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Ex-moradores do Treme-Treme clamam por serviços sociais nas novas centralidades

A centralidade do KM 44, que alberga o grosso das famílias, com cerca de 150 agregados, é a que mais dificuldades apresenta, sendo a distância e a ausência de escolas e de hospitais os principais factores de descontentamentos

POR: Domingos Bento

A ausência de serviços sociais e a distância estão a dificultar a vida dos antigos moradores do prédio da Rua Rainha Njinga vulgarmente conhecido por Treme treme, alojados, há um mês, nas centralidades do KM 44 e do Cazenga. Habituados à proximidade entre o trabalho e a casa, e vice-versa, os populares afirmam que, desde que foram postos nas novas centralidades têm vindo a enfrentar várias dificuldades quando pretendem tratar de documentos, ter acesso aos serviços de saúde ou até mesmo se locomoverem de um ponto para o outro. Estas situações contrariam o director nacional da Habitação, Adriano da Silva, que na altura do processo de transferência disse estarem criadas todas as condições para a recepção dos moradores nos novos espaços habitacionais.

Por causa dos constrangimentos, alguns preferem passar a semana toda na cidade, em casa de parentes, e regressam apenas aos finais-de-semana para as suas casas. A centralidade do KM 44, que albergou o grosso das famílias, com cerca de 150 agregados, é a que mais dificuldades apresenta. Neste aglomerado habitacional, que fica a vários quilómetros do centro da cidade de Luanda, a falta de serviços sociais como escolas, hospitais e serviços de identificação, e a distância tem tirado o sono de muitos moradores que, neste pouco tempo, dizem-se agastados com a situação.

“Temos apenas uma escola do ensino primário. Foi a pensar nestas dificuldades que muitos, no princípio do processo de realojamento, defendiam a permanência no prédio até que se criassem tais condições. Estamos longe de tudo e não temos praticamente nada. Quando precisamos de alguma coisa temos de percorrer longas distâncias e isso dificulta a nossa vida”, atestou João Domingos, morador. Ainda devido à ausência de serviços sociais, muitos pais preferiram deixar as crianças em idade escolar em casa de familiares para permitir que terminem o presente ano lectivo.

Josefina Makisse, que viveu no conhecido prédio por mais de trinta anos, teve de tomar tal atitude com o seu neto, com quem vivia, porque a única escola construída na centralidade do Cazenga ainda não está em funcionamento. O menor, que está há um mês sem o acompanhamento rigoroso da avó, que tem sido bastante atenta às tarefas, foi forçado a desfazer-se da atenção da criadora ao longo de toda a semana, tendo apenas os finais-de-semana como os únicos dias que têm para matar a saudade. “O menino sempre viveu comigo. Mas quando passamos para aqui pu-lo a viver em casa de um familiar, no São Paulo, para permitir que continuasse a estudar. Caso o próximo ano a escola que temos aqui não abra, vou ver se o matriculo no meio do bairro. É sempre um perigo, por ser zona desconhecida, mas é o que faremos caso não haja alternativa”, explicou.

Infra-estruturas fechadas

Tal como constatou o OPAIS, na centralidade do Cazenga existe uma série de infra-estruturas sociais de apoio aos moradores. Trata- se de um cento de Saúde, uma loja do SIAC e uma escola do I Ciclo. Mas todas as unidades públicas encontram-se fechadas e sem previsão de abertura. Uma fonte ligada àquele projecto habitacional, estendido na zona do Gamek, bairro do Grafanil, disse que só no final deste ou no princípio do próximo ano é que as populações poderão beneficiar dos serviços daquelas infra-estruturas sociais. No entanto, enquanto aguardam pela abertura dessas infra-estruturas, os moradores dizem estar a enfrentar muitas dificuldades, pelo que clamam por celeridade no funcionamento dos referidos espaços, que poderão dar uma nova dinâmica às 55 famílias que foram alojadas naquela centralidade. “Até ao próximo ano não podemos continuar a viver assim. Estamos numa centralidade mas tudo do que precisamos temos de ir comprar fora, quando temos aqui escolas e um hospital que poderiam nos ajudar e bem”, desabafou Soraia Almeida, moradora.

Bairro é a alternativa

A centralidade do Cazenga, ainda em construção, apesar da paralisação das obras há mais de dois anos, está implantada no meio de um bairro. Por esta via, os moradores têm-se servido das cantinas, praças, postos médicos e outros serviços da periferia para resolverem as suas preocupações. No entanto, desde que os novos moradores foram para lá, a zona conheceu um movimento bastante frenético com o aumento de barracas, mercados informais e outros serviços irregulares em volta daquele projecto habitacional que, até a um passado recente, estava votado ao abandono. Todavia, apesar das dificuldades, o morador Miguel Evaristo diz sentir-se com sorte pelo facto de estar a viver neste centro habitacional. “É verdade que dentro da centralidade não temos serviços básicos, mas temos recorrido aos serviços no meio do bairro. E, para a nossa felicidade, lá fora tudo é barato. Portanto, é uma nova vida e precisamos der nos habituar a ela”, declarou.

É uma questão de adaptação

Pedro Makiesse, coordenador da comissão de moradores do prédio do Treme-treme, disse que, apesar de algumas dificuldades, o processo de realojamento decorreu como estava previsto. Sem confusão. Nenhum morador, das 205 famílias, ficou excluído do processo, pelo que todos receberam casa e ninguém tem motivo de reclamações. Relativamente à ausência de serviços sociais no interior das novas centralidades, o responsável fez saber que estas questões serão resolvidas ainda este ano, pelo que pede a boa compreensão dos moradores. De acordo com Pedro Makiesse, há garantias, da da parte do Estado, da criação de uma rede de transportes públicos, da operadora TCUL, que vai apoiar os moradores da centralidade do 44 para diferentes zonas de Luanda.

Quanto ao Cazenga, afirmou ser uma zona de fácil acesso, de táxis que circulam em todos os períodos do dia e para diversas áreas da cidade. “Compreendemos a situação dos moradores do 44, mas os do Cazenga, no que toca ao transporte, não têm do que se queixar. Estão numa boa zona, onde há táxi em qualquer período do dia. O resto das condições chegarão, paulatinamente. É uma questão de adaptação”, frisou. Por outro lado, na centralidade do Cazenga as residências são do tipo T3 com zonas de serviços e espaços livres para a futuras obras.

Caso os moradores queiram efectuar adaptações às construções, como a edificação de muros, a aplicação de gradeamentos nas janelas e portas, os custos devem ser da sua responsabilidade, conforme explicou Pedro Makiesse. “O Estado apenas deu-nos as casas. O restante das obras, quem quiser fazer, fica sobre sua responsabilidade e custos. Portanto, não podemos negar, temos dificuldades, sim, mas em comparação com a vida que levávamos no antigo prédio podemos afirmar que aqui estamos melhor. Saímos de uma vida de confusão para uma vida de sossego onde cada um responde por si. Já ninguém incomoda ninguém”, assegurou Pedro Makiesse.

Sobre o prédio

O prédio do Treme-treme, localizado na zona do ex- Baleizão, rua Rainha Ginga, é um edifício de 17 andares que foi construído há mais de quarenta anos. Nos últimos anos, o espaço apresentava várias fissuras e “tremuras” constantes, o que forçou as autoridades, por via do Ministério do Ordenamento do Território e Habitação, a proceder ao desalojamento dos populares no passado mês de Maio. Das 205 famílias que viviam no prédio, 150 famílias foram alojadas na centralidade do Km 44 e outras 55 na centralidade do Cazenga.

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