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Salteadores da felicidade

Algumas pessoas resolveram tirar-nos o direito a nós. São os salteadores dos nossos lugares felizes. Eles não sabem como ser venturosos, não sabem que a felicidade se constrói com momentos, com lembranças e, sobretudo, com sonhos e lugares. Cada um de nós tem o seu lugar feliz, ou, ao menos, deveria ter.

POR:José Kaliengue

O lugar feliz até pode ser um beijo furtivo, quando para ele temos sempre um local, um dia e uma hora na nossa memória. Sim, a felicidade também se constrói de memórias, como num passeio levado por mão adulta, segura e de confiança, o aroma da fruta comprada num mercado, o pregão de quem vende adornos, um sorvete, a descoberta de peças do passado num museu que nos abre a mente para um mundo imaginário qualquer e que, de repente, semeia no nosso íntimo menino uma decisão para o resto da vida: “eu quero ser isto”, um arqueólogo, um aviador, professor, um pintor, um bailarino. Eis que somos tomados por salteadores dos nossos lugares felizes, tiram-nos as praias, o direito ao sol, tiram-nos os museus, as ruas, os jardins, as escolas, os largos e, às vezes, também nos tiram as nossas próprias casas. Em suma, tiram-nos de nós e remetem- nos à infelicidade que eles próprios carregam, tão grande é a voragem dinheirista no rosto da sua grande desventura, como um desassossego de alma que eles julgam curar-se com mais e mais dinheiro. Tristes corações, tristes sinas de almas que não encontram os seus lugares felizes, tentam, antes, disfarçar a vergonha, envolvendo-se em murais de cifrões e de poder, inúteis, insustentáveis, efémeros, sem as luzes e sem os sorrisos e gargalhadas de uma cidade feliz. Um lugar feliz tem alma, tem memória, tem gente humana.

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