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“Funcionários fantasmas resultam dum modelo económico do populismo”

O programa Economia real avaliou esta semana o impacto das feiras sobre a economia, a fonte dos funcionários fantasmas. Entretanto, o professor de Macro-economia, Yuri quixina, entende que o PdN devia resultar de um amplo debate nacional, com perspectiva de 50 anos

Texto de: Mariano Quissola / rádio Mais

Continua a consulta autárquica. Dois grupos de políticos moçambicanos apresentam pareceres diferentes sobre o processo. Os convidados do MAT defenderam o gradualismo e os convidados da UNITA a implementação nacional das autarquias. Como entender isso?

Penso que não estamos a levar muito a sério este processo autárquico. Estamos a assistir ao provérbio segundo a qual, ‘na luta dos elefantes o capim sofre’. O povo não está a ser tido em conta.

Estamos lembrados que o MAT convidou para uma conferências políticos moçambicanos para dissertar sobre as experiências autárquicas, com destaque para o antigo presidente Joaquim Chissano, que defendeu o gradualismo na sua implementação.

Ontem assistimos à outra conferência da UNITA, onde políticos moçambicanos na oposição defenderam uma visão diferente. Penso que aqui o MPLA e a UNITA, os dois principais interessados nesse processo, estão a brincar ao gato e o rato. É lamentável.

Calculo que os autarcas também venham a sentir necessidade de realizar feiras locais. É sustentável?

A feira é muito ligada à uma economia onde o Estado faz tudo. Para as autarquias terem finanças é fundamental ter empreendedores e para tal é preciso ter-se ideias. Entretanto, as ideias são o produto de boa saúde, infra-estruturas…

Mas as feiras servem de montra para dar a conhecer aos investidores onde investir?!

Com um manto de custos de produção, as feiras criam negócios muito conjunturais e não de forma muito estrutural e sustentável. A essência das feiras devia assentar nos custos de produção para atrair de facto os investidores.

O Plano de Desenvolvimento Nacional vai recuperar o crescimento económico.

Isso foi dito numa das conferências da FILDA/18. Para já não chamo de Plano de Desenvolvimento, penso que desenvolvimento é de meio século, como os outros países fizeram. O Plano de Desenvolvimento de um país não é feito através de consultoria estrangeira.

O estrangeiro não quer que você se desenvolva, é uma competição. É feito pelos nacionais com a exploração de talentos, e deveria ser debatido durante muito tempo. A meu ver, isso é PGN – Plano de Governação Nacional 2018-2022, porque é o período da legislatura. A “estratégia” do PDN assenta em cinco eixos, entre os quais o desenvolvimento económico sustentável, segundo o ministro da Economia.

Desenvolvimento sustentável não é feito em cinco anos, isso é um programa de governação que poder ser um instrumento para o desenvolvimento. Diversificação da economia não se faz em cinco anos. Ela não é um fim, é um meio.

A FILDA abordou também em conferência “O papel do sistema financeiro nacional no fomento empresarial e diversificação da economia”. Como avalia esse papel?

Para financiar o sector privado não. Esse papel foi relegado para o quinto plano, porque temos um sector financeiro que convive muito com o Estado, os impostos vão para o sector financeiro e o Estado vai ao sector financeiro buscar dinheiro para pagar os funcionários públicos e as suas despesas correntes.

A nossa banca de investimento é quase inexistente, por exemplo. É a banca de investimento que canalizaria financiamento para o sector produtivo. Quando o Estado está no sistema financeiro, é subdesenvolvido.

E o Estado restitui os salários de funcionários que haviam sido retirados do SIGFE. Mais de 41 mil.

O modelo económico em que o Estado faz tudo, é bagunçado e, é fácil criar fantasmas. Os funcionários fantasmas resultam de um modelo económico do populismo e manifestação de poder, porque esse tipo de práticas permite a manutenção desse tipo de poder. Esse modelo sobrevive quando há muito dinheiro.

As pessoas que hoje lutam contra os fantasmas também contribuíram para o seu surgimento. O ministério é o mesmo e as pessoas também são as mesmas. Mas é necessário reflectir que a luta contra o trabalhador fantasma tem princípio, mas não tem fim, por que os funcionários incompetentes que giram as cadeiras nos ministérios, mas recebem o salário dos nossos impostos também são fantasmas e preocupam mais. A correcção passa por maximizar a sua produtividade e eficiência, incutindo-lhes o amor à produtividade.

E o índice de preços no consumidor registou uma variação de 1,16%. O que determina essa variação?

Com essa reorganização do Ministério das Finanças, há um adiamento das despesas, porque os salários na função pública são a segunda maior despesa do Estado, depois da taxa de juro para o pagamento da dívida. Se o Estado reduzir o pagamento dos salários, a pressão na procura reduz, porque o Estado emprega meio milhão de funcionários.

Conselhos Úteis: o que fazer com uma ideia, sem financiamento?

As ideias são fundamentais, sobretudo as de criação de empresas, de forma estruturada e sistematizadas. As pessoas que tenham ideias, mas sem dinheiro para pólas em prática uma das saídas seria vendê-las.
Como acautelar um eventual furto da ideia? É fundamental registá-la. Angola tem uma instituição para o feito. A reforma estrutural é inerente ao Instituto Angolano da Propriedade Intelectual.

Sugestão de leitura Título: ‘O génio em todos nós’

Autor: David Shenk, escritor e produtor cinematográfico, norteamericano

Ano de publicação: 2010
Frase para pensar: ‘O desenvolvimento de Angola é uma luta contra o tempo, porque a nossa prioridade é a urgência e não a perfeição’, Yuri Quixina, professor de Macroeconomia.

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