Jornalista russo crítico do Kremlin está vivo; morte foi encenada pela Ucrânia

Russian journalist Arkady Babchenko, who was reported murdered in the Ukrainian capital on May 29, attends a news briefing by the Ukrainian state security service in Kiev, Ukraine May 30, 2018. REUTERS/Valentyn Ogirenko - RC185EB8CE30

O jornalista russo crítico do Kremlin, Arkady Babchenko, cuja morte foi anunciada por autoridades ucranianas nesta Terça-feira, está vivo e apareceu perante os jornalistas nesta Quarta-feira.

Kiev explicou que encenou a sua morte para frustrar o seu assassinato encomendado pela Rússia. Numa reviravolta improvável, este ex-soldado russo que se tornou repórter de guerra, exilado em Kiev, onde disse ser regularmente ameaçado, apareceu na frente das câmeras e explicou que ele próprio participou na encenação como parte de uma “operação especial” preparada há dois meses. A sua aparição foi recebida com aplausos e exclamações de incredulidade pelos seus colegas. “Eu realmente gostaria de agradecer aos Serviços de Segurança da Ucrânia por terem salvado a minha vida”, declarou. “Gostaria de pedir desculpas à minha esposa pelo inferno que ela viveu por dois dias”.

As forças de segurança ucranianas, no entanto, asseguraram que a sua família estava ciente da operação, que visava frustrar uma tentativa de assassinato pela qual um homem apresentado como o “organizador” foi preso. “Graças a essa operação, conseguimos frustrar uma provocação cínica e documentar os preparativos para esse crime pelos serviços especiais russos”, declarou o chefe dos serviços de segurança ucranianos (SUB), Vassyl Grytsak.

Um detido “Prendemos o organizador deste crime três horas atrás, em Kiev”, acrescentou Grytsak, explicando que o homem havia recebido 40.000 dólares dos “serviços especiais russos” para preparar o assassinato. O anúncio da morte de Arkady Babchenko, crítico ferrenho do Kremlin, exilado em Kiev depois de ser ameaçado na Rússia, causou grande comoção na Ucrânia e na Rússia. Na Terça-feira à noite, a Polícia anunciou que o repórter de 41 anos havia sido baleado várias vezes nas costas ao chegar ao seu apartamento em Kiev. O primeiro-ministro ucraniano, Volodymyr Groisman, imediatamente apontou “a máquina totalitária russa”. O director dos Serviços de Segurança Russos (FSB), Alexander Bortnikov, descreveu as acusações da Ucrânia como “absurdas” e “provocativas”. O Kremlin “condenou veementemente” o assassinato e disse “esperar uma verdadeira investigação”.

Babchenko afirma que tem sido ameaçado desde que passou a denunciar o papel da Rússia no conflito no Leste da Ucrânia. A 20 de Julho de 2016, um colega, o russo-bielorrusso Pavel Sheremet morreu na explosão de uma bomba colocada debaixo do seu carro em Kiev, um caso que ainda não foi esclarecido. Após o anúncio do assassinato de Arkady Babchenko, a União Europeia pediu uma “investigação rápida e transparente” para punir os responsáveis. Simulação ‘dolorosa’ A ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), que havia instado a Ucrânia e a Rússia a “cooperarem” para esclarecer esse “acto desprezível” em vez de “se envolver numa perigosa guerra de informações”, condenou nesta Quarta-feira uma simulação “dolorosa”. Esta manhã, dezenas de jornalistas se reuniram em frente à embaixada russa. Outra mobilização estava prevista para a noite na praça central de Kiev. Arkady Babchenko participou nas duas guerras da Chechênia como soldado antes de se tornar um jornalista muito crítico contra o Kremlin.

Ele havia relatado a sua experiência nas guerras nesta república russa do Cáucaso no livro, “One Soldier’s War”. Antes de deixar Moscovo, trabalhou para o jornal Novaya Gazeta e para a rádio Echo de Moscou, dois meios de comunicação críticos do Kremlin. Arkady Babchenko também cobriu o conflito no Leste da Ucrânia entre as forças ucranianas e separatistas pró-russas. Ele denunciou o papel da Rússia, apoiando a tese de Kiev e dos ocidentais segundo a qual Moscovo apoia militarmente os rebeldes. O jornalista deixou a Rússia em Fevereiro de 2017, denunciando uma campanha de “assédio”. Ele primeiro morou na República Checa e em Israel, antes de se estabelecer em Kiev, onde apresentava um programa de televisão.