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gays: “A sociedade não pode continuar a fingir que não existimos”

Devido ainda aos elevados índices de discriminação de que são alvo, os membros da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais), que a auguram pela legalização da sua primeira associação de defesa a qualquer momento, reafirmam a necessidade de uma maior inclusão e aceitação de todos os grupos sociais, independente da sua orientação

Por: Domingos Bento

Mesmo depois de Luanda ter-se transformado numa metrópole onde se cruzam diversas cores, hábitos, culturas e indivíduos de várias partes do mundo, a rejeição à comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais eTransexuais) ainda é bastante acirrada.

Devido à sua orientação sexual, estas pessoas vivem, no dia dia-dia, a discriminação de uma sociedade que ainda se assume como conservadora, apesar das influências de outros mundos, conforme denunciou Carlos Fernandes, presidente da IRIS, associação de defesa e apoio a comunidade LGTB.

De acordo com o líder associativo, em Angola, assumir a orientação sexual e transportar, para fora, aquilo que a pessoa é por dentro, continua ainda a custar caro para muitos. No entanto, apesar dos canais de televisão, as rádios e os jornais hoje terem maior disponibilidade para discutir este assunto, Carlos Fernandes disse que a sociedade, na prática, continua a ver a comunidade LGBT como seres aberrantes, endemoniados e que não merecem coabitar no mesmo espaço com os heterossexuais.

Com isso, muitos, quando “saem do armário” (o acto de assumir publicamente a sua orientação sexual) acabam por perder o emprego, a família, os amigos e até mesmo são expulsos da escola e de outros meios sociais.

Na semana passada foi tornada pública uma notícia segundo a qual, o Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos deu o aval à emissão das certidões de constituição da associação IRIS enquanto organização de defesa dos direitos humanos, que conta com três anos de existência e que aguardava, desde 2016, o documento que lhes permitisse a legalização e o acesso a financiamentos de instituições internacionais para as actividades que desenvolve regularmente.

O OPAÍS contactou o referido ministério, mas não obteve seguimento com relação ao assunto. Porém, Carlos Fernandes olha para o aval à sua organização como uma luz verde que vai dar um impulso à luta contra a discriminação e o preconceito que constitui a principal bandeira da associação que, actualmente, reúne mais de 200 membros activos e tem representação noutras partes do país.

É hora, no entendimento de Carlos Fernandes, de a sociedade começar a despertar para a necessidade da aceitação das pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transexuais por estes serem indivíduos com as mesmas necessidades, sentimentos e sonhos como qualquer outra pessoa.

A luta, como explicou, deve ser contra outras causas que põem em risco a vida humana, como as guerras, a criminalidade, a corrupção as doenças e não contra quem tem, simplesmente, uma orientação sexual diferente da grande maioria. “Somos renegados em todos os meios.

Quartam-nos a possibilidade de trabalho, de educação, de saúde e até de circular na rua porque volta e meia somos olhados de forma preconceituosa. A sociedade não pode continuar a fingir que não existimos. É preciso mais inclusão, mais aceitação e respeito por todos”, defendeu.

As consequências da rejeição

O presidente da IRIS deu ainda a conhecer que a não-aceitação da comunidade LGBT tem feito com que muitos vivam de forma sufocada. Com isso, alguns, diante da rejeição da família e da sociedade, acabam por enveredar por práticas erradas como alcoolismo, drogas e prostituição.

Outros, segundo Carlos Fernandes, acabam mesmo cometendo suicídio devido à angústia e ao sentimento de inutilidade causado pelo sentimento de serem renegados da vida em sociedade. Recentemente, a Organização Angolana de Serviços de Sida (ANASO), por via do seu secretário-executivo, alertou para o aumento do número de infecções por VIH/SIDA no seio da comunidade homossexual devido à rejeição e ao preconceito de que este grupo é alvo.

O responsável sugeriu às entidades governamentais para a necessidade de programas específicos virados poara a luta contra a epidemia no seio dos homossexuais, das trabalhadoras de sexo e de outros grupos vulneráveis que convivem com a doença. “Durante muito tempo, as trabalhadoras de sexo, os homossexuais e outros grupos mais vulneráveis, sofreram bastante discriminação e não foram incluídos nos programas de luta contra a doença.

No entanto, longe das políticas de Estado e do olhar marginalizador da sociedade, esse grupo passou a viver de forma descontrolada, aumentando assim os números alarmantes da doença”, explicou o especialista. Já De Carvalho Telma, lésbica, entende que os níveis de preconceito continuam acirrados porque a sociedade ainda tem uma falsa ideia em acreditar que o homossexualismo é coisa do mundo, que se aprende com influências externas.

Por isso, frisou, muitos pais quando notam que o filho é homossexual usam meios contundentes de forma a repreendê-lo, pensando que castigos duros eliminam o homossexualismo. “As pessoas não sabem quem nós somos na verdade e partem logo para a discriminação, para o julgamento. Pensam que é só bater em nós, nos xingar e destratar-nos que vão conseguir acabar com a nossa orientação sexual. Quando as pessoas perceberem que somos humanos, que temos sonhos e somos conscientes é que, talvez, vão compreender que nós estivemos sempre do lado certo e que aqueles que nos destratam é que estiveram do lado errado”, notou.

Iris pode reduzir os níveis de discriminação

De acordo com De Carvalho Telma, caso venha a ser concretizada a aprovação da associação IRIS como organização de direitos humanos de defesa das minorias sexuais, poderá reduzir os níveis de discriminação porque muitos vão ter a possibilidade de obter melhor conhecimento sobre a comunidade LGBT. “Será tipo sair do armário quinhentas vezes. Ou seja, já não somos só nós, já não estaremos a sós.

Doravante, a ser aprovada a nossa associação, muitos irão olhar para nós como seres humanos iguais aos outros. Os angolanos vão poder compreender mais a nossa maneira de ser e estar, vamos viver menos retraídos, menos oprimidos e seremos livremente”.

Para lá da simples aceitação

Para De Carvalho Telma, que descobriu ser lésbica desde muito cedo, ainda com 11 anos, a aceitação da comunidade LGBT em Angola não passa apenas pela partilha de espaços e do privilégio de ser aceite nos empregos e nos meios académicos. É, no seu desejo, mais do que isso. “Queremos, um dia, ter igualmente a possibilidade de casarmos, adoptarmos crianças e podermos ser aceites em tudo quanto é lugar. Esta sim, seria o ápice da nossa aceitação, como acontece noutros países. Precisamos evoluir para isso”.

Somos reais

O fim da discriminação contra os homossexuais é também dos maiores sonhos de Ivanilson Anoniely, que descobriu a sua homossexualidade aos 10 anos de idade. Embora criança, na altura, o jovem conta que desde muito cedo sentiu-se com maior disponibilidade para desempenhar funções femininas.

Proveniente de uma família conservadora, Ivanilson explicou que, para os pais, a descoberta da sua condição foi um processo conflituoso, mas que, com o passar do tempo, foi-se amenizando.

Hoje, a sua maior tristeza prende-se com o preconceito da sociedade que continua, conforme explicou, a olhar os homossexuais como cidadãos fora da sociedade.

Aos 26 anos de idade, Ivanilson sonha, como qualquer outra pessoa, em casar, ter a possibilidade de adoptar um filho e viver numa sociedade onde é julgado por aquilo que faz e não por aquilo que é. Segundo ele, a sociedade carece de informação sobre a comunidade LGBT para baixar os níveis de discriminação.

Desconstruir esse préconceito, no seu entender, passa por uma maior união entre os membros da comunidade que não podem ter vergonha de assumir a sua verdadeira identidade. “Opção sexual não impede em nada.

Só queremos ser felizes e respeitados como somos, sem máscaras, sem preconceito. Também amamos, pagámos contas, trabalhamos e temos necessidades, sonhos e sentimentos. Então, é precioso que as pessoas respeitem isso, nos dando a liberdade de sermos felizes”, apelou.
o romper de barreiras Até de 2008, era ainda um tabu ouvir-se falar da comunidade LGBT em Angola.

Os que existiam viviam às escondidas e com receio de saírem à rua por causa dos insultos e da forte discriminação que sofriam, tendo muitos casos de discriminação terminado em espancamento e ferimentos, sobretudo nos bairros periféricos de Luanda, onde a questão da conservação dos valores era bastante acentuada.

Com a mudança no Canal 2 da TPA, em 2008, a comunidade LGBT passou a reafirmar-se por causa da influência de alguns programas emitidos pelo espaço televiso onde os apresentadores e convidados eram homossexuais, lésbicas e transexuais como é o caso de Titica, Ady Lima e outros. Estas figuras serviram de modelos de inspiração para que muitos pudessem assumir a sua sexualidade em público.

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