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Militantes prometem impugnar Congresso extraordinário de Ngonda no Huambo

Agastados com a sua prestação, membros do Comité Central desta força política histórica querem-no fora da liderança do partido, e os próximos dias serão decisivos

POR: Ireneu Mujoco

A realizar-se na cidade do Huambo, de 25 a 28 do mês em curso, um grupo de membros do Comité Central liderados por Tristão Ernesto promete impugnar o referido conclave. Este grupo, que não faz parte do outro liderado por Ndonda Nzinga, que a partir de hoje, Terça-feira, realiza um congresso extraordinário no Cine São João, em Luanda, para eleger o sucessor de Lucas Ngonda na liderança da FNLA, não concorda com a realização destes dois conclaves. Esta posição foi tornada pública a meio da semana transacta, em Luanda, em conferência de imprensa, por Tristão Ernesto, cujo grupo defende “a constituição de uma frente única, e só depois é que se iria a votos”.

Tristão Ernesto criticou a forma como vai ser realizado o Congresso Extraordinário de Luanda, reiterando que o mesmo devia ser efectuado depois de se impugnar o do Huambo, que considera ilegal. A fonte disse não haver razões para o conclave ser realizado às pressas para encontrar o sucessor de Ngonda, na medida em que o Comité Central, por força dos estatutos, está com o “trunfo” na mão para afastar o actual presidente da liderança, sem constrangimentos. Apesar disso, o jovem político da nova vaga do partido dos “irmãos” disse que o grupo que coordena não vai assistir ao conclave de Luanda, mas o do Huambo, para posteriormente legitimar a impugnação. “Se não participarmos no Congresso do Huambo não poderemos impugná-lo, por isso, temos de ir até lá”, declarou aos jornalistas, sublinhando a necessidade do afastamento total e incondicional de Lucas Ngonda.

Motivos para o afastamento do líder

Na conferência de imprensa, Tristão Ernesto revelou que o presidente do partido já não reúne consenso para continuar a dirigir a FNLA, acusando-o de pretender transformá-la numa espécie de propriedade privada. Disse que o espírito reformista com o qual alegou dirigir esta força histórica da luta de libertação nacional não passou de uma operação de charme para agradar os seus antigos seguidores, após divergências com o presidente fundador, Holden Roberto. Tristão Ernesto revelou que Lucas Ngonda “tem a plena consciência de que já não está em condições de reunir o Secretariado do Bureau Político, o Bureau Político e o Comité Central, por falta de quórum”. O líder deste partido é ainda acusado de negar dirimir os malentendidos que ocorrem no partido, através de um “diálogo directo, franco e permanente”, como estabelecem os estatutos. Com o auxílio do secretário-geral da FNLA, Pedro Mucumbi Dala, Ngonda é incriminado ainda por má gestão dos dinheiros do partido e de introduzir o nepotismo no seio da força política. Assistida por jornalistas e por alguns membros do Comité Central, com destaque para a presidente da AMA e da JFNLA, sendo a primeira braço feminino do partido, e a segunda o juvenil, disse que Ngonda actua como um “chefe” e não como um líder.

Dívidas

Contra o presidente Lucas Ngonda, 79 anos, pendem as acusações de não pretender pagar os salários dos antigos secretários do Bureau Político e os seus adjuntos que funcionavam como permanentes durante 18 meses. Tristão Ernesto revelou igualmente que os membros do Comité Central que protagonizaram uma manifestação no dia 14 de Março deste ano, na sede do partido, denunciando a gestão danosa e os supostos desvios de fundos, estão proibidos, pelo presidente, de frequentar a sede nacional do partido, bem como os secretariados provinciais.

A origem da crise

Primeiro, foi Lucas Ngonda que, congregando um punhado de militantes denominados de reformistas, realizou um Congresso em 2005, nas instalações do Futungo II em Luanda, durante o qual foi eleito por aclamação, um acto considerado pelos prosélitos do seu “rival” Kabangu como tendo a mão invisível do MPLA, que teria apoiado Ngonda com dinheiro e outras benesses, transformando esta força política num apêndice seu. Volvidos dois anos, com a morte de Holden Roberto de quem foi um delfim de gema, Ngola Kabangu não quis deixar os seus créditos em mãos alheias. Não reconhecendo autoridade em Ngonda à cabeça do partido, realizou um outro congesso que foi mais democrático e no qual derrotou os outros dois concorrentes, Miguel Damião e Carlinhos Zassala, com uma larga vantagem de votos expressos nas urnas, um acto considerado livre, justo e transparente pela comissão eleitoral.

Este reconhecimento levou-o a concorrer às eleições de 2008, em detrimento de Ngonda, que foi rejeitado por incongruências na documentação apresentada ao Tribunal Constitucional (TC). Volta e meia, Zassala que tinha sido derrotado copiosamente por Kabangu, inconformado com a decisão do Congresso, recorreu ao TC para impugnar o resultado das eleições que colocariam Ngola Kabangu como líder da FNLA, do qual obteve uma resposta do Plenário dos juízes Conselheiros que anularam o consulado do vencedor, através do acórdão número 110. No aludido acórdão, embora tenha resultado da queixa apresentada pelo candidato derrotado Carlinhos Zassala, o TC recomendou que Lucas Ngonda e Ngola Kabangu voltassem à primeira forma, ou seja, primar pelo respeito às decisões acordadas no Congresso da Reconciliação. Ngola Kabangu que era o presidente da bancada parlamentar da FNLA na Assembleia Nacional achou-se injustiçado pelo TC e recusou concorrer a um outro congresso com Ngonda e muito menos com Zassala.

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