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Entre a hierarquia e a carreira profissionais

O actual momento de crise económica e a grande dificuldade de encontrar emprego pelos jovens recém-graduados tem gerado um clima de insatisfação e, até desespero provocado pela natural ansiedade de demonstrar o aprendizado durante a graduação e o medo de se atingir idades não aceites em concursos de ingresso laboral, segundo a legislação.

POR: Miguel Filho

Outro pesadelo prende-se com o perfil que as empresas exigem, realçando a experiência de trabalho em recém-formados. Como conseguir essa experiência, se as empresas estão mergulhadas numa crise que as obriga, inclusivamente, a reduzir trabalhadores? Diferente do que ocorria anos atrás, as empresas têm deixado de investir no desenvolvimento humano e profissional de seus funcionários, ou melhor, de muitos deles e é normal que novos recrutamentos estejam fora de seus planos. Iniciar uma vida profissional é antes de tudo uma responsabilidade individual que pode começar antes mesmo de começar um curso de graduação e, quanto mais cedo possível, mesmo que não sejam as que você deseja, mesmo que não seja remunerado. Para a gestão da carreira deve trabalhar-se em todas as companhias, especialmente se o pretendido é contribuir para o crescimento profissional dos trabalhadores e reter os melhores talentos. A gestão de carreira não é uma ferramenta a ser manejada exclusivamente pela organização. Trata-se de uma responsabilidade compartida na qual participam o trabalhador, o seu chefe imediato, o responsável da área e o gestor de recursos humanos. Naturalmente, se existir um alinhamento entre as aspirações do trabalhador e os objectivos da organização, a carreira do primeiro terá grandes opções de ser gerida em benefício da empresa. Nos últimos tempos, assiste-se a uma regressão na forma de pensar dos funcionários porque quase todos ambicionam alcançar o topo da gestão da empresa. Décadas atrás, ser bem sucedido na carreira significava receber promoções até alcançar o sonhado cargo de liderança. O histórico da carreira percorria posições operacionais ou administrativas, indo depois para supervisão, coordenação e gerência, podendo, em alguns casos, alcançar os patamares de direcção e presidência. Quanto mais elevada fosse a posição de liderança dentro da hierarquia na empresa, mais sucesso teria o profissional. Com o tempo, as empresas começaram a perceber que alguns profissionais não tinham perfil de liderança. Para eles, o sucesso profissional não estava relacionado a um cargo de gestão. Queriam ser reconhecidos por serem bons no que sabiam fazer. Não havia oportunidades de desenvolvimento para este público. O que acontecia com eles? Ou ficavam estagnados nas suas posições ou eram demitidos. Ou, ainda pior, por serem bons técnicos, eram promovidos a líderes e fracassavam nas suas novas posições, causando prejuízos à empresa, aos liderados e até mesmo ao próprio profissional. Converter-se em líder de uma empresa requer um processo de formação, mas também precisa de uma série de competências e habilidades na gestão do talento que só se adquirem através de bons programas superiores. Este é o motivo que leva os profissionais e matricular-se em cursos de pós-graduação.

Ascensão e promoção profissional 

Tem-se dito que não podemos ser todos chefes e eu realço que, na empresa, cada trabalhador é e deve sentir-se valorizado na sua área de actividade, independentemente de pertencer ou não o topo da hierarquia. Conhecemos bons técnicos que nunca aceitariam um cargo de chefia, assim como outros que suicidaram-se profissionalmente por não terem podido corresponder a demanda da gestão. Entre alguns requisitos imprescindíveis que devem complementar o perfil para o êxito de um bom líder são: a) Capacidade para organizar detalhes – Uma liderança eficiente requer capacidade para organizar e controlar tudo. Quando um líder admite que está demasiado ocupado para mudar de planos ou para prestar atenção a uma emergência, está admitindo a sua incompetência; b) Disposição para prestar serviços desconfortáveis – Um líder deverá estar sempre disposto a ajudar pessoas que trabalhem ao seu lado. “O melhor líder será o servente de todos”; c) Não temer ante a competitividade dos seguidores. O líder que teme que um de seus seguidores vá ocupar o seu posto está condenado a ver cumpridos os seus temores. Fazer que os empregados trabalhem e produzam mais e melhor é uma das habilidades do líder eficiente; d) Ter imaginação – Um líder sem imaginação não é capaz de superar as situações excepcionais e não é capaz de guiar os seus seguidores em situações adversas; e) Não tem que ser egoísta – Ser egoísta promove ressentimento entre os trabalhadores. O líder deve alegrar-se dos méritos dos outros, fomentando a sua pessoa. Só assim trabalharão com mais entusiasmo; f) Lealdade – O líder desleal não mantém durante muito tempo a sua liderança. A falta de lealdade é uma das principais causas de fracasso; g) Autoridade – O líder eficiente é o que ensina mediante o estímulo, sem atemorizar. A autoridade causa rechaço e entra na categoria de liderança autocrática. Um líder autêntico não é autoritário; h) Humildade – O líder competente não necessita títulos para obter o respeito dos demais. As portas do escritório do líder são as que permanecem abertas. O posto de trabalho de um bom líder está livre de formalidade e ostentação. É um lugar agradável. Com a utilização do conceito de Carreira em Y, o colaborador, após percorrer posições administrativas ou operacionais, pode escolher se prefere a trilha de carreira generalista (liderança) ou especialista (técnica), de acordo com seu perfil e interesses profissionais. Ele tem a possibilidade de uma equiparação salarial com posições de liderança, segundo o seu nível dentro da trilha, porém com atribuições técnicas. Esse novo conceito possibilitou a retenção de profissionais excelentes, porém sem interesse ou perfil para exercerem liderança. O mercado evoluiu. As novas gerações de profissionais apresentam perfis diferentes e vivem novas expectativas. Assim, surgiu recentemente a Carreira em W de Roberto Pierre Rigaud, com a seguinte questão: entre seguir um roteiro especialista ou generalista, por que não optar por um caminho intermédio, em que o profissional exerça a liderança, porém mantendo atribuições de especialista? A Carreira em W possibilita a existência de líderes técnicos. São profissionais-referência nas áreas em que actuam que, ao mesmo tempo, apoiam o direccionamento e o desenvolvimento dos colaboradores que estão em níveis de senioridade menores. Isso significa que não deixam de colocar a mão na massa, ainda que estejam numa posição de liderança. O líder técnico pode liderar projectos, actuar de forma consultiva e ser multiplicador de conhecimento na sua área. Para seguir esse roteiro de carreira, o profissional precisa de receber apoio da empresa no desenvolvimento de algumas competências comportamentais necessárias ao exercício da liderança, como a tomada de decisão, coaching, feedback, gestão de relacionamentos, entre outras. Preparar o profissional é fundamental para que actue de forma assertiva no exercício da liderança e traga resultados positivos à empresa.

Paciência e persistência para o êxito

É normal que quem trabalhe há muito tempo numa mesma empresa se sinta estagnado e queira ser promovido na estrutura de trabalho, já que esse objectivo é comum em todo o empregado. O grande problema é que, muitas vezes, ser apenas capacitado e exercer o seu ofício com qualidade não é suficiente para o chefe reconhecer o seu valor e importância no seio da empresa. Apesar de a promoção ser o objectivo de muitos profissionais, ela não deve ocorrer de qualquer forma, indo contra a sua ética e os seus princípios. Por isso, é importante realizar as suas tarefas com o máximo empenho possível e respeitar a conquista dos colegas, sem sabotar ou tentar atrapalhar o crescimento de outro funcionário. A meta de muitos profissionais é ser um líder, ser respeitado, uma referência, alcançar um cargo de direcção, ter óptima remuneração, boa carteira de benefícios, enfim, alcançar o sucesso profissional. Mas tudo leva o seu tempo. Não dá para entrar numa empresa e no ano seguinte achar que está sendo injustiçado, reclamar que não teve uma promoção ou um aumento salarial. Construir uma carreira de sucesso exige paciência, perseverança. Problemas existem e temos que desenvolver habilidades para suportar a pressão e ir construindo uma carreira de valor. É verdade que vivemos uma era em que tudo deve ser rápido, e isso acaba se reflectindo nosso comportamento. Mas, quando o assunto é agregar valor profissional para si e para a empresa, isto implica dedicação. Como sociedade beneficiámo-nos ao reconhecer que há coisas que levam tempo: requerem paciência, persistência e esforço para triunfar. Os vínculos duradoiros, as ideias complexas de negócios e a mudança não se conseguem da noite para o dia. A espera tem um efeito positivo na pessoa, porque aumenta a humildade e o orgulho quando se consegue algo para o qual se trabalhou arduamente. Isto explica que o êxito atrasado oferece um maior grau de satisfação em relação aos que se conseguem prematuramente.

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