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Polícia acusada de disparar contra cidadão indefeso

Na tentativa de dispersar populares que se insurgiam contra a Polícia, pelo facto de ter confiscado o material de som que usavam num convívio, um agente pertencente ao Comando de Divisão do Cazenga atingiu mortalmente um cidadão que apenas observava a acção

Texto de: Romão Brandão

Foi a enterrar, ontem, o cidadão André Agostinho António, de 30 anos, vítima de um disparo com arma de fogo, perpetrado, supostamente, por um agente da Polícia da Divisão do Cazenga. A bala disparada com a intenção de dispersar a população, uma vez que a Polícia estava no meio de uma confusão, acabou atingindo-o no pescoço e ficado alojada na cabeça.

Segundo o que nos conta João Augusto, de 63 anos, tio da vítima, os jovens do bairro que fica por trás da indústria cervejeira Cuca, no Cazenga, tiveram uma tarde recreativa, com jogo de garrafinha, que culminou numa “sentada” (convívio) perto de uma lanchonete. O convívio arrastou-se até ao período da noite, e porque a lanchonete fica na rua, muitas outras pessoas poderiam lá estar, mesmo não fazendo parte da organização ou serem convidadas.

André Agostinho António estava perto do local em que acontecia o convívio, a conversar com um amigo. Quando eram 23h, um dos vizinhos, incomodado com a música, ligou para a Polícia denunciando poluição sonora. A Polícia da esquadra do bairro Hoji Ya Henda apareceu no local e confiscou o material de som, sem antes advertir ao gerente da lanchonete que baixasse o volume.

Esta situação deixou indignados os populares que ali conviviam, já sob efeito do álcool, que exaltram os ânimos e foram contra a Polícia. Apesar de o material de som já ter sido colocado na carroçaria do carro da Polícia, os agentes viram-se obrigados a fazer 4 tiros ao ar, de forma a dispersar a população.

Estava tudo bem, até ao quarto tiro, mas à saída do local, um agente decidiu disparar um quinto tiro, ao chão, tendo a bala feito ricochete e atingido André Agostinho António, que estava a 20 metros do local da confusão, a conversar com um amigo.

Um tiro dado de propósito “Ele não estava no grupo que insurgiu- se contra a Polícia e todos podem confirmar isto. Depois de 4 tiros a população já se tinha dispersado, pelo que o quinto tiro foi dado de propósito. A Polícia foi e não deu conta que tinham atingido o meu sobrinho”, conta o tio.

Os moradores, ao verem que André Agostinho António tinha sido atingido, o levou até a esquadra móvel mais próxima, que fica junto da paragem de táxis da Cuca. Os dois agentes desta esquadra, ao verem que muita gente se aproximava, também fizeram disparos, o que fez com que abandonassem o jovem ferido ali perto.

A Polícia socorreu o jovem, com a ajuda de um motoqueiro que passava por ali, tendo-o levado a unidade hospitalar, neste caso o Hospital dos Cajueiros. Posto lá, a equipa médica durante alguns minutos assistiu o cidadão e, dada a gravidade do seu estado, decidiu transferi-lo para o Hospital Américo Boavida. Quando preparavam a ambulância, o homem perdeu a vida. “Fomos à Divisão do Cazenga, encontramos o gerente da lanchonete detido, mas o agente que fez os disparos não.

Eles disseram que depois iam mandar o agente para a cela, mas nós desconfiamos que isto não irá acontecer. Tudo o que queremos é que se faça justiça, isto é, que ele seja responsabilizado pela morte do nosso filho”, defende ele, que até ao momento, não sabe o nome do polícia que fez o quinto disparo. O processo que João Augusto acredita que venha a ser arquivado, carrega o nº 3341/18-CZ – porta 18.

A Polícia local responsabilizou- se pela compra na urna e alguns produtos alimentares para o óbito, que decorre na conhecida Rua da Paixão, no bairro por detrás da indústria cervejeira Cuca.

André Agostinho António, também conhecido entre a vizinhança como “Lagarto Pão-Pão”, era uma pessoa de trato fácil, deixa viúva e dois filhos, um de 10 e outro de 8 anos, e tem como sua última morada o Cemitério da Camama. O nosso jornal contactou a Polícia, que apenas confirmou a ocorrência e prometeu pronunciar- se nos próximos tempos sobre o assunto.

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