Culturas de “insistência” dão vida aos populares de Wakongo

Assim é denominada porque cultivam em terrenos carentes de bastante água, principalmente para a cultura de produtos como a cana-de-açúcar, a goiaba, o milho e o tomate

  • Texto de: Alberto Bambi
  • Fotos de: Virgílio pinto

A maior parte dos camponeses do bairro Wakongo I, comuna da Barra do Cuanza, município de Belas, em Luanda, interrompe as suas actividades na estação do Cacimbo, devido à falta de chuvas.

Mas, desta vez, o coordenador da referida localidade, situada nas proximidades do rio Lwei (afluente do Cuanza), Álvaro alberto André “Madik”, decidiu incentivar o seu pessoal a cultivar alguns produtos durante o tempo seco, e assim evitar-se as carências pelas quais têm passado no também denominado tempo de frio.

“Decidimos plantar mesmo alguma coisa para não ficarmos a depender da Estação das Chuvas. Isso evita que as famílias daqui passem fome de Junho a Agosto, porque, assim, já terão produtos para a alimentação e a venda”, sublinhou o coordenador, tendo acrescentado que, em anos anteriores, o povo do Wakongo, em grande número, emigrava para outras áreas da Barra do Cuanza, como a sede da comuna, Miradouro, Cabarril, Destaque e Buraco.

Com as alterações climáticas e a estrutura dos solos, a aventura dos homens do campo nem sempre tem êxitos, dada a sua baixa produtividade.

Há lavras em que as sementes brotam, entretanto não chegam ao ciclo final do seu desenvolvimento. Durante esta reportagem, o coordenador Madik mostrounos algumas culturas comprometidas e das quais já não se espera a desejada colheita.

Uma electro-bomba instalada no lamaçal mais vizinho às zonas de cultivo, com algumas oscilações abastece de água as lavras familiares. Apesar de o aparelho ter sido adquirido por uma família residente, quase todos os camponeses o aproveitam para irrigar as suas hortas.

Para compensar essa benesse, algumas vezes, com parte dos lucros que advêm da comercialização de produtos, principalmente como a cana-de-açúcar, goiaba e banana, os camponeses contribuem na cobertura dos gastos com o combustível e a manutenção. Várias vezes, a anterior liderança da comuna da Barra do Cuanza prometeu-lhes instalar um sistema de captação de água que facilitasse a irrigação das lavras.

“Mas até hoje só vemos alguns tubos canalizados para as fazendas dos empresários daqui”, desabafou o responsável máximo de Wakongo, tendo acrescentado que a mesma promessa já foi feita pelo administrador actual. Álvaro André detalhou que a insistência na cultura de hortícolas como o milho, tomate e a mandioca constitui também uma estratégia dos habitantes para garantir as refeições diárias que nessa época se resumem a uma “única”. “Porque, se nós tivermos estes dois produtos, já há garantia de fuba, além de podermos comer milho e mandioca cozidos ou assados”, explicou o líder do bairro, que não deixou de referir-se à banana cultivada localmente.

Mulheres prestam serviços

Outra alternativa encontrada pelas senhoras da zona, cujas lavras se situam muito distantes do lamaçal que resta das águas da chuva, é a prestação de serviço nos campos de outros.

“Quem não consegue colocar água na lavra dela, porque fica longe da lagoa, é melhor trabalhar nas lavras dos outros para não ficar sem comida e dinheiro”, declarou Mariana José Dinis.

A camponesa que preparava as condições do solo e os pequenos reservatórios naturais escavados ao redor das goiabeiras para lhes facilitar a irrigação, frisou que a sua actividade não conta com lucros, mas com a grande ajuda que os proprietários dessas lavras lhe prestam.

“Por isso, não adianta falarmos de salário, porque todos os dias nós podemos recolher os produtos daqui e de outras fazendas para dividir com o dono”, realçou Mariana Dinis, referindo-se aos outros hortícolas que diariamente leva à casa.

Apesar de se lhe ter questionado as vantagens de pedir que as autoridades da comuna instalassem na zona uma conduta de água destinada à irrigação, Mariana Dinis ressaltou que este constitui o sonho dos habitantes do Wakongo I, II, Tombo e Kididi.

Pesca e caça minimizam carências

O Morador de Cassumuna, um dos pontos altos da região de Wakongo, Henrique Luís Kotingo, revelou que, no princípio do ano 2000, ele e sua família e demais naturais do Bié recém-chegados e que povoaram essas paragens da Barra do Cuanza tentaram influenciar na política de conservação de excedentes de produtos agrícolas.

“Mas não deu certo, o tempo parecia muito longo e a fome mais perto”, parafraseou o ancião, para dizer que as necessidades falaram mais alto. Pressionados pelas condições do meio, os forasteiros ainda sugeriram a produção do massango e da massambala, alegadamente por serem as culturas resistentes a ambientes do género, entretanto, as sementes eram descompensadas na colheita.

Procurando por outras formas de sobrevivência, a caça rapidamente se aliou às outras duas actividades de subsistência, portanto, a agricultura e a pesca, segundo o ancião, sublinhando que a caça se desenvolve muito longe da povoação. “Quando a fome aperta, alguns de nós já não têm mais força para ir às matas, então caçamos mesmo aqui próximo das nossas casas”, referindo-se aos capinzais que separam as localidades habitadas umas das outras, cujos répteis, segundo ele, não são poupados.

Aliás, momentos anteriores ao da conversa com o Velho Kotingo, OPAÍS constatou a preparação de um rastejante, num fogareiro adaptado, cujo nome o cozinheiro se recusou dizer. A captura de galinha-do-mato, localmente abundante nessa área no tempo seco, é outra alternativa dos residentes que organizam buscas colectivas para o efeito, garantindo assim o sucesso da “caçada”. As crianças contribuem com a captura de aves de menor porte, como pássaros, rolas e perdizes, usando as suas pequenas fisgas rudimentares.