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Sonho da casa própria frustra jovens

O sonho da casa própria para muitos jovens, e não só, acaba por se tornar num pesadelo, devido aos problemas que surgem desde a aquisição do próprio espaço até à sua construção. Com a crise vivida no país nesses últimos anos, o mercado de construção aumentou os preços dos materiais e muitos acabaram por desistir. O engenheiro civil ouvido pelo OPAÍS mostra que podemos construir uma casa com poucos recursos

Texto de: Maria Teixeira

Ter casa própria é o sonho de muitos angolanos. Para boa parte das pessoas, é também o maior investimento da vida inteira. Por falta de oportunidades, muitos jovens vêem os seus sonhos baldados.

Para muitos jovens, ter a própria casa significa também ter mais liberdade e responsabilidade, além de “sair do aluguer” ou da casa dos pais. Gerson Rodrigues, funcionário público, casado, de 35 anos de idade, vive em casa alugada, e, há três anos que tenta realizar o sonho da casa própria.

Comprou um terreno e começou a fazer as primeiras intervenções no espaço, mas no decorrer do tempo foise deparando com imensos entraves na consumação da obra, mormente na compra de materiais, dada a subida descontrolada dos preços. A luta começou na feitura da base (cabouco), que requer muito cimento, pedra, areia, ferros e betão.

Na altura de erguer as paredes, o bolso apertou, com os blocos a custarem o dobro do valor, o cimento a registar um acréscimo de mais de 120%, sem falar do transporte deste material para o local da obra.

A mão-de-obra é outro problema que o jovem enfrentou, pois os ‘mestres’ também estão com orçamentos exorbitantes. Para agravar, vem o dinheiro que se gasta para os acabamentos, como ferros, chapas de zinco, janelas, portas, mosaicos, instalação eléctrica, canalização e outros serviços combinados. Conclusão: “não é possível realizar este sonho em pouco tempo, com salários miseráveis que muitos dos angolanos ganham, a não ser que se faça muitos sacrifícios. Infelizmente as políticas de habitação são pobres e quem não se revê nelas tem mesmo de fazer das tripas coração para juntar algum dinheiro”, disse.

Baseando-se na actual realidade de preços dos materiais e ferramentas de construção, o entrevistado arriscou dizer que a construção da residência não fica abaixo dos 5 milhões de Kz. Com uma família cuja renda mensal é de 50 ou 100 mil kz, por exemplo, muitos anos levariam para juntar aquele valor.

Por causa dessas dificuldades na compra de materiais, a obra de Gerson ficou parada por alguns meses, pelo que neste momento sofre algumas intervenções, uma vez por mês, quando tem dinheiro.

Quando já se tem um terreno, com a construção da casa um pouco avançada e o dono decide fazer uma paragem, o que acontece em muitos casos, por causa dos altos preços dos produtos e serviços, esta obra acaba virando um matagal ou um local de depósito de lixo.

Como construir a sua casa com poucos recursos?

O engenheiro civil Olívio Fernando explica que quando se quer construir uma casa com poucos recursos deve-se elaborar um plano. O planeamento reduz desperdícios de materiais e de tempo, o que poderá desembocar no baixo custo da construção, dando uma boa previsão dos custos totais antes da execução.

Como exemplo, disse que há pessoas que compram uma recarga de 125 UTTs todos os dia. Não podem ficar sem saldo para a Internet ou chamadas de voz, esquecem-se que é o preço de um saco de cimento Portland de 50 kg, com o qual, misturados com areia, faz-se uma argamassa e podem ser executados 35-40 blocos, que cobrem uma área de 3m2 (três metros quadrados).

Por outra, aconselha as pessoas a procurarem um técnico de construção civil para ajudar na elaboração de uma planta simples, funcional, com estética arquitectónica, no caso de não existir uma. Construir uma casa sem plantas gasta-se mais e pode gastar até mesmo o equivalente a duas residências, só em materiais.

O técnico ajuda a seleccionar os melhores materiais de construção disponíveis na região a usar na construção e seus acabamentos. Usar blocos de cimento, areia e água, pode ser menos caro que tijolos, por exemplo, apesar de este último material ser vantajoso no que diz respeito ao peso e resistência ao fogo.

“Não poupe nas fundações (caboucos), pois uma fundação bem feita garante estabilidade e resistência da residência. Regra geral custa cerca de 20% do custo total da obra”, disse. Por outro lado, o engenheiro civil acredita que é possível a pessoa poupar dinheiro se tiver conhecimento mínimo de construção, de maneira a que possa acompanhar a obra.

O proprietário tem de fazer o sacrifício de lá ir, de encomendar o seu próprio material, e de estar no comando de todos os sub-contratados. “Não é uma tarefa fácil, seja como for, mas ele pode mesmo pintar a sua própria casa com amigos e familiares, por exemplo, como alternativa. Não comprar terreno em qualquer lugar e saber aproveitar o espaço na vertical”, sugere o entrevistado.

Construções verticais podem ajudar

O engenheiro civil explicou ainda que antes da construção é bom que se avalie muito bem a inclinação, cursos de água, dureza do solo e muitas outras coisas que podem tornar a construção muito mais cara ou mesmo invalidá-la. “Se você quer uma casa grande, muitas vezes é aconselhável construir verticalmente, ao invés de horizontalmente.

Uma casa de dois andares vai custar menos do que uma casa térrea com a mesma metragem quadrada. Geometria complexa num projecto da casa vai custar muito mais do que formas tradicionais”, disse o engenheiro.

Optar pelo reaproveitamento de materiais, abrir mão de acabamentos luxuosos e caros e não alterar o projecto durante a execução da obra também são factores que podem colaborar para a construção de uma casa mais económica.

“Coloque tudo na ponta do lápis antes de começar e, junto com seu técnico médio de construção civil, arquitecto ou engenheiro, busque alternativas viáveis, mas que não coloquem em risco a qualidade da construção”, explica. Quando se tem um orçamento apertado foque-se na casa de banho e na cozinha.

Estes dois espaços sofrem muita utilização e desgaste, por isso, escolher materiais de qualidade e duradouros ajuda bastante. Sugere ainda a utilização de materiais ecológicos (adobe, em zonas onde há escassez de fábricas de blocos de cimento ou tijolos) e acabamentos com materiais que garantam o mínimo de isolamento térmico e acústico.

Entre outras, afirma que as principais vantagens em construir com materiais ecológicos são: durabilidade, conforto acústico, conforto térmico, beleza arquitetónica e sustentabilidade.

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