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Mais de 50 crianças “socorridas” por 60 mil kz de pensão de reforma

As 56 crianças internadas no Centro das Irmãs Missionárias da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, localizado no bairro da Gama, município da Catumbela, província de Benguela, são confrontadas com inúmeras dificuldades e sobrevivem graças a uma pensão de reforma atribuída à responsável, Maria da Cruz, no valor de 60 mil Kwanzas por mês.

Texto de: Constantino Eduardo, em Benguela

O centro, fundado em 1981 no Cuando Cubango, enfrenta inúmeras dificuldades, daí que a responsável, impotente, apele à sensibilidade social, no sentido de se inverter o actual quadro. Saturada com promessas não cumpridas de pessoas aparentemente bem-intencionadas, a madre Maria da Cruz vê na agricultura a solução para os problemas por que passam, não fosse a falta de recursos financeiros para aquisição de alfaias agrícolas, de maneira a concretizar tal pretensão.

Apesar disso, a religiosa não baixou os braços e vislumbra, no esconderijo da sua fé, a esperança de que uma luz vá resplandecer no “ fundo do túnel” e que o amanhã será melhor: “a congregação é mesmo pobre. Todas que estamos aqui vivemos da minha fraca reforma (de 60 mil Kz) de pro
fessora. Só queremos que alguém nos ajude”, apela.

A reboque da comunidade chinesa, a reportagem de OPAÍS esteve, recentemente, na instituição, tendo constatado as dificuldades que as crianças atravessam, na sua maioria órfãos de pai e mãe.

O centro foi agraciado com bens de primeira necessidade para, circunstancialmente, atenuar algumas das dificuldades. “As crianças dormem no chão, porque nós cá não temos condições”, disse a responsável, logo após à recepção de 12 colchões e igual número de camas, cobertores, doados pelos chineses.

“Todas as crianças dormem no chão, então o que nos deram vai nos ajudar muito”, considera. Um dos representantes da comunidade chinesa em Benguela, Xue, justifica que a sua instituição sentiu-se bastante sensibilizada com a causa da instituição, tendo resolvido sensibilizar os empresários asiáticos a mobilizar bens de primeira necessidade, visando atenuar as carências de um centro que precisa de quase tudo.

“As crianças têm muitas dificuldades, por isso trouxemos esses bens para as ajudar”, disse na altura. A responsável, embora agradeça o gesto dos empresários asiáticos pela acção caritativa, a irmã Maria da Cruz olha para o quadro crítico da instituição sob sua jurisdição e desafia outros segmentos sociais a seguirem o exemplo.

Quando questionada por OPAÍS se as autoridades, mormente o Gabinete de Acção Social, tinha conhecimento do quadro periclitante que o centro atravessa, a responsável limitou-se a dizer que a “Administração tem conhecimento, porque o administrador, juntamente com os seus séquitos, já cá estiveram”, tendo ficado a promessa de ajudar o centro.

Ao bairro da Gama faltam alguns equipamentos sociais, como hospital, por exemplo. Quando a doença “visita” o centro, a irmã e as doentes tem de percorrer quilómetros até à estrada e, de lá, apanhar um carro que as transporta ao hospital, na sede municipal. “Nós precisamos de um posto médico e de muita ajuda mesmo.

Se houver alguém que nos possa ajudar, agradeceria”, pede a religiosa. Bernarda Maria, 12 anos de idade, explica que a principal dificuldade é a alimentação e apela à sensibilidade das pessoas para inverter o quadro. A menina está esperançada que o centro, num futuro próximo, venha a ter um outro recurso, além dos 60 mil Kwanzas.

Adelino Chikombo, 15 anos, é outro adolescente no centro e realça: “Nós cozinhamos na lenha e no tempo de chuva passamos mal, precisamos só que alguém nos ajude com um fogão. Não temos mesmo como fazer”, pede. OPAÍS não conseguiu contactar a CARITAS, instituição da Igreja Católica, para saber se está registado como centro de acolhimento da igreja, uma vez que a responsável é madre católica.

Entretanto, a Associação Beneficente Cristã, órgão social da Igreja Universal, promete incluir o centro na sua lista de destinatários de doações. A instituição, que realiza regularmente doações de bens diversos a instituições, sente-se igualmente tocada pelos dados colhidos por OPAÍS relativamente ao centro.

Um membro da direcção salientou que “a associação, modéstia à parte, é das poucas que não precisa de nenhum evento para promover acções caritativas”, por esta fazer parte da sua essência: “A ABC foi criada pela igreja Universal a pensar nos pobres, nos mais carenciados”, lembra, lamentando, contudo, o facto de acções de caridade, do ponto de vista numérico, serem poucas porque “falta espírito de solidariedade”, considera a nossa fonte.

Ainda o drama das crianças de (e na) rua e a resposta do estado

Por um lado, as crianças “socorridas” pela irmã Maria da Cruz que precisam de ajuda; por outro, o drama das crianças que têm a rua como o seu espaço de eleição, em Benguela.

Quando questionadas sobre as razões de estarem na rua, uma vez que estão expostos a muitos riscos, os petizes alegam maus-tratos dos seus encarregados de educação. Como o lar se transformou num lugar perigoso, no ponto de vista delas, optaram pela rua, contra todos os riscos que correm diariamente.

É justamente na rua onde muitas crianças, argumenta uma fonte da Polícia Nacional, aprendem a consumir álcool e, consequentemente, envolvem-se em actos de delinquência, “furtando objectos no interior de viaturas. Muitas dessas crianças os pais estão vivos, só que, por falta de atenção, acabam por parar na rua”, pontualiza.

Minguito, sete anos de idade, vive na rua há um ano e passa o dia a mendigar “o pão” à porta de estabelecimentos comerciais.

O petiz conta que saiu de perto da sua parentela devido aos maus-tratos de que sofria, alegadamente infligidos pela madrasta com quem vive, desde que a sua progenitora partiu para a eternidade “a minha mãe morreu e eu vim viver aqui com os meus amigos, agora estamos aqui (referia-se ao jardim mercado).

Agora, meu cota, me arranja só 50 Kz, para eu comprar pão”, pediu o rapaz com um aspecto de quem não comia há alguns dias. Todavia, o órgão de quem se esperava que tirasse essas crianças da rua, nos termos das suas atribuições (que passa pela protecção à criança), o INAC, no caso, admite não dispor de recursos para fazer face à demanda.

Conforme noticiou o OPAÍS na sua edição de 5 de Junho, a repartição provincial do Instituto Nacional da Criança (INAC), em Benguela, há sete anos que está desprovida de recursos humanos e materiais para realizar parte dos trabalhos de apoio às crianças de rua.

A directora provincial interina do Instituto Nacional da Criança em Benguela, Rosa Francisco, admitia que a repartição já foi mais activa, contudo, de 21 passaram para apenas seis funcionários. Ciente das atrocidades de que as crianças de (e na) rua são vítimas diariamente, a directora disse que antes faziam rondas, recordando que já não o fazem há cerca de sete anos.

Naquela altura, o departamento tinha orçamento para fazer patrulhas nocturnas e distribuía cobertores às crianças no Cacimbo, estando, desse jeito, expostas a doenças, porquanto o INAC, a instituição do Estado a quem cabe zelar pelos interesses dos petizes, debate-se com “escassez de pessoal e de meios”.

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