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Tigre solta as garras e mata dois supostos marginais

Dois presumíveis marginais foram mortos na tarde de ontem, em hasta pública, por efectivos do Serviço Provincial de Investigação Criminal (SPIC) de Luanda, que participam desde meados do mês passado na Operação Tigre, com vista a combater a criminalidade violenta

POR: Paulo Sérgio

Uma das vítimas mortais, que trajava uma camisola de mangas compridas de cor cinzenta e branca, e uma calça jeans azul e branca, vulgo pré-lavada, já imobilizado, foi executado friamente com cinco tiros, de pistola numa das ruas do bairro Benfica, na presença de vários transeuntes. Num dos vídeos de 2 minutos e 32 segundos, gravado por uma automobilista que presenciou o acto e posto a circular nas redes socais, é visível o cidadão amargurado deitado no chão, sendo vigiado por um efectivo deste órgão de investigação criminal, devidamente uniformizado com o colete do Serviço de Investigação Criminal (SIC). O agente da ordem, empunhando uma arma AKM, falava ao telemóvel, encostado a uma viatura de cor vermelha, que estava com a porta do lado do motorista aberta, enquanto a vítima contorcia-se no chão. Antes de fazer repetidas vezes esses movimentos, o suposto marginal, deitado no chão, após ter sido alvejado, inclinou a cabeça e levantou a sua veste para verificar o ferimento que tinha no abdómem.

Virou-se para o outro lado, fazendo movimentos como se quisesse levantar-se, mas não conseguia. Aproximou-se dele o polícia, presumivelmente para evitar que fugisse, o que não aconteceu. A vítima virou-se, ficou de costas no chão e as pernas flectidas no ar, supostamente a fim de tentar conter o sangramento, mas só conseguiu aguentar cerca de 10 segundos. Depois virou-se de barriga para baixo. A autora do vídeo assistia a tudo, enquanto filmava. Após fazer a descrição do local em que se encontrava, clamava em desespero pela intervenção divina a favor da vítima, sem sequer imaginar que o pior estava por vir. “Ai meu Deus, o moço vai morrer aqui no chão. Pai da glória, o moço vai morrer aqui no chão. Jesus, tenha misericórdia pai da glória”, lamentou. Com aparentemente muito esforço, ante a dor que o apoquentava, o jovem levantou o tronco, ficando sentado com as pernas abertas, mas não por muito tempo. O “vigia” , que continuava a falar ao telefone, aproximou-se dele, levantou um dos pés para empurrá- lo, mas não foi necessário.

O jovem voltou a deitar-se, antes de o seu corpo entrar em contacto com o pé do seu algoz. De seguida, este baixou para junto dele e apanhou algum objecto que não é possível enxergar pelas imagens da senhora, que clamou,“O moço vai morrer aqui agora mamã… aí Jesus!”, lamentou. O efectivo, trajado de calça jeans azul, voltou a afastar-se alguns metros. O jovem continuava a revirar-se. Em aparente desespero, virou-se novamente de costa, esticando os braços apoiando-se no chão e ficou com as pernas flectidas no ar. Passado alguns segundos, tentou novamente levantar-se e desistiu ao ver o suposto polícia se aproximar. “Não. Não mata. Ai meu Deu…” declarou a autora do vídeo que estava numa das viaturas que ficaram paradas no trânsito, enquanto o agente aguardava pelo seu colega.

O suposto agente parou de falar ao telemóvel, enconstado à viatura vermelha, acenou para alguém como se estivesse a confirmar a sua localização. A vítima tentou levantar-se pela última vez, tendo acabado por desistir ao ver o alegado agente aproximar- se. Eram os seus últimos movimentos. Do instante em que o alegado agente fez a sinalização da sua localização até à chegada, junto do suposto marginal, do indivíduo que efectuou, com uma pistola, os cincos tiros, passaram apenas 40 segundos. “Ai meu Deus, nunca vi nada assim… Mataram o moço agora. Aqui em frente à população. Pai da Gloria. Ai meu Deus. Misericórdia, Senhor”, desabafou, desesperada, a autora da filmagem após os tiros. Além dele, há um outro cidadão, que trajava calça jeans azul escura e camisa castanha que terá sido morto durante uma troca de tiro com os efectivos do SPIC. De seguida, os investigadores retiraram- se do local, deixando os corpos desprotegidos a aguardar pelo carro de remoção da corporação. Contrariamente ao cidadão que foi executado, o segundo teve o rosto coberto com um saco preto, antes de serem removidos para a gaveta reservada aos desconhecidos de uma das morgues de Luanda.

Os últimos minutos de dois supostos vilões

O vídeo acima mencionado e as imagens fotográficas dos dois cadáveres tornaram-se virais nas redes sociais, embora acompanhados de várias versões. Uma delas diz que os malogrados faziam parte de um grupo de quatro marginais apanhados em flagrante a perseguir, ontem, uma cidadã que transportava alguns valores monetários para depositá- los numa instituição bancária. A cidadã, cujo nome não vem especificado, apercebendo-se do que se passava, comunicou à Polícia Nacional, tendo a pessoa que a atendeu, provavelmente orientado a não parar e a fornecer a sua localização. Tal informação foi passada a uma brigada que se encontrava nas redondezas, tendo esta seguido a cidadã e os supostos marginais. A um dado momento, supõe-se que os polícias a terão orientado a descer da viatura e simular que entraria na agência do banco BFA localizada na Avenida Pedro de Castro Van-dúnem “Loy”, no Benfica. De acordo com a mensagem a que OPAÍS teve acesso, os presumíveis prevaricadores fizeram o mesmo, empunhando armas de fogo. O investigadores desceram e desencadeou-se a troca de tiro entre as partes. Dois conseguiram fugir, enquanto os outros tombaram nas circunstâncias acima mencionadas. A segunda versão que chegou à nossa redacção, dá conta de que os efectivos do SPIC estavam em perseguição deste grupo envolvido em roubo de viatura. Postos na zona do Benfica abordaram- nos, tendo eles reagido de forma violenta, efectuando disparos contra os polícias.

MININT ordena abertura de inquérito

O Ministério do Interior (MININ T) ordenou ao director-geral do Serviço de Investigação Criminal, Eugenio Alexandre, que tome imediatamente todas as medidas que se impõem no sentido de proceder à responsabilização criminal e disciplinar do agente pelo acto ignóbil que praticou. Numa nota de imprensa enviada à nossa redacção, o Ministério de tutela diz que o agente atingiu mortalmente um dos marginais em circunstâncias injustificáveis, “uma vez que a vítima encontrava-se já sob completo domínio deste”. Explica ainda que a referida brigada do SPIC de Luanda perseguia um grupo de meliante armados, que circulava a bordo de uma viatura de marca Toyota, modelo Hilux, roubada no dia anterior, tendo entrado em confronto que resultou nas mortes acima mencionadas. Reconhece que tal situação ocorre num momento em que as forças do MININ T estão engajadas em operações de combate ao crime violento.

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