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Erica Nelumba: “Nunca deixei de escrever e cantar”

 

A cantora Erica Nelumba faz, em entrevista a OPAÍS, uma resenha da sua carreira artística e um comentário sobre o seu novo disco, e, enquanto médica de profissão, revela a sua lida com aqueles pacientes que também são seu fãs

POR: entrevista de Antónia Gonçalo
fotos de Virgílio Pinto

A cantora, que também é médica dermatologista, realçou que ser médica e cantora são dois ofícios que lhe dão muito prazer, embora reconheça que conciliar horários para o trabalho hospitalar, gravações, entrevistas e ensaios para shows, tem sido muito difícil. Por outro lado, salientou que o título da sua 3ª obra discográfica, assim como a data do seu lançamento ainda estão nos segredos dos deuses. Adiantou apenas que a obra vai comportar de 12 a 13 faixas musicais em diversos géneros, e contará com as participações dos cantores Paulo Flores e Lil Saint.

É licenciada em medicina, e também é cantora. Como tem sido possível conciliar as duas carreiras?

Tem sido difícil e ao mesmo tempo fácil, uma vez que são duas actividades que adoro muito. Então, não sinto aquele desgaste físico e psicológico que acontece quando fazemos algo simplesmente por conveniência ou por dinheiro. São tarefas que dão-me prazer. Mas conciliar horários, com relação ao trabalho no hospital, a gravação de programas nos estúdios e os ensaios para shows, fica realmente um pouco difícil, mas é possível conciliar.

Tinha um concerto agendado para o mês de Maio (11), no Camões – Centro Cultural Português, em Luanda. O mesmo foi cancelado. A causa terá sido o horário?

Não! Esse seria o último aspecto a ser posto em causa em relação a esse projecto. Porque, para já, com os ensaios dá para conciliar, assim como a data do show. O que aconteceu foi que há alguns trabalhos novos que gostaria de incluir no reportório desse show, mas também tive um imprevisto com a minha saúde.

O que aconteceu?

Tive uma faringite que impediu-me que ensaiasse. Isso aconteceu mesmo em vésperas do espectáculo. Por isso não conseguimos fazer o show na data marcada. Como não apareço em público nem lanço trabalhos novos há algum tempo, sinto que devo apresentar aos meus fãs um trabalho de primeira qualidade. E com este imprevisto, foi infelizmente impossível realizar o concerto na data agendada.

Deverá, entretanto, remarcar o concerto ?

O show não foi cancelado, mas sim adiado. Pretendemos marcar quando for oportuno. Ainda não temos a certeza também se será mesmo no Camões, pois dependemos da disponibilidade da sala.

Considera o espaço adequado para a realização da sua reaparição pública, depois de algum tempo ausente dos palcos?

Decidi fazer este concerto no Camões, porque participei num concerto da cantora Selda, em Março e gostei muito da intimidade da cantora com o público. E deu-me aquela vontade de fazê-lo lá também. Pensei que seria ideal antes de começar a fazer outros shows, com uma moldura maior em termos de produção e de público, preferi fazer primeiro um show intimista. É o tipo de concerto que motiva-me mais. Gosto muito de fazer esse tipo de show em que a proximidade com o público é maior.

Durante à sua formação, em algum momento pensou em desistir da música?

Pensei sim! Estaria a mentir se dissesse que não, principalmente quando estava a fazer a especialização no exterior. Houve momentos em que pensava que quando regressasse ao país, não faria muito sentido continuar a cantar. Mas quando gostamos de fazer algo, podemos tentar esquivar, mas fica a desligação absoluta é difícil. Veja que mesmo nos momentos em que pensava que deixaria de cantar, continuei a escrever, fazia aulas de música e até mesmo praticava em casa. De certa forma, acho que foram devaneios momentâneos.

Como tem sido lidar com os seus pacientes, no caso, aqueles que ao mesmo tempo são seus fãs?

Tem sido muito bom. Tenho essa sorte de ter um contacto muito próximo com os meus fãs, os meus pacientes, que todos os dias fazem questão de me incentivarem e mostrar o seu carinho por mim, enquanto cantora e médica, e assim posso sentir o feedback das minhas músicas. É uma relação normal, porque procuro pôr os pacientes à vontade, para se exprimirem, o que querem, e o lado carinhoso que têm pela artista.

Tem duas obras discográficas no mercado, nomeadamente, “Pensando em ti”, de 2000, e “Agora sim” de 2008. Tinha o lançamento da terceira obra previsto para o ano passado, o que não aconteceu. Quando será o seu lançamento ?

O lançamento não teve lugar, uma vez mais, devido a imprevistos. Mas, graças a Deus conseguimos ultrapassar tudo, e será uma questão de algumas semanas e começaremos a anunciar.

E quando será lançado, visto que os seus fãs devem estar expectantes?

O título deste trabalho discográfico, cuja data de lançamento ainda não está definido, terá 12 ou 13 faixas musicais, com participações masculinas, que serão os músicos Paulo Flores e Lil Saint. Entre os trabalhos que já fiz, este será o disco mais eclético, porque vai trazer vários estilos musicais.

É cantora há mais de 10 anos. Como foram os primeiros passos no mundo da música?

Tudo começou quando comecei a cantar no coral do colégio que frequentava, no final da década de 90. Foi lá onde descobri o dom, essa característica que até então só assumia em casa, tal como aconteceu com vários grandes artistas. Cantava muito, mas fazia-o por gosto. Mas quando entrei para o coral do colégio, o meu professor notou que tinha um jeito para cantar acima do comum. Foi assim que incentivou-me a investir neste talento.

E como foi essa fase?

No início foi um pouco difícil, porque eu mesma não acreditava no meu talento por vários motivos. Mas depois comecei a consciencializar- me e a ter maior contacto com o mundo da música. Foi assim que descobri que nasci para fazer isso. Participei ainda num concurso de karaoke e a partir daquele momento tive contacto com o produtor Beto Max, na altura muito requisitado. Ele propôs-me gravar algumas músicas. Gravei a música “Arrependimento”, em 2002. No início pensei que não funcionaria, mas desde a gravação da música, as coisas foram acontecendo.

Quais foram os momentos marcantes desse tempo?

São vários, como a minha participação no concurso de karaoke, que impulsionou a minha carreira musical. Lembro também da primeira vez que actuei ao vivo com uma plateia bem heterogênea, em 2003, no “Top Rádio Luanda”, onde fiz um dueto com o malogrado Beto de Almeida. Lembro-me que estava muito nervosa, porque era a primeira vez a cantar para uma grande plateia, não sabia muito bem como me posicionar, mas as coisas foram acontecendo naturalmente. Tenho ainda, com o momento marcante, a minha conquista no concurso Top Radio Luanda, em 2003, e mais recentemente quando regressei em estúdio e a recordar- me daquele ambiente.

Além de cantar também compõe alguns dos seus temas musicais. Qual é a sua fonte de inspiração?

Acho que é a vida, no geral, porque hoje vivemos tantas estórias, tanto de pessoas que nos rodeiam, como daquelas que ouvimos no dia-a- dia. Então, acho que a vida é a minha maior fonte de inspiração, o amor, as relações humanas… Há sempre tanto para falar em relação a isso, e é uma fonte inesgotável. Sempre há uma coisa a ser falada em relação a esse tema.

Quais são os músicos com que gostaria de partilhar o palco?

De certa forma, já partilhei o palco com alguns artistas com que gostaria, como a Yola Semedo, Sandra Cordeiro e a Ary. Gostaria um dia de vir a partilhar o palco com Matias Damásio, por admirar muito o seu trabalho. Partilhei o estúdio com uma das minhas maiores fontes de inspiração na música angolana, o músico Paulo Flores. É uma das novidades que brevemente verão os resultados. Trabalhei também com Lil Saint, na música “Café Mwangolê”. Fizemos a música e sentimos que realmente faria todo o sentido termos uma participação masculina e aí surgiu o Lil Saint. Foi uma surpresa muito boa, agradável, porque o acho um cantor muito talentoso, além de ser produtor.

Considera-se numa mulher realizada?

Realizada não diria. Acho que a partir do momento que nos o sentimos, é como se a vida tivesse acabado. Não tem muito sentido. Sinto que alcancei grande parte dos objectivos a que me propús alcançar na vida, como a minha formação, especialização, fazer as coisas que gosto, como exercer a medicina, cantar e ter a minha família. Sinto- me realizada porque quando olho para os planos que fiz há mais ou menos 10 anos, noto que foram alcançados. Apesar disso, há sempre muito por realizar. Quero voltar a cantar em pleno, quero acertar essa parte da música com a medicina e ter filhos. Pretendo ainda ter uma instituição para ajudar crianças e jovens desfavorecidos. Neste momento são os meus planos a longo prazo. Acho que não vou sentir-me bem enquanto não alcançá-los. Por esta razão, luto para que tudo isso seja um facto.

O que significa a palavra sucesso para si?

Acho que sucesso tem a ver com a felicidade e realização. Para mim é nos sentirmos bem e confortáveis naquilo que estamos a fazer. Acho que não basta ter êxitos, dinheiro ou mesmo alcançar aquelas coisas que objectivamos, se perdermos outras que nos fizerem perder a nossa essência. O sucesso tem a ver com aquilo que é mantermos a nossa essência e nos sentirmos bem na nossa pele.

Perfil

Erica Nelumba nasceu em Luanda, em 1983. Iniciou o seu percurso artístico em 2001, através da participação em concursos de música. Em 2003, lançou o seu primeiro CD, “Pensando em ti”, e, em 2008, o segundo, “Agora sim”. Sendo que no ano 2002, conquistou o Prémio de “Voz Revelação” e, em 2003, foi vencedora do “Top Rádio Luanda”. Cantora e compositora tem como referências inspiradoras da sua música, as grandes divas norte americanas de Soul e R&B. Tem conquistado muitos outros prémios, ao longo da sua carreira. Além da música, Erica Nelumba tem na medicina a sua segunda paixão. Interrompeu a sua carreira musical durante seis anos para se licenciar em Medicina, tendo feito posteriormente a especialidade em dermatologia. Em 2015, regressou à música com lançamento de três temas da sua autoria, que tiveram grande sucesso junto do seu público. Em 2017, Erica Nelumba foi a grande homenageada da 10ª Edição do Festival “FestiKizomba”.

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