O meu tempo musical

Ontem dei por mim no You Tube a ser levado para anos que já passaram. De alguns tenho deles memória “visual”, de outros apenas a memória musical, de momentos de boleia nas músicas ouvidas pelas minhas irmãs mais velhas, algumas também nem do tempo delas eram.

POR: José Kaliengue

Mas a música tem destas coisas, forma uma linha no tempo, as boas músicas não resistem apenas ao tempo, modelam o tempo, as pessoas, as memórias, a felicidade, a noção do quão boa é a vida, da perda também. Amadurecem- nos. O belo, a arte, fazem de nós pessoas melhores. No You Tube fui viajando de ano em ano, regredindo, como uma digressão num comboio que pára em todas as estações, levado pelas mãos carinhosas das minhas manas. As roupas dos artistas nos vídeos eram testemunhas de que o mundo não tinha ficado parado. Ver cantores que já partiram também era um apelo a viver com intensidade os mais belos sentimentos, a paz, o amor, sem regatear, e a agir para perdurar numa obra que toque com dedos de felicidade quem entrar no comboio nas estações do futuro. O amor e a felicidade não se adiam, disse eu a uma pessoa, mas com o tempo aprendemos que amor e felicidade, verdadeiros, se chamam maturidade também, que se vivem no ter, no perder, e também na aceitação de não vir a ter. A memória é este exercício de resgatar o que não se tem mais com a sensação de estar aqui e com a certeza de que não haverá no futuro, mas a memória apenas faz sentido, cada momento dela, com a sua própria banda sonora. Se é para chorar, então que o seja com a música que fez de nós o que hoje somos.