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Pedro Fançony: “A música clássica pacifica e tranquiliza a criança”

É o mentor da Orquestra Sinfónica Kaposoka criada há 10 anos no actual distrito urbano da Samba, que volvido esse tempo, hoje – à guisa de balanço, enaltece as conquistas que este projecto de música clássica tem vindo a somar – ao longo desta entrevista que o OPAÍS fez a este homem de cultura

POR: entrevista de Jorge Fernandes
fotos de Virgílio Pinto

O projecto teve início em 2008 e este ano completa 10 anos de existência. Que balanço faz desse percurso?

Muito positivo. Conseguimos ajudar que as crianças ocupem os seus tempos livres com uma actividade útil. É sempre bom. Em geral, sabe que as crianças nos bairros estudam em escolas primárias públicas ou em colégios. E esses estabelecimentos escolares ocupam-lhes apenas um período do dia. De modos que a outra parte do dia fica vaga. E embora algumas crianças tenham a possibilidade de frequentar um ATL, muitas outras não. De maneiras que, para estas últimas, os tempos livres são ‘perigosos’. Porque, mesmo que uma criança não esteja a fazer nada, já está a usar mal os seus tempos livres.

E o Kaposoka vem preencher esse vazio?

Já lhe vou responder. Nos bairros, as crianças estão expostas ou seja, vivem num meio onde há de tudo: más companhias, assaltos, más práticas, gangues juvenis, bebidas, drogas, e constantemente rodeada por um meio em que a linguagem está dominada por asneiras que os ouvidos das crianças captam e rapidamente e imitam, o que não é bom porque uma criança deve ter uma linguagem limpa. Por outro lado, a presença do pai é quase nula. Em Angola quem educa é a mãe, que para os sustentar, tem que madrugar e só regressa no final do dia – quando já estão a dormir. Por isso temos ‘exércitos’ de crianças vulneráveis. Daí que o Kaposoka surgiu para ocupar esse vazio, através da música que tem a particularidade de ser clássica.

E a razão da escolha deste género?

Já ouvi muito sobre o facto dessa escolha, que não condiz com a realidade angolana, e que para mim é a mesma coisa que dizer que as equações, a álgebra, a matemática entre outras disciplinas escolares, nada têm a ver com a realidade angolana. Nesse sentido escolhi a música clássica por ser universal e ter virtudes. Desde logo, essa musica consegue tranquilizar a criança em qualquer parte do mundo, como a Itália (onde as gestantes são aconselhadas pelos ginecologistas a ouvir música clássica), está aprovado que crianças que ouvem música clássica desde o ventre, são mais tranquilas. Outro país é o Japão que está na mesma linha. A música clássica pacifica e tranquiliza a criança.

Quais têm sido os resultados?

As nossas crianças são maioritariamente residentes em bairros periféricos, e quando começam a aprender música clássica, tornam-se claramente mais tranquilas e pacíficas. A comunidade é quem o diz. Ora bem, a música clássica é abstracta. Trabalha com o pensamento e a imaginação. Por isso, aprender a ler música clássica constitui uma outra alfabetização, que em si já é um treino altamente alfabetizado. A leitura convencional é a palavra e a compreensão, a leitura da música clássica é aprender a ler e ao mesmo tempo numa determinada cadência. Com esse aprendizado ele desenvolve o seu próprio intelecto. Tanto que a criança, com a música, tem mais facilidade em aprender a ler convencionalmente.

Por ter optado ensinar música clássica, foi algumas vezes criticado. Em algum momento isso afectou a continuidade do projecto?

De modo algum. Algumas críticas são feitas por maldade e outras por mera ignorância. É que a música clássica é feita por génios. A combinação de sons, que acaba por ser harmónica. Ouça o italiano Joseph Verdi. Nem toda a gente consegue tocar tão bem. São coisas que movimentam o cérebro com um aprendizado contínuo. Devíamos nos ater à música angolana? Para já a música angolana não tem pauta. Aprende-se de ouvir. Isso não é saber música. A música é uma arte tal como é a escultura, a dança, o teatro, a pintura e outras. A música clássica não é para qualquer um. É necessário estudá-la. E estão aí os resultados, a sociedade vê e avalia o desempenho das nossas crianças.

Elas chegam para aprender música. Quais são as etapas porque passam e quantas estão matriculadas?

Elas começam pelo mais simples, que é o método Susuki, que se baseia numa ‘brincadeira’ em que a criança aprende divertindo-se. E passo a passo vão galgando até que atinjam outros níveis. Nesse momento temos mil e 600 crianças matriculadas provenientes de vários bairros.

Há alternativas de aprendizado além da música na escola Kaposoka?

Sim. Aqui não se apreende só música. Eles apreendem acima de tudo disciplina. Nós damos aulas de civilidade e boas maneiras, quer à mesa, a higiene pessoal, relações humanas, respeitar e amar o próximo, reconhecendo que o outro é importante para nós. Essa é uma premissa que aprendi enquanto passei pelo seminário. Por outro lado, temos recebido algumas entidades que nos vêm dar palestras sobre diversos temas que são importantes para o processo de ensino-aprendizagem das crianças.

Sei que umas das condições para que se frequente o Kaposoka é que o aluno deva frequentar o ensino convencional ou normal?

Sim. A nossa ideia, tal como disse antes, é que os tempos livres das crianças sejam ocupados com algo útil que para o nosso caso é a música clássica. Então, quem estuda no período da manhã frequenta as aulas de música no período da tarde e vice-versa. Elas são ‘obrigadas’ a frequentar o ensino normal. Quem não tem essa possibilidade, ajudamos para que seja matriculado. Como resultado desse processo, ainda este ano, cerca de 20 alunos nossos vão à Rússia fazer o curso superior de música.

Por outro, quais são as fontes de subsistência da escola, sendo que as crianças têm aqui toda essa oportunidade de aprendizado a custo zero. De onde advêm as verbas para manter a escola?

Sim. Aqui tudo é grátis. Desde o material didáctico às aulas que recebem. Conseguimos nos manter graças à ajuda da Presidência da República, que na pessoa do Presidente cessante, José Eduardo dos Santos, abraçou o projecto e tem apoiado. Somos muito gratos por esse apoio, através do qual e de outros incentivos, nos conseguimos manter.

A presidência tem hoje uma outra figura, e a minha questão é: o apoio mantém-se?

Graças a Deus mantém-se. Quer o actual presidente quer a primeira- dama acompanham o nosso trabalho. E não nos retiraram esse estatuto que é de responsabilidade social. Inclusivamente, posso dizer-lhe que, recentemente, recebemos a visita da excelentíssima primeira-dama, que nos incentivou a continuar e a divulgar cada vez mais o projecto.

Qual é o montante anual atribuído à escola Kaposoka?

Essa informação não posso dar. Tem os mecanismos necessários. Para este caso, entenda, deverá contactar a Presidência da República. Mas posso dizer que corresponde às nossas expectativas e tem servido para fazer brilhar e descobrir muitos talentos angolanos para a música clássica.

É o único apoio que recebem? E as actuações não são pagas?Quanto é que recebem pelas exibições?

Essa estrutura foi construída de raiz e cedida pelo BPC, na pessoa do então PCA (Paixão Júnior), um grande amigo nosso a quem muito agradecemos. A nossa orquestra não é comercial, embora façamos algumas actuações em actividades públicas, privadas, e em outras de interesse público. Em média, cobramos nem mais nem menos que um milhão de Kwanzas.

Como olha para a concorrência. Têm estado a nascer outras orquestras pelo país?

Não vejo nisso concorrência. Antes pelo contrário, dou graças por estarem a surgir iniciativas semelhantes que visam promover e dar oportunidade às crianças. E para mim, tudo o que é feito para o bem da criança é extremamente louvável. Portanto, que venham e surjam muitas outras mais, de modos a elevarmos o nível cultural e da música no seio das nossas crianças.

Como é que está a expansão do projecto no país?

Estamos a caminhar, além daqui do Núcleo André Mingas ‘Kaposoka’, há outros núcleos no Sumbe (Cuanza-Sul), no Zango, Viana, e no Icolo e Bengo, Catete. Continuamos a trabalhar no sentido de darmos as mesmas oportunidades às outras crianças pelo país.

Que significado teve para a orquestra actuar no projecto musical “Show do Mês”?

Foi muito importante e significativo, porquanto serviu para mostrar à sociedade o potencial das crianças, e temos muito a agradecer a oportunidade que nos foi dada pela Nova Energia, na pessoa do Yuri Simão. Encontramos uma muito boa receptividade tal como noutros lugares fora de Angola onde nos temos apresentado.

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