde.

Unidades sanitárias sem as condições necessárias

A especialista defende que o planeamento familiar ajuda a planificar a vida, mas continuou a lamentando que o facto de as unidades sanitárias do país não oferecerem estes serviços, desde o nível primário ao terciário, dificulta a concretização dos objectivos. Fala disso porque não existem, em muitas unidades, técnicos capacitados, contraceptivos, ou os serviços disponíveis não estão devidamente organizados para o efeito.

Na ocasião, o médico Paulo Adão de Campos, explicou que desde 1994 a mortalidade materna tem vindo a decrescer, considerando que os números eram 1400 mortes por 100 mil nados vivos, graças ao esforço desempenhado pelos técnicos do sector da saúde.

Em 2015, por exemplo, registaram- se 477 mortes por 100 mil nados vivos. Os dados actuais apontam para 200 casos. Apesar desse dado, o país ainda está mal, disse, porque segundo a Organização Mundial da Saúde, os valores acima de 100 e 150 são preocupantes, sendo que os melhores são os que situam-se abaixo de 20 mortes por 100 mil nados vivos.

A meta que se pretende para o período 2016-2030 é que a mortalidade materna desça para 70 mortes por 100 mil nados vivos. Para tal, reconhece que o sector da Saúde ainda tem uma grande caminhada pela frente e é preciso que haja mudanças de mentalidade para diminuir esta cifra.

Segundo o médico, estas mortes estão associadas a causas directas, mormente as complicações que ocorrem durante a gravidez, como a hipertensão, pré-eclampsia, cesarianas, hemorragias pós-parto, abortos realizados de forma insegura, a malária, o VIH, e a drepanocitose ou anemia de células falciformes.