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Ana Maria de Oliveira: “Kauyka está presente quando há actividades que envolvem o livro e a leitura”

O Projecto “Kauyka” celebra 19 anos de existência, com uma série de actividades ligadas ao livro, à leitura e à música, Sábado, às 9 horas, no Jango da União dos Escritores Angolanos. O evento inserido no mês da criança em geral, e da Criança Africana em particular, vai congregar estudantes de diferentes escolas e creches de Luanda. A antropóloga e educadora social, Ana Maria de Oliveira, que também é autora da “Kauyka”, colecção de histórias infantis, na entrevista que se segue, fala a OPAÍS da sua experiência e da actividade agendada para comemorar a data

POR: Augusto Nunes

Quem é Kauyka e como surgiu esta encantadora figura na literatura infantil?

A Kauyka é essencialmente uma criança angolana, mas que também poder ser oriunda de um outro contexto geográfico. É uma criança africana. Porquê que surgiu a Kauyka? Primeiro é que eu sou educadora social, trabalhei com muitas crianças no meio urbano, na preferia e no meio rural. Tendo em conta a vivência das nossas crianças desde que ascendemos à independência, em determinada altura, achei que era importante dedicar a literatura à criança. Primeiramente angolana e depois de outros contextos geográficos. A criança angolana, porque era uma criança sofredora e ter vivido directa ou indirectamente as agruras dos tempos difíceis da guerra, merecia uma atenção especial. Muitas destas crianças ficaram órfãs de pai ou de mãe. Ficaram entregues a avós e a tios. Claro que era preciso dar-lhe uma atenção especial. Esta faceta de elaboração de literatura infantil pretende atender estes aspectos. A relação da criança com a família, com os amigos, com os mais velhos, com os vizinhos, na escola, etc.. Vamos abordando em momentos diferentes as experiências da “Kauyka”.

Por que optou pelo nome de Kauyka?

O nome “Kauyka” surge de uma experiência de vida que tive na localidade da Lunjata, na província da Lunda–Sul. A Kauyka era uma menina órfã de mãe e deficiente da fala. Tinha uma experiência muito especial com um irmão meu que também é deficiente da fala. Esta foi uma imagem que me acompanhou ao longo da vida e tinha na altura 12 anos. Quando tive que dar um nome ao projecto, fui exactamente buscar o nome da “Kauyka”. A figura da Kauyka é a figura da minha filha nesta faixa-etária e esta história apresenta-se hoje em cinco momentos: “Nasceu Kauyka”, “Kauyka Já Engatinha”, “Kauyka Dá Os Primeiros Passos”, “Kauyka Tem Um Irmão” e “Kauyka Vai à Escola”. A partir daí, a Kauyka começa a viver outras experiências e já não sai da faixa-etária infantil, fica até aos 12 anos. O projecto é que vai fazendo anos.

O Projecto Kauyka completa 19 anos de existência. Que balanço faz deste percurso e de que forma pretendem comemorar?

O balanço é muito positivo, porque embora não tenhamos atingido a meta, fomos capazes de desenvolver algumas etapas. Vamos comemorar os 19 anos do Projecto Kauyka com uma série de actividades recreativas, amanhã, às 9 horas, no Jango da União dos Escritores Angolanos. Também estamos a comemorar os 20 anos da Kauyka em grande, com novos títulos no próximo ano de 2019 com a edição nas três línguas em que já estão traduzidas. Portanto, não sabemos se financeiramente vamos ter capacidade para fazer outras coisas. Entretanto, a consolidação do projecto passa sempre pela edição de literatura infantil, então vamos sair com novos títulos.

Quantos exemplares tem a edição já traduzida em línguas nacionais?

Nos tivemos um interesse muito grande por parte do Ministério da Educação. Portanto, nós enquanto Editora Kauyka, produzimos mil livros e depois tivemos um contrato específico com o Ministério da Educação que utilizou estes livros para leituras complementares em línguas nacionais para o currículo escolar das crianças.

Qual é a editora responsável pela edição desta colecção?

A Editora responsável pela Colecção é Kauyka Produções Infantis, que saiu inicialmente com os livros e depois uma boneca, e agora segue com outras ambições que serão materializadas quando houver disponibilidade financeira.

Como está a colecção a ser distribuída em Luanda e no interior do país?

Em Luanda, a distribuição é de certo modo limitada, primeiro, porque temos poucas livrarias. Segundo, as taxas que elas cobram para a venda dos livros nos seus espaços, torna o livro muito caro. Então, o livro é sobretudo vendido nas feiras do livro, em acções específicas e programas que têm acontecido em colégios, escolas, etc, por isso, está um pouco limitado. Acho que se tem que olhar para a produção do livro e a sua venda porque está muito difícil. Por outro lado, o papel é muito caro, as edições também e, depois, a revenda mais cara se torna. Nas províncias acontece um pouco do que acontece em Luanda. Portanto, a Kauyka está quando há actividades que envolvem o livro e a leitura e que convidam a Kauyka. Por outro lado, através do sistema educativo pelo Ministério da Educação, que adoptou a Kauyka como uma das leituras complementares em línguas nacionais.

Que outras experiências poderão os mais novos esperar da Kauyka?

Estamos a dar relevância às seis línguas nacionais em que já está traduzida a Kauyka. A primeira versão saiu em língua portuguesa e depois em Kimbundu, Umbundu, Kikongo, Cokwe, Nganguela e Oshikwanyama, estando no prelo, as versões em Ibinda, Nyaneka e Kuvale, que aguardam por disponibilidade financeira para a sua edição.

Como estão os angolanos na Diáspora a receber as mensagens de Kauyka?

Esta é uma experiência que tem muito a ver com uma relação directa com o livro, quando há exposições, quando há momentos específicos. Há famílias que oferecem aos seus parentes que estão na diáspora, porque uma acção internacional propriamente dita com relação a Kauyka é um dos projectos que pretendemos consolidar a partir do próximo ano. Vamos ver como é que isto vai acontecer com os falantes de língua portuguesa, porque os falantes de línguas nacionais residem maioritariamente em Angola, e uma minoria é que reside fora, mas o seu interesse passa também pela exposição do livro, para que as pessoas tenham acesso ao livro, de uma maneira linear, que não aconteça apenas quando há feiras ou quando há programas específicos, etc. Que a presença do livro seja efectiva nas livrarias onde quer que seja.

Kauyka tem um irmão. Como se chama e onde se encontra?

O irmão da Kauyka chama-se Kevano, um nome em Oshikwanyama. O nome é do Bispo Emérito da província do Cunene, Dom Fernando Kevano. Foi ele quem me autorizou a utilizar para o irmão da Kauyka. Há uma ligação afectiva da autora da Kauyka com a província do Cunene. Daí a atribuição do nome Kevano ao irmão da Kauyka.

Já agora, quando escreveu o seu primeiro livro e o que retratou?

Propriamente foi a edição do meu livro de tese de Licenciatura, “Elementos Simbólicos do Kimbanguismo”. Como sabe, sou antropóloga e a minha área de investigação são os usos e costumes de Angola, com uma tendência para as questões simbólicas. O primeiro livro foi este e o segundo foi ”Angola e a Expressão da sua Cultura Material”. Na altura, eu era directora do Museu Nacional de Antropologia e com base na investigação feita nas peças do museu, tive a oportunidade de materializar este projecto com o apoio de uma empresa internacional. Posteriormente, fiz coordenações de vários estudos, entre eles, o da Autoridade Tradicional em Angola, com o Ministério a Administração do Território. Terminei o primeiro estudo, e neste momento estou a fazer o terceiro já em vias de conclusão. É uma coordenação embora toda a estratégia seja organizada por mim, mas envolve outros especialistas que concorrem para a investigação desta matéria de Cabinda ao Cunene, isto é, em todo o território nacional. Estou também a trabalhar na minha Tese de Doutoramento sobre o Rei Mandume.

E quando é que surgiu o seu primeiro livro infantil?

O primeiro livro infantil surgiu em 1999. Por isso é que a Kauyka faz 20 anos em 2019.

De que forma deveriam os adultos proceder para tornar o livro um amigo inseparável da criança?

Isto tem a ver com os conteúdos programáticos do ensino ao nível das tenras idades. Termos contactos com projectos educativos noutros contextos geográficos que levam a que as crianças em cada classe façam determinadas leituras. Então, quando ela conclui essa etapa já é possível interagir com ela, a partir do conhecimento que adquire nessas leituras obrigatórias que faz na escola. Há também a responsabilização da família mais directa, o pai, a mãe. Infelizmente, nós sabemos dos problemas que as nossas crianças vivem. Nem sempre o livro é uma opção usada pelas famílias. Temos fenómenos como a ausência dos pais. Temos mães muito ocupadas por causa desta lacuna e então, passam o dia à procura de sustento para os filhos e quando chegam à casa já não têm tempo para se dedicarem aos filhos. Os filhos não lêem e então, temos que quebrar este ciclo e dar às crianças tudo o que elas merecem. Começando pela educação, o lazer, a possibilidade de elaciar as suas fantasias a partir daquilo que aprende na família, na escola, na convivência social, para que as nossas crianças sejam o mais normal possível e não expostas a muitas das vicissitudes actuais.

Partilha a mesma opinião de que a merenda escolar seria acompanhada por um livro infantil?

Isso seria muito bom. Por acaso foi um projecto que há anos atrás apresentamos a uma entidade, mas não funcionou por dificuldades financeiras. Se não há disponibilidade para dar o lanche, acrescentando o livro fica ainda mais difícil. Mas temos esperança de que a breve trecho poderemos colmatar essas dificuldades.

Que mensagem deixa aos pais, aos professores e aos encarregados de educação?

O que eu gostaria de transmitir aos pais, aos professores, aos educadores e aos mais velhos é que fomentem o gosto pelo livro e pela leitura. O gosto pelo livro passa pelo cuidado que se tem com o livro. O livro não é para riscar, rasgar ou amarrotar. É para preservar. A criança leu e pode também passar o livro à outra para lê-lo. Que os pais privilegiem a compra do livro em detrimento de outras coisas que são fúteis. Pensar na formação das crianças passa muito pela leitura, e que os pais interajam com as crianças. Dar à criança tudo o que ela merece. Saúde, protecção, educação, para que tenhamos uma sociedade normal, para que as nossas crianças cresçam em paz e harmonia.

 

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