Lixo é o novo negócio no litoral de Benguela

Há três semanas que as empresas operantes na recolha dos resíduos sólidos urbanos deixaram de trabalhar em Benguela, porque o Governo Provincial rescindiu os contratos. Como resultado, vários grupos de cidadãos ganharam negócio com isso, indo recolher o lixo à casa dos vizinhos, porta à porta

Texto e foto: Zuleide de Carvalho

Desde que as administrações municipais do litoral de Benguela foram incumbidas de dar tratamento aos resíduos sólidos urbanos que há amontoados volumosos de lixo até no centro das cidades.

Isto porque, antes de serem forçadas a enfrentar essa realidade, não houve tempo de preparação prévia e capacitação, nem aquisição dos necessários materiais e equipamentos para a realização eficaz de tal tarefa. Nos municípios da Baía Farta, Benguela, Catumbela e Lobito, os departamentos do saneamento básico têm estado sobrecarregados, há cerca de três semanas, lutando para dar resposta com os parcos recursos humanos e materiais que detêm.

Mas esse esforço, por si só, não basta, pois, as cidades estão diariamente sujas e mal-cheirosas. Elevando- se o risco de propagação de vectores, logo, doenças, alerta o director do Gabinete Provincial da Saúde, António Cabinda.

Crise do lixo: uma oportunidade de negócio

No bairro Quioche, Benguela, um grupo de homens cobra 250 Akz a cada casa, semanalmente, para arrastarem o lixo doméstico até ao ponto de transferência, onde a Administração Municipal local (A.M.B.) o recolherá, distando aproximadamente 100m das residências. Para esses negociantes, a crise do lixo, para além do perigo iminente que lhes oferece à saúde diariamente, deu-lhes também emprego, um meio de onde tiram o ganha pão semanalmente, pago pelos vizinhos.

No município do Lobito, a prática é semelhante. A base do actual sistema, levado a cabo por cidadãos comuns, cinge-se à emissão de senhas com a duração de uma semana. De modo aparentemente eficaz, cada residente na área paga uma quota aos colectores de lixo, recebendo a senha que o autoriza a depositar os seus resíduos domésticos na “pequena lixeira” mais próxima, vigiada por “fiscais”.

Mediante a apresentação da senha, os “fiscais” controlam quem pagou a prestação devida sempre que alguém vai deitar o lixo. Porém, não trabalham até muito tarde, nem de madrugada, logo, o sistema é falho. No bairro Africano, moradores pagam 150 Akz aos trabalhadores que se organizaram para fazer a fiscalização no ponto de transferência e o transporte do lixo, que se amontoa e agiganta, em média, por 10 dias.

O Lobito, segundo município mais populoso, logo, segundo maior produtor de lixo a nível provincial, será o próximo a receber equipamentos para acomodação e transporte, tão logo o Governo tenha verbas, declarou Leopoldo Muhongo, vice-governador.

Pequenos colectores não bastam

Por seu turno, o administrador municipal da cidade dos flamingos, Nelson da Conceição, proferiu recentemente que, na sua área de jurisdição, os contratos com as operadoras de resíduos sólidos findaram a 30 de Abril último. Logo, desde Maio, valas, passeios, estradas, enfim, em qualquer espaço que tenha solo, os cidadãos deitam diariamente os seus resíduos sólidos urbanos de forma anárquica, prática a combater com afinco, com a ajuda de todos. Há alguns dias, o dirigente fez saber que “neste momento não implementamos ainda os contentores e caçambas na cidade porque a Administração não tem nenhum contentor compactador, nem máquina para poder transportar as caçambas.”

Quando houver tais meios, avançou o administrador, serão estabelecidos horários para o depósito do lixo, agilizando-se assim o trabalho dos colectores da Administração, ao passarem diariamente pelos circuitos.

Com isto, tem noção que o sistema de recolha levado a cabo por colectores autónomos “não é completo” e, “as pessoas resistem à mudança”.

Todavia, para a Administração estar efectivamente capacitada, é primordial que ajudem.

Lobitangas fartos do lixo reclamam

Para os munícipes, o Estado tem que resolver este grande problema do lixo o mais urgentemente possível, pois a situação está incontrolável. Um jovem lobitanga reclamou: “é de lamentar. Uma vez que (o Lobito) é a sala de visitas de Angola, já não parece a mesma coisa, o lixo aí, parado em todo o sítio…”, apontou, reprovando. Interpelado, outro munícipe acusou: “impossível!!! A cidade do Lobito está mesmo suja!

O senhor governador tem de ver bem este caso aqui”, para que tenham “a cidade limpa como antigamente”, apelou. Questionado, um transeunte clamou: “desejo que a nossa administração vele por essa situação o mais rápido possível. Estamos a ver que a nossa estrada está a ser cada vez mais ocupada com lixo.” Já outro cidadão, igualmente agastado com as lixeiras espalhadas pela cidade e bairros, exprimiu: “é de lamentar, é uma miséria.

Não só aqui, mas, em tudo quanto é canto encontramos lixo”, lamentou. A olhos vistos, a cidade dos flamingos apresenta, com as montanhas de lixo, uma regressão efectiva em termos de desenvolvimento, aspecto criticado por um munícipe, dizendo que “temos que melhorar, no passado estava bom”, recordou.-