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A história de uma menina benguelense que os médicos ajudaram a ser mulher

Uma adolescente de 14 anos de idade, nascida com uma malformação congénita, foi operada no Hospital Geral de Benguela para correcção genital, vaginoplastia, uma vez que tém útero e ovários de tamanhos regulares. Havendo outrora uma anomalia, existente apenas na parte genital externa, a cirurgia foi um sucesso e a jovem já menstruou, pela primeira vez, em Junho último. Agora, tem pela frente uma nova vida cheia de esperanças

POR: Zuleide de Carvalho em Benguela

Existe na província de Benguela uma adolescente que passou a vida inteira, 14 anos, com a sensação de estar incompleta, porque nasceu com uma diferença relativamente às outras meninas, diferença que cresceu há dois anos. O PAÍS apurou o nome completo da adolescente e da sua mãe, todavia, para proteger a integridade e futuro da jovem, esses dados não serão revelados ao leitor, ficando apenas explícita a sua naturalidade: o Lobito.

Uma menina “incompleta” que nasceu diferente

Em 2004 nasceu na cidade dos flamingos uma bebé que fisicamente tinha tudo semelhante às outras crianças do género feminino, excepto o órgão genital, que estava “tapado”, conforme contou a adolescente, na primeira pessoa. Quando era pequenina, ela própria notou algo de incomum no seu corpo, pois, “já nasci com a vagina tapada, mijava num outro sítio”, narrou a adolescente lobitanga, na semana passada. Na desigualdade física, tendo apenas um pequeno orifício para urinar, a menina não se sentiu marginalizada por ser diferente. Sabendo sempre quem era, não tinha vergonha de tomar banho com outras meninas, primas e irmã. Todavia, apesar de não ser alvo de preconceito por parte da família mais próxima, a mãe optou por não partilhar a diferença no corpo da filha com muita gente, “apenas os de casa” sabiam, protegendo-a.

O pai, alcoólico, nunca quis saber das duas filhas que teve com a mulher que, quando a filha “diferente” tinha 3 anos, entregou ambas à cunhada, irmã do companheiro, senhora que as cria até hoje. “Foi uma surpresa”, todavia, “como era pequena, não se podia fazer nada, tinha que se esperar… Na verdade, a menina é minha filha de criação, é filha do meu irmão”, esclareceu a senhora, mãe “adoptiva”. A nova mãe reparou na malformação congénita da filha que ganhou e registou-a antes dos seus 4 anos. Ela, apesar disso, e consciente da sua condição, foi uma criança feliz e saudável. A menina foi crescendo, diferente, mas igual às outras meninas em tudo o resto e, na pré-adolescência, o seu clitóris começou a evoluir para um diminuto pénis, sem testículos, narrou a mãe. A voz tornou-se mais grave e, preocupada, a mãe, conhecendo uma estudante de medicina que trabalha no H.G.B., apresentou-lhe o caso da filha, perguntando sobre o que poderiam os médicos fazer. Na consulta com um especialista, foi-lhes dito que deveriam esperar que a criança tivesse 13 ou 14 anos, para ver que evolução teria e, estar prontas para uma possível cirurgia de correcção, vaginoplastia.

Uma menina que será mulher

A lobitanga, agora com de 14 anos, foi estudada por uma equipa de médicos especialistas, cirurgiões, no Hospital Geral de Benguela que, fazendo os exames necessários, detectaram que a rapariga tem um útero e ovários normais. Com a certeza a 100% de que, geneticamente, a adolescente nasceu pertencendo ao género feminino, e não masculino, mãe e filha decidiram avançar para a correcção cirúrgica, vaginoplastia, para que a filha tivesse uma vida “normal”. A rapariga decidiu ser operada porque quer, um dia, ser uma mulher completa. “Sentia que faltava algo em mim”, confessou. Por isso, recentemente, “quando as minhas amigas começaram a menstruar”, sentiu-me triste. Nessa altura sentiu-se mesmo diferente das outras meninas porque tal, a menstruação, não podia acontecer consigo, pois o seu organismo não permitia, devido à malformação congénita que tinha. Deste modo, há cerca de dois meses, cirurgiões estrangeiros e um nacional, doutor Eduardo Kedisobua, realizaram a primeira vaginoplastia da história do hospital, com sucesso, dando esperança e normalidade ao futuro da adolescente lobitanga.

Por precaução, a jovem tem tido acompanhamento psicológico desde antes da cirurgia, terapêutica que continua, para que tenha o apoio necessário nessa nova etapa da sua vida. João Caratão, psicólogo responsável pela área de psicologia do Hospital Geral de Benguela, declarou que, psicologicamente, “ela está muito bem. Está feliz, a vida dela mudou para melhor. Ela fala sobre esta situação de uma forma muito natural”. A história que a jovem agora escreve, para além do sucesso da cirurgia e sua recuperação, foi marcada por mais um triunfo: a menina teve a sua primeira menstruação a 27 de Junho de 2018. Este facto dá alguma esperança aos cirurgiões, que, tal como a jovem, gostariam que ela tivesse a oportunidade de gerar filhos no futuro, quando for uma mulher. “Visto que ela já começou a menstruar, vontade de pular de alegria não faltou, então, isso significa que, realmente, a menina é mulher!”, certificou a mãe. Feliz com o resultado da cirurgia, vaginoplastia, a jovem anseia por um futuro com as oportunidades a que todas têm direito. Sentindo- se agora completa, declarou que, após a operação “comecei a me sentir mais mulher”.

Uma vitória cirúrgica para o Hospital Geral de Benguela

A maior unidade hospitalar da província, Hospital Geral de Benguela (H.G.B.), executou com sucesso, há pouco mais de dois meses, a primeira cirurgia de correcção genital, feita a uma adolescente lobitanga de 14 anos de idade. Este caso bem-sucedido, de “síndrome de Turner”, foi apresentado na semana passada pelo director-geral do hospital, o médico cirurgião Eduardo Kedisobua, na abertura das 6ªs Jornadas Científicas do hospital, comprovando eficiência na assistência cirúrgica que prestam. Sendo o primeiro caso de malformação genital diagnosticado, acompanhado, bem como o primeiro em que intervieram cirurgicamente, dando mais qualidade de vida à jovem paciente, a cirurgia entra para a história do Hospital Geral de Benguela.

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