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Luta por água turva no Tombo custa 300 Kwanzas

O referido líquido captado directamente do rio, através de um sistema de elctrobomba e tubagem constitui o único recurso dos moradores para o consumo e outras utilidades domésticas

POR: Alberto Bambi
fotos de Virgílio Pinto

Os moradores da localidade do Tombo, na comuna da barra do Kwanza, município de Belas em Luanda, revelaram Sábado último a OPAÍS, que desembolsam diariamente 300 Kwanzas para ter acesso à água de um reservatório apelidado de tanque, que concentra o líquido turvo através de um sistema de bombeamento, alegadamente instalado por um empresário local. “Olha, nós acarretamos água aqui e cobram-nos 300 Kwanzas por dia, mas desconfiamos que não é o dono quem mandou cobrar, porque esta conduta dá para a sua fazenda e ele mandou desviar um tubo para a comunidade”, disseram algumas beneficiárias, que pediram para não serem identificadas a fim de evitarem retaliação. As entrevistadas cogitam que o fazendeiro se terá comovido com a situação dos habitantes, que captavam água em partes muito sujas do rio Lwei (afluente do Kwanza), por isso não acreditam que uma entidade de proa tivesse decidido lucrar com a assistência em causa, sabendo que o produto não é o ideal.

Segundo os residentes, a qualidade daquilo que se esperava ser o precioso líquido, piora quando o sistema não bombeia o líquido para o reservatório, como foi o caso no dia desta reportagem, em que a equipa deste jornal flagrou os habitantes da referida localidade no meio do depósito em causa, de onde preferiam encher os seus recipientes. “Aqui é assim, quando a água do rio não sobe, entramos mesmo ai, no tanque, com os nossos pés e roupas sujos e acarretamos água com os baldes e as bacias, como estão a ver, é assim a luta do pessoal”, disse Mãezinha, apontando com o dedo em riste para duas companheiras suas que disputavam um local privilegiado no interior da fonte. Como a captação de água nos períodos de carência impõe alguma luta teórica, as mais velhas posicionam-se, normalmente, nas margens do reservatório, enquanto namoram os préstimos das mais jovens, para lhes encherem os recipientes.

Era o caso da Avó Maria, como é tratada por vizinhos e conhecidos, que, apesar de ter manifestado dificuldades para pagar a sua conta diária, mereceu a atenção de alguns voluntários que lhe disponibilizaram o líquido. “Outro problema agora é meter isso na cabeça e levar para casa”, desabafou a idosa, alegando que, pela idade por si estimada em mais de 60, os ossos já doem depois de um esforço do género. Relativamente ao pagamento do produto, a Velha Maria, disse que as cobradoras não perdem nada, tendo adiantado que, noutra ocasião em que precisar novamente da fonte, lhe será cobrada a prestação desse dia.

Cobradoras ocultam ofício

Durante o período em que a reportagem de OPAÍS esteve no local não constatou qualquer cobrança da parte das indigitadas cobrado-as, entretanto, os clientes revelaram que este era um comportamento normal das obreiras, que, segundo eles, não perdiam nenhuma conta diária. Questionadas sobre as razões do custo da água, as duas senhoras desmentiram as alegações dos vizinhos, até que uma delas deixou escapar que, além de estarem ali para acalmar as confusões, limitavam- se a cumprir as orientações baixadas pelos seus superiores. “Essa água, para chegar aqui é porque alguém está a gastar dinheiro de combustível, como é que vai ser de favor?”, indagou a outra que até então se mantinha calada.
Água tratada quase chegou
De acordo com Madalena Alberto, residente do Tombo desde 1981, em tempos idos, no bairro do Tombo ainda chegavam alguns camiões-cisterna, que abasteciam as fazendas e algumas empresas exploradoras de inertes locais. “Depois das fazendas, os motoristas passavam pelo bairro e vendiam ou trocavam água por peixe ou carvão, mas, depois de algum tempo, eles deixaram de aparecer”, contou a interlocutora deste jornal, tendo adiantado que, face à carência, o povo voltou à fonte primária do rio. Madalena Alberto frisou que a esperança dos populares do Tombo se reavivou, quando se ouviu falar da construção de um chafariz na área, para colmatar, de uma vez por todas, esta necessidade vital. “Até que o chafariz foi construído e inaugurado no ano passado, mas só funcionou mesmo no dia da inauguração, depois das eleições nunca mais se viram gotas de água nas torneiras”, declarou Madalena, informando que, a partir dessa altura, é a água captada que serve de líquido precioso, pois até para beber os moradores se servem da mesma. Ela contou recordou os tempos em que a coordenação do bairro ainda distribuía lixívia e outro pó de cujo nome já não se lembrava, para minimizar a precariedade da água. “Mas aqui tudo começa e acaba rápido”, ironizaram uns jovens que seguiam a conversa atentamente.
Táxi 800 Kwanzas
Os troços Benfica- Tombo alongam- se por mais de 30 quilómetros e ainda não possuem estradas asfaltadas, uma situação que aumenta o tempo de viagem, agravado por uma via alternadamente acidentada e sem uma verdadeira terraplanagem . Por causa disso, os escaços táxis que operam nesse trajecto cobram uma taxa de 700 a 800 Kwanzas por cada passageiro, uma conta que pode chegar aos mil, já que os clientes da localidade do Tombo dificilmente viajam sem mercadorias pesadas e outras bagagens. Para agravar a situação dos habitantes dessa zona ribeirinha, ultimamente os taxistas fazem apenas a metade do percurso, escalando ao bairro de Quenguela, afixando os serviços também em metade do preço global. “Desse jeito até acabamos por pagar 600, porque do Quenguela para o Tombo os motoristas cobram mais 200 Kwanzas, mas o táxi pode passar dois ou três dias sem aparecer”, referiu Valentina da Costa, encontrada no percurso Kididi-Wakongo, noutros bairros na cercania do Tombo.
Recurso é a caminhada
A falta de táxi nos troços Quenguela- Tombo e deste ao Kididi e Wakongo, motivou as caminhadas da parte da população que vive nessas localidades, com maior destaque aos das três últimas, que não têm uma paragem movimentada. Valentina Costa cumpria com mais uma peregrinação sabatina, em visita aos seus familiares residentes no Wakongo I. Estou a sair do Quenguela a pé e, normalmente, faço isso todos os Sábados, para visitar o meu irmão, a minha cunhada e os meus sobrinhos, aqui no Wakongo”, narrou a senhora que estava a três quilómetros do seu destino, onde completaria os cerca de 20, a pé. Curiosamente, esta prática é comum para os mais idosos, pois, de acordo com Valentina Costa os jovens, mesmo com necessidade extrema e urgente de se deslocar, rejeitam as caminhadas. “Para chegar aqui no Wakongo às 12 horas, é preciso sair às cinco e meia”, informou a caminhante que fixou de forma segura o seu conta-relógio natural em seis horas. Valentina Costa deseja que as autoridades locais envidem esforços para terraplanar constante e urgentemente a estrada para que os taxistas frequentem, de forma

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