50 ravinas ameaçam engolir Cuito Canavale

Além de viverem preocupados com as constantes quebras de reservas de medicamentos e a quantidade reduzida de técnicos de saúde na única unidade hospitalar, os munícipes do Cuito Cuanavale, província do Cuando-Cubango, enfrentam agora o desafio de estancar as ravinas

POR: Paulo Sérgio,
enviado ao Cuito-Cuanavale

À saída da sede da cidade do Cuito Cuanavale, no sentido que vai à vila de Sá Maria, uma enorme ravina destruiu a estrada que a liga à comuna do Lupire e aos municípios de Mavinga e de Nancova. Esta é uma das mais de 50 ravinas que surgiram em consequências das chuvas que se bateram, este ano, sobre este território da província do Cuando-Cubango. Para não impedir a circulação de pessoas e bens entre as áreas já mencionadas, abriram-se algumas picadas, onde os veículos passam com alguma dificuldade. O regedor municipal do Cuito Cuanavale, Lituai Cativa, em declarações ao jornal OPAÍS e à Rádio Mais (dois órgãos do Grupo Média Nova), disse que o assunto já é do domínio do governo provincial, pelo que aguardam que sejam tomadas as medidas adequadas. “O governador Pedro Mutindi disse-nos que só não intervieram até agora por falta de dinheiro.

Assim que o Governo Central disponibilizar as verbas contratarão as empresas que vão solucionar este problema”, frisou. O Ministério do Ambiente e as organizações ambientais juvenis, segundo Baptista Ventura Camelo, delegado provincial da Juventude Ecológica de Angola (JEA), também gizaram um plano para as estancar. “Existem muitas ravinas na nossa província, só no município do Cuito Cuanavale contabilizamos mais de 50. Preocupam- nos bastante porque elas surgem à medida que vai chovendo”, disse. O ambientalista precisou que, entre os locais mais afectados, estão a sede municipal e os bairros ao seu arredor.

Neste momento, estão a criar viveiros de algumas árvores que serão plantadas nos locais onde existem ravinas. O regedor Lituai Cativa explicou que das quatro comunas que existem no município, nomeadamente, Cuito-Cuanavale, Longa, Baixo Longa e Lupire, esta é a que menos infra-estruturas sociais tem. “Não tem escola. Existe uma em construção, mas as obras foram suspensas. Não tem casa de passagem da Administração. Só se vai para lá com viatura a todo terreno porque as estradas também não estão boas. Ali faltam muitos serviços básicos”.

Veteranos lutam pelo reconhecimento

João Tchiama, de 43 anos, antigo condutor de tanques de guerra BMP, um dos quais exposto no museu a céu aberto, que aproveitou a presença de oficiais superiores das Forças Armadas Angolanas no Museu Vitória à Batalha do Cuito Cuanavale, na Sexta-feira, 25, a para dar a conhecer algumas das suas aflições às pessoas com quem diz ter cerrado fileiras contra os invasores. Na esperança de vê-las, resolvidas. “Fui das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), estou desmobilizado mas não recebo dinheiro a partir do DRM (Departamento de Registo Militar), onde fui cadastrado”, frisou, para de seguida acrescentar, “O meu pai e a minha mãe já morreram. Eu sofri na mata e não estou a receber recompensa”. Disse ter sido informado pelos técnicos do DRM que parte do processo dos cidadãos cadastrados foi transferida para a província do Moxico, onde terá de se deslocar com o intuito de resolver o seu problema.

O que, para ele, torna- se impossível por não ter recursos financeiros para custear a passagem do Cuito-Cuanavale para a maior província do país. João Tchiama sustentava, até então, a sua família com os produtos, que produzia na sua lavra, só que, alguma tempo atrás, viu-se obrigado a deixar de exercer esta actividade após ter “accionado uma mina tradicional”, vulgarmente chamada “tala”. Para agudizar ainda mais a sua situação, a sua mulher faleceu, pelo que viu-se obrigado a entregar a única filha a um dos seus familiares que reside no Cuito, província do Bié. Enquanto o seu problema não é resolvido, o nosso interlocutor sobrevive com a ajuda de terceiros.

Francisco Marque, natural e residente no Cuito-Cuanavale, disse a presença constante de oficiais superiores das Forças Armadas Angolanas (FAA) neste local, desde a inauguração do Memorial Vitória à Batalha do Cuito Cuanavale, serviu de oportunidade para os veteranos de guerra que não beneficiavam de apoio do governo terem este privilégio. “Muitos dos nossos mais velhos que combateram em defesa da pátria e não eram reconhecidos, passaram a sê-lo”, frisou. Segundo ele, fez-se, recentemente, o cadastramento de muito deles e, por conta disso, no mês passado alguns foram agraciados com um subsídio de 50 mil Kwanzas cada um. Há ainda alguns deles, que estão na terceira idade, a aguardar por esse reconhecimento por parte do Estado.

Falta de polo-universitário e emprego forçam emigração

A falta de um polo universitário nesta localidade e de emprego está a forçar os jovens a emigrarem para outras partes do país após concluírem o ensino médio ou técnico profissional. Libertina Gabriel, de 23 anos, finalista do curso médio de geografia e história, está a reunir as condições para emigrar o próximo ano ao Lubango, capital da província da Huila, a fim de dar sequência aos estudos, pelo facto de não existir polo universitário nesta localidade. A jovem, que pretende formar-se em enfermagem, disse que pretende regressar à sua terra natal formada a fim de acudir os munícipes. Alberto Canga, outro munícipe, descreveu a falta de emprego como um dos maiores problemas que afligem os jovens. “Aqui só há emprego quando abre concurso público nos sectores da educação, e saúde bem como para provimento de vagas nas administrações municipal e comunais”, detalhou. A alternativa tem sido as empresas de construção civil a quem o Estado ou empresários contratam para erguer algum empreendimento no município. O que não acontece há já algum tempo. “Por falta de emprego, alguns jovens estão a dedicar-se à criminalidade”. João da Silva, de 22 anos, é um dos jovens formados em electricidade no centro local do MAPTESS. “Graças a esta formação tenho sido contratado para fazer instalações eléctricas em residências e, deste modo, consigo ajudar a minha família”.

Na falta de hotel, só resta acampar…

Por falta de alojamento, os turistas que se deslocam a esta parcela do território nacional montam acampamento na área do emblemático triângulo do Tumpo, localizado há menos de 100 metros do bairro de Sá Maria. Como aconteceu com a comitiva de turistas sul-africanos que se deslocaram, recentemente, ao local. Outros há que se hospedam nas residências disponibilizadas pelo governo, no quadro do projecto de requalificação desta sede municipal, a escassos metros do Museu. Outros montam as suas próprias tendas junto de tais imóveis para pernoitarem. “Os turistas têm vindo já munidos de materiais, entre os quais, tendas e exploraram da melhor maneira possível os locais turísticos existentes cá no município do Cuito Cuanavale”, disse o munícipe Baptista Camelo. Próximo a entrada do Memorial há um aldeamento turístico em construção cujas obras, de acordo com Alberto Canga, foram suspensas em consequência da crise financeira que o país atravessa. Actualmente, existe apenas um restaurante na sede do município. “Se tivermos tais infra-estrurturas os visitantes poderão permanecer mais tempo aqui e deixar dinheiro, através do consumo, frisou.” No entanto, apela tanto aos cidadãos nacionais como aos estrangeiros que visitem esta localidade para desfrutarem do investimento que o governo fez, a fim de honrar todos aqueles que se bateram pela preservação da integridade territorial do país. Francisco Marques apela ao Executivo local e Central que implemente políticas que atraiam os empresários nacionais e estrangeiros para investirem neste município, no ramo de hotelaria e turismo e não só.