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“As indústrias não vão sobreviver enquanto o Estado fizer economia”

O Economia Real analisa esta semana, entre outros assuntos, as consequências da eventual subida no preço dos combustíveis, a falência de fábricas na Zona Económica Especial, além disso o professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, acha que o Presidente da República devia permanecer mais tempo nas outras províncias em que dirige as reuniões da Comissão Económica

Texto de: Mariano Quissola / Rádio Mais

Quais são os reais desafios da economia local, no âmbito da consulta autárquica em curso no país?

Os desafios são enormes, porque há uma grande assimetria entre os municípios. A maior parte das populações estão nos centros urbanos ou vilas. Quer dizer que é lá onde têm ligeira oportunidade de emprego. Logo, para termos economia local é necessário alterar as mentalidades, incentivar o amor ao empreendedorismo e à produtividade. É fundamental que o foco das autoridades esteja virado para a criação das infra-estrututuras, para que tenhamos economia local.

A semana económica ficou marcada pelo discurso do Presidente da República no Parlamento europeu, onde apelou ao investimento para o país. O que achou?

Primeiramente, felicito o Presidente por ter sido o primeiro estadista angolano a ser convidado a discursar na sala magna da democracia europeia. Significa que a credibilidade do Presidente na Europa está alta e que aproveite bem esse capital. Entretanto, penso que faltou persuadir mais os eurodeputados. Faltou mencionar questões concretas sobre a política fiscal e o acesso à terra, por exemplo. Faltou mencionar a lei da propriedade intelectual.

Por outro lado, penso que o Presidente está a pessoalizar muito o combate à corrupção e dá a impressão de que ele é que mexe “nos paus” para as coisas acontecerem. Convinha que as instituições fossem fortificadas. Portanto, a atracção de investimento directo estrangeiro não se consegue só com palavras, mas com actos.

Presidente preside à uma sessão da Comissão Económica, na Huíla. Que resultados podem ser esperados?

Os resultados locais não podem surgir como o esperado, porque o Presidente fica apenas um dia, mais ou menos, numa província. Essa filosofia do Presidente deveria ser mais aprofundada. Em Taiwan, por exemplo, o líder do país ficava um mês em cada província – tinham poucas províncias. Na nossa realidade, se calhar, o Presidente ficaria uma a duas semanas. A presença do Presidente tem o efeito de arrastão. Se o Presidente ficar dois meses no Cunene, Luanda transfere- se para lá, com todos os efeitos colaterais positivos.

A possibilidade de subida no preço dos combustíveis continua em análise entre as Finanças e a Sonangol.  Que consequências isso poderá ter sobre a economia real?

Passou a ser normal o desequilíbrio das contas públicas de Angola. A última década de superavit era apenas artificial devido à alta de preço do barril de petróleo. Angola nunca teve contas públicas organizadas, desde 1975 até aqui.

Quando a consolidação das finanças públicas em Angola é feita sem mobilizar ideias e mudar as ideias que vão incidir sobre as pessoas, é como entrar na floresta do Maiombe às zero horas sem lanterna. Era importante explicar às pessoas sobre a importância do ajustamento nas contas.

Qual é a sua importância para a zungueira e o engraxador de sapatos, por exemplo. Vamos implementar políticas, sem mudar ideias. Toda a nossa economia era subvencionada, não tínhamos economia para comprarmos Lexus. O Governo quer transformar a economia em economia real, mas para tal deve mobilizar o povo, porque é ele que faz a economia real.

Os custos dos combustíveis já aumentaram por causa da desvalorização do Kwanza. Portanto, o impacto sobre a economia será grosseiro, porque os custos de produção vão aumentar e as famílias já não têm rendimento.

E no início deste mês o Kwanza já depreciou 1,45% …

É mais uma desvalorização. O Banco Central desvalorizou a moeda. Isso é consequência da variação definida pelo BNA, que a depreciação só pode variar 2%. Hoje o BNA transformou-se numa casa de câmbio e chama a isso regime flutuante.

A FILDA/2018 realiza-se este ano na Zona Económica Especial Luanda/ Bengo. Que resultados se podem esperar desta edição?

Uma zona por excelência de produção. É lá onde se produzem vários bens comercializados no mercado. O local é ideal, porque Viana é essencialmente um pólo industrial. Agora, acho que as empresas devem aproveitar o meio para apelar o Estado a reduzir os custos de produção, mediante a criação de políticas concretas, na medida em que a reforma deve estar virada para as empresas e não para o Estado.

O Estado não pode ar- Passou a ser normal o desequilíbrio das contas públicas de Angola.

A última década de superavit era apenas artificial devido à alta de preço do barril de petróleo. Angola nunca teve contas públicas organizadas, desde 1975 até aqui. recadar mais recursos que as empresas.

Como avalia a dinâmica da “maior bolsa de negócios de Angola”?

Os encontros entre empresários são sempre interessantes e naturalmente as nossas feiras sempre seguiram o nosso ciclo económico. O comportamento do preço do barril do petróleo também tem influência nesse certame. Num período de arrefecimento da economia é fundamental a realização de feiras.

Na ZEE também há registos de “boletins de óbitos” de fábricas. Que remédio?

As zonas económicas em Angola não surgiram de forma estrutural, sugiram com custos de produção enorme. Comprar produtos na Zona Económica era mais caro do que importar. Surgiam num modelo económico do populismo e manifestação de poder. As indústrias não vão sobreviver enquanto o Estado fizer economia. É natural que essas indústrias fiquem de rastos, porque surgiram de forma artificial.

Sugestão de Leitura: Título: Inteligência Social Autor: Daniel Goleman, jornalista científico norte-americano Publicação: 2006

Frase para pensar: “É ilusão achar que o consumidor final tem de ser protegido por preços subsidiados. Eles recairão sobre toda a sociedade”, Adriano Pires, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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