loader

Sobado negado do Cassenda pode ser entregue a outra família

Há cerca de três anos que as negociações com a linhagem do falecido Soba Zinho não encontram solução, já que nenhum dos possíveis substitutos aceita suceder o tio, irmão ou o pai no trono. A Administração coloca a hipótese de entregar a liderança tradicional a outra geração

POR: Alberto Bambi

O coordenador do bairro Cassenda, na localidade do Bom Jesus, município do Icolo e Bengo, em Luanda, Adão Domingos Francisco, revelou a O PAÍS que o sobado do subúrbio que dirige poderá passar para outra família, porque os parentes directos do malogrado líder tradicional se rejeitam substituí-lo. “Desde Setembro de 2015 que a administração da comuna, a coordenação do bairro e outras forças vivas da povoação, integrada maioritariamente por anciãos, têm conversando com os sobrinhos, os filhos e os irmãos do falecido para ocuparem o cargo de soba, conforme manda a tradição, mas estes simplesmente não aceitam”, revelou o coordenador, que a princípio chegou a pensar que se tratava de uma reacção influenciada pelo passamento físico do então líder familiar. Por causa disso, a coordenação de Cassenda ainda apelu às autoridades da comuna para conceder um tempo razoável aos parentes do Soba Zinho, para ultrapassarem as mágoas causadas pela perda do pai.

Segundo Adão Francisco, com o passar do tempo, ele e os seus colaboradores foram-se apercebendo que a decisão fora assumida pela família inteira, sustentada por motivos pouco explícitos. Questionado sobre o tipo de justificações que eventualmente apresentaram, o responsável de Cassenda ficou entre os rumores colhidos no bairro que se referiam à falta de um suposto apoio durante o ministério, porém foi o seu secretário, São José, que tentou ser explícito, ao ponto de ter tocado nas alegadas questões de feitiçaria e na falta de subsídios para o soba. “Mas tudo isso só ouvíamos por aí, nunca ouve uma manifestação directa da parte dos familiares”, sublinhou o coordenador Adão. O entrevistado recordou que recentemente se sentaram com os herdeiros do trono, e face a insistência da sua equipa administrativa, os sucessores legítimos sucessores propuseram, de forma irónica, que o secretário da administração ocupasse o lugar em causa.

Os sobas grandes do município, Mendes de Carvalho, e o da comuna, Alfredo, já fizeram as suas diligências com os substitutos de direito, entretanto também não tiveram sucesso. Aliás, foi do Soba Alfredo que, no ano passado, O PAÍS ouviu dizer que a passagem da linhagem do sobado não era a solução, sendo que ele e o seu elenco preferiam ver a povoação durante um ou dois anos sem soba a fazer a transição que, em seu entender, constituiria a derradeira alternativa. O que administração não pretende ver essa realidade, passados três anos sem o empossamento de um novo líder tradicional, razão pela qual anunciou que já está a ser tratado o processo todo, que foi remetido à administração da comuna, tendo deixado patente que a transição do trono vingaria como solução derradeira, no caso de a família do falecido insistir na sua posição.

Viúva quer livrar-se da farda do soba

Ana Sebastião Francisco, de 50 anos de idade, é a primeira mulher do malogrado. Ela garantiu que a família não está interessada em substituir o falecido marido, porque julga que ele se terá desgastado ao serviço de um sobado herdado de um tio que não lhe rendeu nada senão doenças e problemas. “Os filhos e os sobrinhos dizem que já não podem ficar no lugar do pai, porque desconfiam que ele foi morto”, reagiu a Velha Ana, que lembrou ainda as constantes acusações que o marido sofreu da parte da comunidade que alegava que ele estava a beneficiar de regalias das empresas exploradoras de inertes instaladas nessa povoação, localizada na margem direita do rio Kwanza.

Outra decisão que a velha teve, foi a de entregar o uniforme do soba que, segundo ela e os filhos que seguiam atentamente a conversa, está a alimentar a esperança da coordenação de Cassenda ver os herdeiros recuarem na sua decisão inicial. “Ando mesmo com a roupa dele lá dentro de casa, mas já quero entregar, só que ninguém quer receber”, porque eles pensam que, se ficar aí, a família pode ainda pode voltar a aceitar ser soba”, realçou a anciã, assegurando que a decisão dos parentes do Soba Zinho era irreversível. A falta de apoio para ela, incluindo os filhos e restante agregado, ao longo de dois anos e meio, desde a morte do parceiro, foi por si referida como outra das causas da decisão da sua família, que ao menos, esperava, pela reposição dos subsídios dos seis anos de liderança tradicional. Ana Francisco sabe que o trono não deve passar para outra geração, por isso tem aconselhado a coordenação a negociar directamente com os sobrinhos e filhos do soba que antecedeu o seu marido, de quem este, na qualidade de sobrinho, herdou a soberania, no sentido de se repor a legalidade.

Requerida voz tradicional

Para o secretário da coordenação de Cassenda, São José, é urgente que o bairro volte a ter uma autoridade tradicional para se recuperar o poder que a referida figura exerce em áreas periféricas como é o caso dessa zona ribeirinha. “Porque aqui, quando vem uma visita, um empresário oumesmo outras entidades com fins turísticos, académicos ou culturais, a primeira pessoa sobre quem perguntam é o soba, só depois é que querem manter contactos com outros elementos da comunidade”, referiu São José, tendo reconhecido, em seguida, que existiam mesmo funções que só podiam ser exercidas por esta entidade. São José adiantou ainda que, nesses três anos de um bairro sem soba, a localidade está a perder algum tratamento condigno por parte de banhistas, turistas, investigadores de zonas rurais e até mesmo comerciantes, que chegam mesmo a sentir-se inseguros pelo facto de não terem sido recebidos por uma autoridade tradicional. Embora informado que o soba Alfredo se desdobra a exercer a função em actividades de índole comunal e municipal, ao ponto de, às vezes, fazê-lo ao nível do bairro, o secretário considera que o impacto dessa cobertura não é o requerido, porque o decano não convive diariamente com a comunidade.

Estrada sem restauro

Alguns habitantes da comunidade de Cassenda apontaram o mau estado actual das vias rodoviárias que dão acesso à povoação como uma das consequências imediatas da ausência do soba. “Não é que ele era o mentor do trabalho de terraplanagem dessas estradas não asfaltadas, mas quase sempre que o Velho fizesse parte da equipa que ia pedir uma máquina nessas empresas para endireitar a via, os empresários daqui emprestavam os tractores”, revelaram alguns jovens sob anonimato. Outra situação que narrou prende-se com a intermediação do ancião junto às empresas locais, para que os jovens da povoação fizessem parte de alguns trabalhos periódicos levados a cabo por essas instituições exploradoras de inertes. Relativamente à substituição do soba, os interlocutores deste jornal aconselharam os coordenadores do bairro a não insistirem na indicação de familiares do malogrado, porque os mesmos não querem e já manifestaram tal decisão em muitas reuniões. “Porque, se eles forem forçados a aceitar e amanhã acontecer alguma coisa má, será outro problema”, admitiram. Os jovens desejam que, independentemente de quem venha a ser o próximo soba de Cassenda, que seja ele um residente da comunidade, que viva, conviva e conheça os problemas da área e dos vizinhos, de modos a contribuir para a sua resolução.

 

Últimas Notícias