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Alexandre Costa: “A Província do Bengo é o berço da Cultura Nacional”

A província do Bengo, 60 quilómetros a Norte da capital do país, Luanda, continua a dar passos importantes para a revitalização dos vários sectores da vida cultural na região. A também conhecida terra do Jacaré Bangão, quer voltar aos seus tempos áureos em termos de produção artística. Em entrevista ao OPAÍS, Alexandre Costa, director do Gabinete Provincial do Turismo, Cultura, Juventude e Desportos da província do Bengo, fala do plano provincial de desenvolvimento que está a ser gizado, em que a componente da formação é de importância particular. O resgate dos valores culturais da ancestralidade, o incentivo aos hábitos de leitura aos mais novos, a investigação científica são, entre outras acções, as prioridades do sector

POR: Augusto Nunes

Como caracteriza a província a Província do Bengo do ponto de vista cultural?

A província do Bengo é de facto o berço da Cultura Nacional. Como deve saber, o Maior Cantor e Embaixador da Música Angolana, nasceu na província do Bengo. Estou somente a falar de Barceló de Carvalho, o mais velho “Bonga Kwenda”. Ele nasceu ali no Porto Kipiri. Portanto, quem fala do Bonga, está a falar também de Prado Paím, do malogrado Bernardo Jorge Martins Correia “Bangão” e tantos outros. Embora reconheçamos que nos dias de hoje não é fácil fazer Cultura. Se estivermos lembrados, nos anos 60 e 70, a província do Bengo, na altura ainda região de Quibaxi pertencente ao Cuanza-Norte, tinha um grupo músico-cultural.

Isto faz-nos lembrar que afinal também aqui somos actores culturais sérios. Resumindo e concluindo, na verdade, reconhecemos que temos uma cultura particular, porque temos hábitos e costumes intrínsecos. Porém, nesta parte, o particular faz o geral. O particular é o Bengo e o geral é a Nação, da qual também somos parte integrante, senão grandes contribuidores de Cultura Nacional. Ter um Barceló de Carvalho natural do Bengo, ter um Bangão que já foi um dos maiores expoentes da música angolana, natural do Bengo, ter um Prado Paím que conquistou o primeiro Disco de Ouro na época colonial, também natural do Bengo, não nos resta dizer que Bengo é terra da Cultura Nacional. É pena que muitos dos nossos actores culturais estejam já a falecer.

Como está a província em termos de literatura e de artes cénicas?

Ao nível das artes cénicas temos uma escola, o Centro de Formação de Música e Artes Cénicas de Caxito. Esta escola foi fundada há sensivelmente seis anos e funcionou cerca de três. Por carência de capital humano, sobretudo professores de especialidades, há dois anos que está paralisada. No entanto, o governo provincial fez uma comunicação ao Ministério da Cultura no sentido de sermos apoiados com alguns docentes especializados. Estamos a trabalhar com o senhor secretário de Estado para as Indústrias Culturais, e a perspectiva é boa. Localmente, o governo da província tem estado a trabalhar com o Ministério das Finanças, no sentido de encontrar algumas vantagens em termos de capital humano próximo de Luanda, com alguma capacidade para formar no domínio da música e possam contribuir para o arranque da nossa escola.

Estamos esperançados, e, se tudo correr bem, a escola há-de arrancar no próximo ano e aí sim podemos dizer que no domínio da música e das artes cénicas, o Bengo está a contribuir com alguma coisa para esta vertente. Já com a literatura, há um tempo a esta parte, a província do Bengo criou um Prémio de Literatura para os Escritores do Bengo e não só, e se não me engano, foram realizadas três ou quatro edições. Infelizmente devido à situação financeira actual, todas as intenções nesse sentido foram-se retraindo. Mas, considerando que o país está a estabilizar financeiramente, acredito que uma vez sejam criadas as condições para que essa estabilização se torne efectiva, o Prémio de Literatura da Província do Bengo há-de ressurgir, e poderemos continuar a trabalhar para que este concurso seja anual e realizável. Não basta falar, é importante fazer, fazer bem e nós podemos fazer sim. Estamos esperançados que se a situação do país melhorar, este Prémio Literário da Província do Bengo poderá voltar a ser efectivo. Por hoje, o grande empecilho é mesmo financeiro.

Quais são os pólos de desenvolvimento literário da província do Bengo?

Nós aqui, fundamentalmente na região de Caxito e na região de Quibaxi, o triângulo que configura os territórios dos Dembos, do Bula Atumba e Pango Aluquém. Depois vem o Nambuangongo. Como está representado o folclore nesta região? Sabe que o Bengo do ponto de vista cultural, o folclore faz parte da Cultura Nacional. De forma geral, em todos os municípios encontramos esta prática cultural, com realce na região do Nambuangongo e do Triângulo. Bastam apenas incentivos, são artes culturais da geração adulta, e para os jovens praticarem o tipo de dança folclórica ou tradicional, precisam de algum estímulo. Motivá-los para aprenderem a dançar. No âmbito da edição do Carnaval 2018, nós comissão provincial preparatória, coordenada pelo Vice- governador para o Sector Político, Social e Económico, abrimos um novo item para a dança folclórica e os instrumentos tradicionais. O que nós habitualmente fizemos no desfile do Carnaval foi introduzir a fileira do desfile da dança tradicional e dos exímios executantes de instrumentos tradicionais.

Como está representado o folclore nesta região?

Sabe que o Bengo do ponto de vista cultural, o folclore faz parte da Cultura Nacional. De forma geral, em todos os municípios encontramos esta prática cultural, com realce na região do Nambuangongo e do Triângulo. Bastam apenas incentivos, são artes culturais da geração adulta, e para os jovens praticarem o tipo de dança folclórica ou tradicional, precisam de algum estímulo. Motivá-los para aprenderem a dançar.No âmbito da edição do Carnaval 2018, nós comissão provincial preparatória, coordenada pelo Vice- governador para o Sector Político, Social e Económico, abrimos um novo item para a dança folclórica e os instrumentos tradicionais. O que nós habitualmente fizemos no desfile do Carnaval foi introduzir a fileira do desfile da dança tradicional e dos exímios executantes de instrumentos tradicionais.

Qual era a visão que tem em relação a isto?

É o resgate desse valor cultural que estamos a perder para transmitir às novas gerações. Acredito que se houvesse prémio, nenhum grupo carnavalesco teria vencido esta edição. Mas como não foram acções de premiação ou de concorrência, ficaram apenas as palmas efusivas. Deixa-me dizer que neste desfile foram apenas mais velhos, na terceira idade. Foi um bom exercício, sobretudo para os municípios de Nambuangongo e do Ambriz. Estes exercícios vão continuar, porque para o novo paradigma que pretendemos para o  Carnaval 2019, acho que teremos mais uma vez a grande contribuição dos mais velhos ao nível da Cultura local. É importante que a juventude, os adolescentes e as crianças conheçam e dominem a Cultura local, sob pena de perdermos a nossa identidade cultural. Um povo sem identidade cultural não é povo, mas um aglomerado de pessoas, que não se identifi ca com nada. Este é o sentimento pelo qual nós trabalhamos, para termos aquele grupo de pessoas adultas que vão mostrar o quão variada é a nossa Cultura Nacional. Ainda assim, precisaremos de fazer algum esforço. Acredito que em colaboração com as administrações municipais, o Departamento Provincial da Cultura poderá dar um avanço nessa matéria e poderemos sim retomar os valores culturais da nossa ancestralidade.

As artes plásticas parecem estar representadas apenas por um único artista, o Metre Massoxi. Qual foi a sua percepção?

Na nossa província, o Mestre Massoxi é uma referência obrigatória na área da arte, sobretudo na escultura. Tem um centro na região do Panguila onde expõe as suas obras e uma oficina onde alguns jovens vão consigo aprendendo a arte de esculpir. Acho que nós, enquanto agentes da cultura, devíamos prestar um pouco mais de atenção nesta vertente, sobretudo da formação (Escola). Por vezes não basta a vontade, mas os meios necessários para complementarmos a vontade. Temos trabalhado nesta perspectiva.

Que passos devem ser dados para inverter a situação?

Estamos nesta função há sensivelmente oito meses, porém temos um plano provincial de desenvolvimento que está a ser gizado, e, para nós, a componente da formação é de total e extrema importância na tarefa de disseminar o conhecimento, e o conhecimento não é apenas intelectual, é também a arte, a sensibilidade e o gosto. Acho que nós devíamos, quando digo nós digo a sociedade da província do Bengo, nós Cultura, olhar com mais atenção o mais velho Massoxi. Devíamos criar uma Escola, quiçá, não temos muitos recursos para que possamos dar-lhe aquilo que precisa.

 

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