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Crianças do Bom Jesus caminham 7 Km para a escola

A situação é motivada pela insuficiência de salas de aulas e de professores no único estabelecimento de ensino que existe na localidade e pelo facto de se leccionar apenas no período da manhã, entre as oito e as 11 horas, de acordo com a população

Texto de: Alberto Bambi

Alguns pais e encarregados de educação do bairro Zambela, na comuna do Bom Jesus, município de Icolo e Bengo, em Luanda, manifestaram a OPAÍS o seu descontentamento pelo facto de filhos seus de menos de 10 anos de idade estarem a percorrer a pé cerca de sete quilómetros para chegarem à escola.

Os progenitores não acreditam que os responsáveis da localidade estejam a assistir de forma impávida à peregrinação diária dos petizes, que dobram diariamente a referida distância, já que a situação lhes impõe o regresso a casa depois das aulas.

“Em Zambela há uma escola do ensino primário, mas só tem duas salas, razão pela qual só se lecciona a 1ª e a 2ª classe, pois, por ter apenas dois professores, a escola só funciona no período da manhã”, informou Daniel José Adão Francisco, que acabava de se despedir do seu filho que frequenta a 3ª classe na escola da comuna-sede de Bom Jesus.

A única instituição escolar instalada na localidade não se encontra muito boa, apresentando várias janelas e portas danificadas. O encarregado desabafou que a comunidade tem pedido reiteradas vezes à coordenação do bairro e à Administração comunal, que se construa, pelo menos, mais uma sala e se envie, pelo menos, mais quatro professores, de modo a que, no período da manhã, três turmas estejam disponíveis para os alunos das 1ª, 2ª e 3ª classes, sendo que os que estudam entre a 4ª e a 6ª frequentem as lições, no turno da tarde.

Actualmente, a escola é composta por dois professores que vivem fora da localidade e, quase sempre, as sessões de aulas são administradas pelo director (também, não residente), soube a reportagem deste jornal da parte dos encarregados, que denunciaram ainda o facto de a escola local só funcionar até antes das 11 horas. Foi isso mesmo que OPAÍS constatou no estabelecimento, o órgão de ensino primário número 60…. às 11h:03 minutos encontrava-se totalmente fechado, sem sequer um aluno ou professor.

Domingos Francisco Adão disse que se trata do horário normal de Zambela, porque as crianças estudavam apenas entre as oito e as 10 horas, um tempo lectivo que se prolonga até às 11 nas ocasiões em que os professores começavam as aulas a partir das nove horas. Relativamente às caminhadas matutinas dos meninos de Zambela, Domingos Adão revelou que o exercício diário tem causado muitos constrangimentos aos miúdos, que não se resumem ao cansaço de que os mesmos se queixam sempre que regressam a casa.

“Os miúdos têm-se queixado constantemente de dor-de-cabeça, porque, além da grande distância, suportam a insolação das 12 horas, a poeira e a fome”, detalhou Domingos, para ser mais preciso.

Casa de professores, Solução adiada

a maior parte dos encarregados que prestaram entrevista a este jornal foi categórica em dizer que, ao não dar continuidade ao projecto social que resultou na construção de casas de passagem para professores, a Administração não está a dar o devido valor ao problema, cuja solução passa por os educadores residirem no bairro durante os dias normais de trabalho.

“As casas estão aqui, falta apenas os responsáveis da comuna canalizarem a água e instalar a energia eléctrica, bem como apetrechar a residência com cama, mobílias diversas e outros utensílios de cozinha, a fim de garantir condições de habitabilidade”, referiram os mesmos, tendo sublinhado até que a habitação estava concebida para albergar as famílias dos professores.

Os moradores de Zambela não contrapõem a resistência dos professores em ocupar as referidas residências, por causa das alegações dos docentes por si consideradas justas, mas atiram-se contra a morosidade da Administração que, até à data, não consegue garantir as exigências dos instrutores.

“Não dá para acreditar que os dirigentes da comuna não têm capacidade para adquirir uma cama, mesa, um fogão e televisor, nem sequer dinâmica para convencer os professores a viverem aqui com as suas famílias para facilitar a vida deles e das crianças”, desafogaram os pais, tendo cogitado que alguma coisa não estava bem esclarecida nesse contexto.

Quadros locais trabalham fora Perante a resistência dos professores em habitarem em Zambela, com ou sem as suas famílias, e a alegada lentidão no processo de garantir as condições básicas de habitabilidade, os moradores propuseram a legalização de jovens residentes, a fim de se ocuparem das poucas turmas que a escola possui.

“Entre os candidatos do bairro, apenas um foi admitido ao concurso público, só que, em vez de ser colocado aqui, calhou na escola do bairro vizinho de Cassenda e sabemos de outros professores daqui que já pediram para trabalhar na sua terra de origem, mas, até hoje, nada”, informaram.

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