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Yuri Quixina: “O FMI está a paquerar o Governo de Angola para não recuar na solicitação”

Professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, desconstroi, nesta edição do Economia Real, o elogio do FMI ao Governo angolano, analisa a aprovação do projecto de desenvolvimento do sistema financeiro e outros temas económicos da semana

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

Continua o processo de auscultação sobre pacote legislativo para as eleições autárquicas. Nesta perspectiva, os autarcas terão autonomia para estabelecerem contratos públicos?

Os autarcas terão uma palavra a dizer nos grandes projectos de infra- estruturas que incidem nas suas áreas de jurisdição. Um autarca, a meu ver, deve ter competências para negociar e contratar a construção de estradas secundárias e terciárias, por exemplo. Por outro lado, também devem ter autonomia para atrair investimento estrangeiro e não só, nas respectivas autarquias.

A semana económica ficou marcada com a sondagem do Centro de Investigação Científica do IMETRO, que dá conta da queda de confiança do consumidor, tal como do próprio INE que apresenta resultados económicos do 1.º trimestre…

O Instituto Nacional de Estatística faz uma análise trimestral da conjuntura económica, já o IMETRO faz apenas de um mês. Segundo o Centro de Investigação Científica desse Instituto, claramente há uma trajectória descendente do ponto de vista da confiança dos consumidores, por várias razões, uma delas é a situação actual do país, que promoveu a queda dos rendimentos das famílias, perante uma alta de preços de bens e serviços. Já o INE traz uma visão mais geral da conjuntura económica com um quadro comparativo. Certo, na síntese que apresenta da conjuntura do mercado nos diferentes sectores económicos e mostra que o índice de confiança dos agentes económicos, no geral, foi melhor do que no último trimestre de 2017. O INE diz que restabelecimento confiança parece ser a prioridade do Governo.

A academia é geralmente criticada pelo défice de produção científica. Como avalia essa iniciativa do IMETRO?

É de louvar, o trabalho da universidade é publicar estudos, artigos de ideias empíricas, estudos com sustentabilidade bibliográfica. São os primeiros passos, mas a grande questão que se coloca tem a ver com a disponibilidade de dados. Angola é um país em que o acesso às fontes oficiais é difícil. Vamos ver se com a actual gestão do país se isso muda. A segunda questão tem a ver com os quadros. Fazer estudos, relatórios e uma boa revisão. A literatura exige quadros qualificados.

A Comissão Económica do Conselho de Ministros aprovou na última reunião um projecto de desenvolvimento do sistema financeiro. O que isso pode representar para a economia real do país?

A diversificação do sistema financeiro de uma palavra chamada liberalização. É fundamental liberalizar o sistema financeiro angolano para se tornar competitivo. Por outro lado, o Estado não deve ter bancos públicos. Os bancos públicos existem para defender a agenda política do Estado, taxa mais reduzidas, mas o diferencial com a taxa do mercado quem paga é o cidadão com os impostos. Para diversificar o sistema financeiro, o Estado não deve enriquecer os banqueiros através do financiamento do próprio Estado.

Na mesma reunião foram aprovados os critérios para a privatização das empresas públicas. Qual é a sua expectativa?

A privatização é a salvação de Angola, continuo a dizer isso. O Estado não foi feito para gerir empresas, até porque é mau gestor. Há países com empresas do Estado, privatizam pelo menos a gestão, nunca a gestão é do político. O político pode utilizar a empresa para ganhar eleições. As empresas públicas de Angola são “kamicazes”, porque há empresas que nem são atractivas para serem compradas. Calculo que algumas venham a ser liquidadas por via da promoção de falência e outras, com perspectiva de viabilidade, é que serão privatizadas.

O FMI elogiou o Governo angolano pelo trabalho de restabelecer a estabilidade macroeconómica, através das ‘reformas que está a fazer’. Com que impressão ficou?

Fiquei com três impressões. Primeiro, vejo que o FMI está a paquerar o Governo de Angola para não recuar na solicitação, porque Angola sempre recuou na intervenção do FMI. O FMI só faz dinheiro quando intervém nos países, através das taxas de juro. Atenção que os países são membros, mas também clientes. Segundo, se porventura o FMI intervier em Angola, já está a mostrar ao Governo onde cortar as gorduras, daí ter aconselhado a redução dos subsídios aos combustíveis, dos funcionários públicos e diminuição de alguns ministérios. Por último, e fundamental, é que o FMI virou um Estado, porque está a fazer avaliação política e jurídica, quando faz menção ao afastamento de altos funcionários do antigo Governo e os respectivos inquéritos ou processos judiciais, isso é avaliação política e jurídica, e essa não é função do FMI.

Qual é a sua visão sobre política económica do Governo de João Lourenço, oito meses depois?

A política económica do Governo do Presidente João Lourenço ainda está muito atabalhoada. Não sabemos o que, de facto, queremos. Por exemplo, estamos a ir fora atrair investimento estrangeiro mas temos uma pauta aduaneira muito rígida e com características protecionistas. Estamos a taxar 80%, queremos atrair investimento, mas a conta capital está fechada, queremos implementar o IVA, mas esquecemos que é também saída de dólar. Queremos implementar o IVA num processo de desaceleração económica, estamos a traçar política macroeconómica que assenta no Governo. Por isso, reafirmo: a reforma que estamos a implementar é atabalhoada. Não há visão de longo prazo.

Conselhos Úteis: Como gerir a economia doméstica em tempo de crise?

Evitar despesas desnecessárias. A economia doméstica foi a que matou a nossa economia em geral, porque a matriz da política económica estava virada para o consumo, na última década. Esse consumo destruiu os nossos valores morais, porque os princípios familiares foram devorados pela ilusão do consumismo. Há famílias que compravam produtos nos supermercados, mas em casa não usavam. Em período de crise deve-se fazer despesas estruturais: educação, saúde e alimentação necessárias. Não há famílias que se desenvolvem sem poupanças.

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