Greve dos enfermeiros leva pacientes a desistirem de ser atendidos

A greve dos enfermeiros de Luanda já vai no terceiro dia, embora os mesmos marquem presença nos postos de trabalho, rejeitam prestar qualquer tipo de assistência em nome da paralisação, uma situação que leva muitos pacientes a desistirem do recurso aos serviços hospitalares

POR: Maria Teixeira

Uma ronda feita ontem, 12, pelo Jornal OPAÍS em algumas unidades hospitalares, foi possível registar a fraca afluência de necessitados de serviços de saúde, em razão da greve despoletada Segunda- feira pelo Sindicato dos Técnicos de Enfermagem de Luanda (Sintenfl). Estivemos na Maternidade da Samba, a conhecida “Maternidade Ana Paula”, no Hospital Municipal da Samba, no Hospital Augusto Ngangula e no Centro de Saúde do Bairro Operário, em que a desistência dos pacientes deu lugar a um cenário que em dias normais não acontece: um vazio nas unidades sanitárias. Na Maternidade da Samba, por exemplo, o cenário da greve era bem visível. Apesar de os técnicos de saúde estarem presentes no local de trabalho para assinarem o livro de ponto, muitos pacientes que procuravam os seus serviços eram obrigados a regressar à casa ou recorrer a unidades hospitalares privadas.

Assim estava também o centro de saúde do Bairro Operário, onde apenas funciona o Banco de Urgência, o Laboratório e as Salas de Parto. As pessoas acometidas por febres estão a ser encaminhadas aos hospitais que não aderiram à greve, como o Américo Boavida, Josina Machel, e outros. Por essa razão, os pacientes que procuravam pelos serviços dessas unidades mostraram-se entristecidos com a situação – que transbordou porque faltou consenso entre o Sindicato dos Técnicos de Enfermagem de Luanda (Sintenfl) e o Governo Provincial de Luanda. Josefa Martins, que procurou a Maternidade da Samba, com a sua filha de quatros anos, lamenta o facto de não ser atendida e foi de opinião que “este ministério (da Saúde) não pode estar em greve, porque senão todos vamos morrer”. Declarou ainda que já existem muitos problemas na Maternidade da Samba, que com a greve, poderão piorar.

De volta à casa, com o bebé aflita com febre e tosse

Com o bebé febril e com tosse, Antonica Dala, outra entrevistada, não foi atendida e disse que a situação é preocupante, porque não sabe aonde mais se dirigir. “O meu bebé pode piorar, e as senhoras negam-se a atender porque estão em greve. O governo tem de resolver essa situação o mais rápido possível, porque se pode perder vidas”, alertou. E reconheceu que nunca viu o hospital tão vazio, porque sempre que procura os serviços de saúde da Maternidade tem que levar almoço, porque perde-se muito tempo no local. Sempre que vai pesar e consultar o seu bebé, chega às 8 horas da manhã, sendo apenas atendida à tardinha. Ainda na Maternidade da Samba, na área de partos, estão a ser atendidas apenas as mulheres grávidas dos 7 aos 9 centímetros, sendo que as de seis centímetros para baixo são evacuadas para a Lucrécia Paim. Marta da Silva foi atendida na semana passada e marcou uma consulta para ontem, Terça-feira, e foi surpreendida com a situação da greve. A interlocutora disse que não foi atendida mesmo com a criança com fortes febres. Não tendo dinheiro para uma clínica, teve que regressar à casa mesmo com a criança doente.

Encontro com a entidade empregadora marcado para hoje

Em declarações à imprensa o vice- governador da Província de Luanda, para o Sector Económico, Júlio Bessa, disse que qualquer perturbação nas áreas da Saúde e Educação a nível da província de Luanda e a nível do país é um assunto que deve ser encarado com uma grande responsabilidade. Já reuniram com o comité de crise para, com responsabilidade e serenidade fazerem uma avaliação à situação actual e tomar medidas. Orientaram os nossos serviços para garantir que a normalidade volte aos hospitais. O secretário-geral do Sindicato dos Técnicos de Enfermagem de Luanda (Sintenfl), António Kileba, a OPAÍS, garantiu que hoje terão, a partir das 9 horas, uma reunião com a entidade empregadora, que porém não sabe se terá efeitos positivos. Assinalou que o patronato anteriormente não apresentou propostas concretas face às suas reivindicações, referentes por exemplo, à abertura de um concurso público interno para os técnicos. Estão abrangidos com a paralisação todos os postos, centros, hospitais municipais e provinciais de Luanda. Neste período, estão em funcionamento apenas serviços mínimos básicos, como o banco de urgência e a sala de partos, com equipas reduzidas. “Por enquanto, a greve mantém-se por tempo indeterminado, até a entidade empregadora dar resposta aos problemas que espelhamos no caderno reivindicativo, desde 2012”, sustentou.