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E daqui o silêncio

O espectáculo continua, sem interrupções, os media europeus e de todo o mundo têm matéria para trabalhar, por vezes hilariante, noutras, quase sempre, triste, humilhante.

POR: José Kaliengue

Mas África tem nas vozes e actos dos seus dirigentes o mais puro silêncio, cúmplice de satisfação disfarçada. Porque de vergonha não pode ser. Milhares de migrantes africanos morrem no Mar Mediterrâneo, os que chegam à costa europeia são tratados como números, sem pátria, sem passado, apenas migrantes. África perde jovens, perde força de trabalho, perde a sua dignidade e perde o futuro. Mas dos seus dirigentes nem uma palavra. Os líderes europeus, discutem entre si sobre quem vai receber o próximo carregamento, nos seus centros de acolhimento fazem a filtragem, dão asilo aos válidos, os cérebros são recrutados, o que sobra é devolvido. E de África apenas o silêncio. A sangria continua, as mortes se multiplicam, a imagem do continente é exposta da forma mais vil, e daqui, de África, não há um encontro presidencial sobre o assunto, não se organizam fóruns, debates, os Estados não discutem formas de juntos mitigarem as razões da fuga, as universidades não se importam. O subdesenvolvimento agudiza-se. Jovens e crianças fazem-se ao mar, levam anos desde o centro do continente até á fronteira do mar, há daquele lado um sonho, ainda que se vá revelar um pesadelo. Aqui, dizem, a esperança morreu. Talvez tenham toda a razão, porque daqui, ante o filme de crianças mortas afogadas, ante o grito da mais forte indigência humana, apenas o silêncio, da indiferença, da incapacidade.

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