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Joana Taya: “Há muitas mulheres talentosas activas no mundo das artes em Angola”

Artista versátil, com obras incluídas em várias colecções nacionais e internacionais, Joana Taya vive e trabalha entre Lisboa e Luanda. É autora da exposição “Os Guerreiros no Absurdismo Fantástico”, que até 31 deste mês estará patente na Galeria do Memorial Dr. António Agostinho Neto em Luanda. A pintora evidencia em entrevista a OPAÍS o dinamismo da sua criatividade no relevo das telas e a ânsia de continuar a aprender e seguir viagem por entre o encanto das cores

Texto de: Augusto Nunes

Como surgiu a exposição “Os Guerreiros no Absurdismo Fantástico” e como a define?

A ideia de fazer uma exposição com o ELA/AM-ARTE, surgiu no ano passado numa conversa casual com o curador-produtor Dominick Maia Tanner, em que me convidou a expôr no MAAN este ano. Desde o início acordamos que seria uma colecção de retratos. O meu trabalho, em geral, é muito inspirado em estórias e pessoas.

Ao longo do tempo fui reflectindo, observando e pesquisando, e, à medida que criava estas personagens, fui criando estórias a partir de pensamentos e conversas que fui tendo com outras pessoas no dia–a-dia, criei este conceito dos Guerreiros no Absurdismo Fantástico. Os Guerreiros são retratos fictícios de guerreiros valentes contemporâneos. Uma representação de Indivíduos Humanos numa consciência paradoxal urbana.

Preenchendo o dia- a-dia por acções automáticas de uma perspectiva construída, com a ideia psicológica em grupo ou como individual, em busca de uma crença de um viver fantástico. Absurdismo é o mágico, aqueles momentos em que encontramos sentido de humor e prazer, em que o tempo pára e sentimos total liberdade e satisfação no presente, onde somos aquele sonhador num presente e num momento encantado, e fantástico.

Quantas obras compõem esta exposição?

A exposição é composta por 11 pinturas de retratos em tela, 11 fotografias desses retratos em composições e cenários diferentes, um vídeo da documentação de uma viagem e uma série de serigrafias de uma das imagens dos guerreiros.

Quais foram as técnicas usadas na sua preparação? É uma colecção bastante dinâmica, as pinturas são feitas com acrílico sobre tela e fotografia, vídeo e serigrafia-impressão.

Porque optou por “Os Guerreiros no Absurdismo Fantástico”?

Somos guerreiros, já ultrapassamos um trabalho rejeitado, um amor mal acabado, um dia mal passado, algum tipo de dor que nos fez adultos, com cicatrizes de um passado de persistência e de uma superação de obstáculos que de alguma forma nos tornaram aquilo que somos hoje.

E no meio de todas estas conquistas somos capazes de ver o positivo e continuar a lutar com uma curiosidade pelo amanhã, com uma ingenuidade bonita de permanecer num absurdo encantado. É, meramente, a natureza humana. Guerreiros de um Planeta de água salgada, com bocados de bagagem amarga, a navegar em busca de momentos doces.

Qual é a percepção que teve do público acerca da exposição?

Na minha percepção, acho que correu muito bem, o conceito da exposição iniciou debates e reflexões e conversas interessantes. Pessoas que leram o conceito e depois davam a sua opinião ou expressavam estórias pessoais que tiveram ou faziam-me perguntas não somente sobre o aspecto visual das obras, mas também no aspecto intelectual. A minha intenção era mesmo essa, provocar diálogos e reflexões mais vulneráveis e emocionais em torno de um assunto.

E da galeria do MAAN?

Foi um grande prazer trabalhar com a Galeria do MAAN. Fui muito bem recebida, com muito carinho e profissionalismo e, sinto-me muito grata. É a primeira vez que expõe nesta galeria? Sim, é a primeira, e é uma grande honra. É uma artista versátil e com uma longa experiência na pitura, na fotografia, video-instalação e serigrafia.

Fale-nos desta polivalência. Desde sempre, desde pequenininha desenhei e pintei. Mas quando estudei escolhi fazer o curso de Desenho Gráfico, precisamente com a perspectiva e curiosidade de aprender outras técnicas e ferramentas. Ao longo dos anos, concentrei- me mais na pintura com a curiosidade auto-didáctica de aperfeiçoar a técnica do acrílico na tela. Mas hoje já sinto necessidade de usar ferramentas diferentes para apoiar ou complementar os meus conceitos.

Prende-se com a curiosidade de explorar e experimentar novas formas para complementar uma mensagem. Ja agora, qual é o seu ponto de vista sobre as artes plásticas no feminino em Angola? Há muitas mulheres talentosas activas no mundo das artes em Angola, não só nas artes plásticas como na música, literatura, fotografia, cinema e etc..

Há, sem dúvida, muito talento. Em sua opinião, que aspectos devem ser melhorados ou corrigidos?

Num contexto geral, gostaria que houvesse mais orçamentos do governo para apoiar artistas e projectos de arte.

Como vai o intercâmbio entre artistas na comunidade lusófona?

No meu ponto de vista, é muito bom e está cada vez melhor. Este intercâmbio é bastante dinâmico.

Considera-se uma artista realizada?

Sinto-me realizada e grata por todas as oportunidades e experiências que tenho tido, mas com muita vontade de conhecer mais pessoas e aprender mais e continuar esta viagem.

O que gostaria de realizar e não foi concretizado?

Ainda quero aprender muitas técnicas e gostaria de viajar mais com a minha arte, e no futuro a possibilidade de fazer algumas residências de arte e talvez até voltar a estudar.

Como está em termos de residência artística simultaneamente em Angola e no estrangeiro?

Tenho tido algumas propostas. Mas no presente tem sido difícil conciliar com a vida doméstica, mas gostaria muito no futuro viajar mais com a minha arte e ter a possibilidade de fazer algumas residências de arte. Vive e trabalha entre Lisboa e Luanda. Como tem conseguido conciliar a actividade artística e a doméstica? Dificuldades? É uma questão de disciplina e muito trabalho sempre, é um dia–a- dia preenchido, mas faz parte, quando se faz por amor, não se cansa).

Pela experiência no domínio das artes plásticas, acredita que já é possível viver somente desta actividade?

Sim é possível. Como qualquer trabalho, há que se ser persistente e resiliente, e estar aberto a crescer, e aprender com os outros, estar sempre a estudar e ser um autocrítico gentil consigo mesmo.

Quais foram os momentos áureos da sua carreira artística?

Momentos em que tive a oportunidade de viajar pelo mundo para expôr o meu trabalho, adoro! Um sonho a realizar é expor no Lobito, minha terra natal.

Como e quando enveredou pelas artes plásticas, que idade tinha?

Desde que me lembro, sempre desenhei, sempre, sempre.

Como foram para si os primeiros dias de actividade e quem a incentivou?

A minha mãe sempre foi a minha maior fã e sempre me deu muita força e foi ela que me incentivou a entrar e ficar no mundo da arte. Nesse aspecto tenho muito apoio da minha familia. A minha mãe também desenha muito bem, assim como o meu irmão – arte sempre esteve muito presente na minha vida desde que me lembro. Tanto artes plásticas como música.

Qual foi a sua primeira criação e o que retratou?

Foi quando andava na universidade e o meu professor de desenho gráfico na altura desafiou – me a fazer 50 pinturas por semana, e depois de um mês, tinha a casa cheia de pinturas. Foi daí que a minha mãe deu-me a ideia de fazer a primeira exposição. Tenho muitos desenhos guardados, fazia muitos presentes para amigos e familiares.

Em que ano realizou a primeira exposição em Luanda e qual foi o título?

A primeira exposição que realizei em Luanda, foi na Galeria Cenários da artistca fantástica Isabel Baptista, em 2003.

Qual será a sua próxima exposição e onde será realizada?

Normalmente faço uma exposição por ano. Já estou a pensar em conceitos e a plantar sementes, e aproveitar que estou em Luanda para pesquisar e dar alguma continuidade a algumas ideias. Para exposições, ainda não tenho nenhuma marcada em concreto mas já estou em fase de pesquisa e a reflectir em alguns temas.

Que comentários faz sobre a Galeria do MANN?

Tem sido uma experiência inesquecível, poder expôr no Memorial Dr. António Agostinho Neto, que honra e sito-me muito humildemente agradecida e feliz por ter tido esta oportunidade.

E do ELA – Espaço Luanda Arte?

Trabalhar com o ELA tem sido uma honra, muito profissional, um tratamento muito atencioso e com atenção ao detalhe, sempre muito disponível e muito pró-activo, fico muito grata ao Dominick Maia Tanner, que tem feito um trabalho excepcional.

Está a gostar deste desafio?

Adorei este desafio, aprendi muito ao longo desta experiência e sinto que amadureci e senti ao longo do processo um absurdismo fantástico Magico.

Trajectória da artista

Joana Taya, nascida na cidade do Lobito, província de Benguela, vive e trabalha entre Lisboa e Luanda. é desenhadora gráfica e pintora, com Mestrado em Desenho Gráfico e Artes da University of Creative Arts, Farnham, Reino Unido. Tem exposto o seu trabalho em galerias e exposições diferentes em Luanda, Stavanger (Noruega), Shanghai (China), em Brno (República Checa) e Berlim ( Alemanha).

Ao longo da sua carreira artística experimentou médias diferentes, além da pintura, nomeadamente colagens, artes gráficas e digitais, fotografia e costura. Além de pintora, Joana Taya foi também professora de desenho gráfico em duas universidades em Stavanger durante 5 anos e também trabalhou como freelancer em Desenho Gráfico. A sua obra pertence a várias coleções nacionais e internacionais.

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