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Jovem de 17 anos morre na cela de uma esquadra no Lubango

Um jovem de 17 anos de idade foi encontrado morto no interior de uma cela da 5ª Esquadra, no bairro da Mitcha, arredores da cidade do Lubango, província da Huíla

POR: João Katombela, na Huíla

Se para muitos a Sexta feira 13 é dia de azar, superstição ou não, isto foi vivido pela família Conceição, que para reeducar o filho que andava por caminhos errados, viu o seu ente querido deixar o mundo dos vivos. Anderson José Paulo da Conceição foi levado à 5ª Esquadra policial pelo próprio pai, Amoroso Herges da Conceição, que depois de o ter surpreendido em posse de cannabis, conduziu-o a uma unidade da Polícia. O pai da vítima relatou a OPAÍS que tudo começou quando foi informado por um sobrinho que o seu filho consumia drogas, concretamente cannabis (liamba), pelo que achou que devia denunciar o facto, já que o mesmo é punível por lei.

Amoroso Herges da Conceição declarou que a pretensão era responder ao apelo que diariamente é feito pelas Forças da Ordem para a denúncia de actos criminosos, apresentando o seu filho, que fazia parte de um grupo de traficantes e consumidores de cannabis. “O miúdo foi para a 5ª Esquadra, quando o meu sobrinho veio me dizer que o meu filho estava a andar com o tabaco (liamba), eu fui ao seu encontro, juntos fomos à casa e procurei saber se era mesmo verdade e lá confirmei que, realmente, o meu filho fazia o uso e tráfico de liamba” explicou. O nosso interlocutor informou ainda que no momento em que o filho foi levado à 5ª Esquadra não apresentava qualquer sintoma de doença e nem o tinha agredido, porque o jovem prometeu aos pais indicar os demais amigos. “Eu liguei para a mãe dele, que se encontrava no serviço, expliquei o que aconteceu com o nosso filho em casa, e ela disse- me que; olha, não lhe toca, leva-lhe às autoridades!

Eu saí com o miúdo, sem nenhum empurrão, ele dizia que conhecia quem tem vendido, os amigos que traziam a nota de 500 Kwanzas para comprar! Eu levei o miúdo com a ideia de desmantelar aquele grupo. Quando a mãe chegou à casa, nós voltamos para a esquadra para saber se a Polícia já tinha feito o seu trabalho, e eles perguntaram, ‘o que vocês querem que se faça’? Eu disse, eu trouxe o miúdo no sentido de vocês trabalharem com o meu filho e desmantelar a rede” explicou. A ideia de querer desmantelar a rede em que o filho se encontrava envolvido transformou-se em tragédia. Amoroso Herges da Conceição, disse ter recebido garantias do Oficial Dia de que o jovem teria passado a noite na cela da referida unidade policial. O pai da vítima detalhou que tomou conhecimento da morte do seu filho na manhã seguinte, através de um telefonema de um os dos oficiais da Polícia Nacional. “Quando eram seis e meia, recebemos um telefonema de um número estranho a perguntar: ‘vocês são os pais do menino que apareceu ontem’? E eu disse que sim. Quando chegamos à 5ª esquadra notamos que a unidade estava mesmo agitada! Chamaram- nos num gabinete, onde o comandante me disse que o ‘teu filho morreu’. Então a minha pergunta foi: “o meu filho veio saudável e são, que explicação o chefe pode realmente dar da morte do meu filho?”

Pai da vítima acusa Polícia da Quinta Esquadra

Entretanto, o cadáver do Jovem de 17 anos foi submetido a uma autópsia, para apurar as causas da morte. O exame forense atesta que Anderson José da Conceição, terá morrido por asfixia. No dia em que o jovem de 17 anos de idade foi detido partilhou a sela com um outro jovem que teria sido encontrado pela Polícia horas depois de ter dado entrada. Da autópsia realizada a 14 de Julho deste ano, segundo o Certificado de Óbito, o pai de Anderson José Paulo da Conceição, acusa a equipa de Polícia que esteve de serviço e o companheiro de cela de serem os responsáveis pela sua morte. “O corpo esteve mesmo sob a tutela da Polícia, para fazer-se a respectiva autópsia, que depois de feita, só assim é que tivemos o resultado da autopsia, segundo o resultado, o miúdo foi asfixiado. Eu, como pai, peço que haja justiça, será que o homem que esteve na cela com ele é quem fez o trabalho? Ou será a equipa que esteve naquele dia a trabalhar é que executou o meu filho”? Indagou.

Colega de cela justifica-se

Face as acusações feitas pela família do jovem que foi encontrado morto no interior de uma cela na 5ª Esquadra da Polícia Nacional, localizada no bairro da Mitcha, o jovem com que Anderson José Paulo da Conceição partilhou o cárcere afirma que nada teve a ver com a sua morte. Porém, descreve que foi detido por volta das 21 horas do mesmo dia 13 de Julho deste ano, mas não foi possível saber se havia ou não alguém no interior da cela, já que a mesma estava às escuras. Aires Rodrigues, informou que quando entrou na aludida cela não era possível ver o colega que já ali se encontrava horas antes, trazido pelo próprio pai. “Quando lá cheguei, estava tudo escuro, não deu para a ver a cara do malogrado, passando alguns minutos, depois de o agente ter fechado a porta, notei um barulho e perguntei se tinha alguém ou não, ele respondeu que sim.

E conversamos, eu ainda lhe perguntei por quê estava detido, ele respondeu que foi encontrado com droga, foram as únicas coisas que ele me disse, porque o agente aparece e bateu na porta dizendo que estávamos a fazer barulho” avançou. O jovem, que diz ser escuteiro, adiantou que foi detido pela Polícia Nacional durante uma caminhada que realizava no período da noite. Aires Rodrigues afirmou que tomou contacto com o cadáver na hora em que estavam a ser despertados pelo polícia em serviço. “Quando o senhor agente nos bateu a porta, eram 5 horas da manhã, ele disse: ‘acordem’, eu pensava que ele estava a dormir e disse acorda. Informei ao agente que ele não acordava, e o agente disse ‘mexe com força’, mas ele não acordava, foi aí que a porta foi aberta”, declarou.

Criminalista diz que Polícia da Quinta Esquadra deve ser responsabilizada

OPAÍS convidou um criminalista a comentar o assunto, relativamente à responsabilização criminal do possível culpado pela morte do jovem. Em função do comunicado de Imprensa produzido pelo Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa da Delegação Provincial do Ministério do Interior, segundo o qual Anderson José Paulo da Conceição antes de sua morte “apresentava fortes indícios de estar sob efeitos drogas”, José Carlos, criminalista, disse que a responsabilização criminal recai sobre o agente que o recebeu. “Se o estado dele era notório, e não se praticou o acto de cuidado de remetê-lo para uma unidade hospitalar, é porque quem o tinha sob sua guarda agiu com negligencia. Naturalmente, deve ser responsabilizado nestes precisos termos” explicou. Para o efeito, o jurista aconselha aos familiares a constituírem um advogado com vista a reparação dos danos, junto do Ministério Público (MP).

“Os familiares devem, junto do MP, fazer a devida participação contra a unidade na qual o jovem estava detido, na pessoa dos seus responsáveis” recomendou. No comunicado de imprensa, assinado por Manuel Halaiwa, a Delegação do MININT afirma que o jovem terá morrido por asfixia por constrição extrínseca do pescoço (esganadura). “Considerando que este diagnóstico médico se configura geralmente em lesões intencionalmente provocada por outrem, procedeu- se à abertura de um processo investigativo para melhor esclarecimento dos factos”, lê-se no documento. Este jornal contactou a Direcção Provincial do Serviço de Investigação (SIC) para se informar sobre o aludido processo de investigação, na pessoa do seu director, porem sem o esperado sucesso. Para justificar a posição do director provincial do SIC, a sua secretária explicou que o seu director só fala com a autorização do delegado provincial do MININT.

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