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Dia da Criança significa mais uma noite ao relento para dezenas em Benguela

Hoje, 1 de Junho de 2018, é Dia Mundial da Criança. No município sede de Benguela, o número de crianças de (e na) rua é assustador, são às centenas. Para esta efeméride, OPAÍS saiu à rua, de madrugada, para ver e saber como é que esses miúdos passam a noite.

POR: Zuleide de Carvalho, em Benguela

O último balanço feito pelo INAC em Benguela, no segundo trimestre de 2017, diz que havia no município sede 341 crianças de (e na rua), respectivamente, 264 rapazes, 77 raparigas, dos 8 aos 17 anos. Na madrugada de ontem, em véspera do Dia Mundial da Criança, OPAÍS percorreu em alguns pontos tidos como locais para pernoitar, no município de Benguela, pelo menino de rua. Apesar dos perigos que a vida nas ruas oferece, sem tecto nem paradeiro fixo, 84% dos miúdos com quem conversamos admitem ter saído de casa porque queriam.

Os riscos diários são inúmeros, todavia, iludidos com o dinheiro “fácil”, fruto de pequenos trabalhos que fazem na rua, os rapazes abandonam os lares. Bruno Tomás é um deles. Há quase um ano que vive na rua, tem apenas 13 anos. Sobre a família, mencionou a avó, com quem vivia antes, mais a irmã mais velha. Contudo, porque “falavam bwé, só (isso) mesmo”, referindo- se aos ralhetes de que alega ter sido alvo constantemente, fartou-se e fugiu. Desenrascando nas artimanhas aprendidas nas ruas, há um quintal onde tomam banho de graça. Compra feijoada e arroz a 300 Kz para o almoço e broa para o matabicho. Habituado, diz não temer dormir ao relento.

Largar as regras de casa e receber a libertinagem da rua

Outro menino que disse chamar- se Francisco José Machado, de 13 anos, vive na rua há três semanas, por razões que não soube explicar, mas que acredita ser “por nada mesmo, é só a minha malandrice”. Francisco foi alvo de um dos perigos eminentes das andanças nas ruas, tendo sido atropelado por um carro na última Sexta feira, dia 25 de Maio. Amenizando o problema, o condutor parece ser um “bom samaritano”. Desde então, leva o miúdo à clínica para fazer curativos nas feridas que lhe causou no na perna direita, dá-lhe medicamentos e oferece-lhe três refeições por dia.

A criança deixou a casa onde residia com pais e 5 irmãos, e escolheu o Largo de África para viver, dormindo no chão, com outros 15 meninos de rua. Com o advento do Cacimbo, questionado se tinha roupas para além dos calções e casaco que vestia, disse que não, tendo reconhecido que “sentimos muito frio mesmo”. Francisco abandonou a escola porque foi batido pela professora, com uma mangueira e, confessando ser rebelde, agarrou na mangueira e a devolveu. Foi sujeito a aconselhamento educativo mas, achou aborrecedor, logo, desistiu dos estudos. O recolher habitual é quando o restaurante mais próximo fecha porque, já não têm “bosses” a quem pedir dinheiro ou lavar os carros. Ponderando, adiantou: “quando a minha ferida curar, talvez volte à casa”

As crianças de rua e as drogas

Das cerca de duas dezenas de crianças com quem a equipa de reportagem conviveu neste trabalho, uma parcela significativa apresentava indícios de estar sob influência de alguma substância tóxica, um hábito de consumo, entre eles. Lamentavelmente, dos presentes nos dois pontos onde se fizeram as entrevistas, o menino mais novo, de 11 anos, que há meses deambula pelas cidades das Acácias Rubras, estava num estado de “ausência mental” quando interpelado. Com reacções lentas, andar arrastado, olhos mortiços e sem emitir qualquer palavra por mais perguntas que OPAÍS fizesse, ou mesmo às colocadas pelos seus “amigos” de rua, estava obviamente “drogado”, confirmaram os outros. Mais tarde, quando recuperou, disse não saber ler nem escrever, porque nunca estudou, porém, sabe contar, tendo OPAÍS testemunhado quando conseguiu 20 Kz dos últimos clientes do restaurante, no campo de ténis.

Não quis dizer o nome mas aceitou ser fotografado. A família vive na sede municipal, num bairro próximo, todavia, dorme fora de casa muitas vezes. Ontem, perto da 1:00 da manhã, disse “é muito tarde” para voltar, pelo que prometeu que de manhã voltaria. Não tendo lençol, paga 50 Kz para o aluguer de um, que partilha com três miúdos. Já Manuel Afonso, de 18 anos, saiu do Bié há dois anos. Conseguindo boleia nas estradas, parou em Benguela e por cá tem feito a vida, lavando carros de dia, dormindo ao relento à noite. O seu discurso era meio incoerente, mas fez saber que as circunstâncias da vida levaram-no a abandonar o lar e mudar de província. “Durmo onde calhar. Às vezes, não vejo dinheiro, e alimento- me no contentor de lixo”, disse. Quando os carros para lavar escasseiam, há quem lhe mande transportar coisas diversas, ou comprar saldos para ganhar alguns trocos. Para tomar banho, faz uso do mar, na Praia Morena e, quanto às necessidades digestivas e intestinais, disse aliviar-se em qualquer lugar.

Quando se quer voltar para casa e não pode

É a história de César Santiago, um adolescente de 15 anos. Sonha ser mecânico ou bombeiro, hoje, vive na rua. Natural do Huambo, lá vivia com a mãe e dois irmãos, até há três meses. Nessa altura, o pai tê-lo-à trazido a Benguela para passar férias com a madrasta. Postos na casa da senhora, algures no município sede, o pai ausentou-se para o Lubango, para breve período, todavia, não mais voltou. A madrasta terá agredido fisicamente o enteado, expulsando- o da sua casa e ameaçando-o, para que nunca mais regressasse. O rapaz voltou algumas vezes, para ter notícias do pai, atrevendo-se a pernoitar, às escondidas. De manhã, teve pouca sorte. Foi encontrado pela madrasta, tendo sido novamente espancado e expulso. O azar continuou, pois o dinheiro juntado a trabalhar, para regressar para o Huambo, foi-lhe roubado enquanto dormia ao relento. Nas ruas também já foi espancado, pelos “maus”, apelido para os delinquentes e toxicodependentes. Uma vez, três desses obrigaram-no a drogar-se, agredindo-o e a um guarda que o tentou proteger. O dinheiro conseguido a lavar 4 carros diariamente, não chega para comidas quentes. “Compro pão, como bolacha, só assim”, queixou-se. Tem um esconderijo para o cobertor e dorme num telhado, para não voltar a ser roubado.

Projecto solidário tenta devolver-lhes o tecto

Brooks Telmo, de 30 anos, criou um grupo filantrópico para convencer os pais a aceitarem os filhos de volta e, estes, a reaprenderem a viver sob um tecto, oferecendo-lhes apoio constante em encontros bi-mensais. Para tal, há uma semana, rastreou aproximadamente 50 crianças e jovens, pelo município de Benguela, reuniu-se com eles num largo público, conversaram, fez o cadastro de parte deles, os que aceitaram e, prometeu ajudá-los. No final do encontro, serviu-lhes um panelão de sopa, com pão e água mineral e deu-lhes t-shirts mandadas fazer, com a mensagem motivacional gravada: “se não pode mudar o seu destino, mude a sua atitude”. À causa juntaram-se cinco pessoas. Tarefas distribuídas, o nome surgirá quando a associação for legalizada. Andando com OPAÍS na madrugada de ontem, anunciou que hoje, Dia da Criança, farão uma gincana com “algumas surpresas”. Reunirão também esforços para pagar a emissão de registos para quem não tenha e incutir-lhes a Palavra de Deus mas, estão cientes que muitas crianças mentem e poderão esquivar-se mas, não querem delas desistir.

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