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Sonhos destruídos no acidente com comandante Panda

O empenho do comandante-geral da Polícia Nacional, Alfredo Eduardo Manuel Mingas “Panda”, no combate à sinistralidade rodoviária no país não o impediu de entrar para as estatísticas com um acidente que resultou em duas mortes e danos materiais ainda por calcular

POR: Paulo Sérgio

Os sonhos de Noémia Adelina Katuliche (apresentada pela Polícia Nacional como sendo Estrela Serenata), de 22 anos de idade, de se tornar numa gestora de recursos humanos bem sucedida, e de João Artur Jimbo, de 29 anos, de ver os filhos crescer e se formarem, terminaram na noite de Terça-feira, em Luanda, em consequência de um acidente de viação em que esteve também envolvido o comandante-geral da Polícia Nacional, Alfredo Eduardo Manuel Mingas “Panda”. A jovem, descrita pelos familiares como uma pessoa bastante alegre, vivia com os pais e estava a frequentar o segundo ano do curso no Instituto Superior Politécnico Metropolitano de Angola. Por volta das 19h00, despediu -se dos seus progenitores dizendo que ia ao encontro de uma amiga, também residente no quarteirão Z da Centralidade do Kilamba, ao que não se opuseram, segundo Domingos Benvindo, seu tio paterno.

O que os pais não imaginaram é que aquelas seriam as últimas palavras que ouviriam da sétima filha (a penúltima) nem que o momento ficaria registado como a última lembrança. Quase quatro horas depois, às 22h30, a jovem foi “cuspida” do interior de uma viatura de marca Hyundai, modelo I10, de cor branca, conduzida por João Jimbo, que sofreu um embate ao sair de uma das ruas do bairro Vila-Flor 1, situado na Avenida Comandante Jika, defronte ao Shopping Xyami, no Kilamba. A mesma “sorte” não teve o condutor, que morreu no local preso na viatura, em consequência do choque com um Mercedes Benz, modelo ML530, de cor preta, com a chapa de matrícula LD-70-52-GV, deixando um filho de cinco anos e a mulher grávida.

Por volta da 1 hora da madrugada, Valdemar Katuliche recebeu, através das redes sociais, imagens e um texto dando conta de que a sua irmã esteve envolvida no referido acidente de viação. Temendo que o pai, hipertenso, sofresse um choque, Valdemar Katuliche falou apenas com a mãe e, de seguida, ambos se dirigiram ao Hospital Geral de Luanda, para onde Noémia havia sido transportada, gravemente ferida. “Fomos informados por um dos médicos em serviço que ela não resistiu aos ferimentos por muito tempo. Chegou ao hospital já com dificuldades respiratórias e morreu”, disse Valdemar Katuliche. Por não se fazer acompanhar de documentos pessoais, o seu corpo foi colocado na gaveta reservada aos desconhecidos na morgue desse hospital. O contrário aconteceu com João Jimbo, que, depois de ter sido desencarcerado do seu carro pelos Bombeiros, após cortarem a porta do veículo em que seguia, o depositaram na morgue do Hospital Josina Machel. Elias Maximiliano, cunhado da vítima masculina, João Jimbo, confirmou que o seu parente saía do bairro Vila Flor, supondo-se que tivesse dado boleia a um colega de serviço que aí reside. “Algumas vezes, quando estamos na estrada, uns têm atenção e precaução e outros não. Os acidentes acontecem e envolvem um processo”, frisou.

Provas por se analisar

Depois do acidente, as viaturas foram removidas e o pavimento devidamente limpo, alegadamente por refectivos do Posto do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros da centralidade, ficando como se nada tivesse ocorrido. Os familiares de Noémia Katuliche dizem que as primeiras diligências que efectuaram junto das autoridades policiais da Esquadra do Kilamba, para se inteirarem sobre a identidade e o paradeiro das pessoas envolvidas no acidente, não foram bem-sucedidas. Os polícias que faziam piquete tanto na secção local do Serviço de Investigação Criminal, como de Trânsito, segundo Domingos Benvindo, diziam desconhecer o caso e que não tinham registo de qualquer acidente ocorrido nesta circunscrição. “Julgo que nos deram muita volta por saberem que o comandante- geral é que está envolvido no acidente”, frisou. Até que, às 5horas da manhã, face à insistência da família, o comandante da referida esquadra convocou-os ao seu gabinete, onde se fez presente o comandante provincial de Luanda da Polícia Nacional, comissário-chefe Sita Maria José, que lhes confirmou que o comissário-geral Panda era quem ia ao volante do Mercedes Benz. Já Elias Maximiliano disse não terem encontrado qualquer dificuldade junto da Polícia Nacional.

Família augura por responsabilização criminal

As duas famílias disseram, em separado, terem recebido garantias da Polícia Nacional, na pessoa do comandante provincial de Luanda, de que a corporação vai assumir todas as despesas inerentes aos óbitos. Não obstante isso, Domingos Benvindo, tio de Noémia Adelina Katuliche, espera que seja prestado algum apoio psicológico aos pais da vítima depois das exéquias. “Eles assumiram que vão se responsabilizar pelo funeral. Agora, e a vida que se foi? Perdemos a filha de 22 anos. Vamos ver como poderemos tratar desse assunto no campo jurídico”, frisou. Elias Maximiliano alinhou no mesmo diapasão. “Depois do funeral daremos sequência com vista a que sejam atribuídas as devidas responsabilidades a quem, naturalmente, sobrevive a um acidente de viação”. A família de Noémia Adelina Katuliche diz que não conhecia João Jimbo e que nunca o viram em casa. E, por outro lado, a deste diz não conhecer a última pessoa com quem ele supostamente esteve em vida.

Especialista descarta excesso de velocidade

Solicitado a analisar o caso, um especialista em segurança rodoviária disse que naquelas circunstâncias seria muito difícil o comissário- geral Alfredo Mingas “Panda” evitar o acidente. Primeiro, por se encontrar numa via prioritária, sendo o acesso de onde saiu o I10 terciário e com fraca visibilidade. Explicou que todos os que saem desse tipo de via para acederem a uma estrada principal “obrigatoriamente têm de parar mesmo, como se tivessem um sinal ordenando, até que a via esteja livre”. “Em segundo, mesmo não tendo parado e por não ter continuado no sentido da marcha da viatura que o embateu, se tivesse assim feito, daria a possibilidade ao outro automobilista de virar à esquerda”, disse. O nosso interlocutor, que pediu para não ser identificado, disse ter ficado claro nas imagens que o condutor do I10 virou à esquerda, transpondo as linhas contínuas que lhe impedem de fazer essa manobra. Ao proceder desse jeito, no seu ponto de vista, colocou-se numa posição muito difícil de o outro condutor poder esquiva-se ou travar ao ponto de evitar o acidente. “Pelas características daquela via e considerando que o movimento na esquerda é feito com muita frequência, há três medidas que podem ser tomadas: a colocação de um separador ou canteiro central, a iluminação da via e ainda construir-se uma via de serviço para acolher todas as viaturas que vêm do bairro ou sinalizá- los com o sinal de Stop”.

Justificou, por outro lado, que ao circular com uma velocidade constante entre 40, 50 ou 60 km/ hora com esse modelo de carro, pelo seu peso, ao embater numa viatura da dimensão do I10, pode fazer grandes estragos pela proporcionalidade e pelo material com que são feitos. “É como se várias toneladas de pedra tivessem caído sobre aquela viatura. Até poderia fazer um pião e o carro girar, causando vários danos”, frisou. No seu ponto de vista, nas imagens que circulam nas redes socias está claro que o condutor do Mercedes Benz tentou travar, mas já por cima do carro que lhe pareceu à frente. “Pela hora e por, supostamente, não ter viaturas antes de si, não teve um anda-pára, anda-pára. O que lhe permitiu andar com uma velocidade constante”, frisou. Do seu ponto de vista, quando se está a circular numa estrada dessas e entra um automobilista e segue no mesmo sentido de marcha, embora não seja correto, fica mais fácil esquivar. Se fizer o contrário, isto é, efectuar a marcha no sentido do carro que está a vir, torna-se mais difícil.

Para sustentar a sua tese, disse que esse caso é semelhante ao do motociclista Jorge Varela, há cerca de dez anos, ocorrido nas imediações das bambas de combustíveis da Marginal, em frente à Marinha de Guerra de Angola. “Ele saiu das bombas e fez o giro para continuar pelo BNA e um carro que vinha neste sentido, isto é, do BNA, deulhe uma pancada e morreu na hora”, contou. Não obstante isso, reconheceu que se o Mercedes Benz estivesse a andar numa velocidade entre 10 a 30 Km/h o que deveria acontecer era o embate atenuar os danos materiais e, eventualmente, humanos, mas teria muitas dificuldades de o evitar. De acordo com outra fonte da Polícia, o comissário-geral fez, no local, o teste do alcoolímetro, que deu negativo. “Ele diz que circulava a 60km/h”. De referir que o Comando Geral da Polícia Nacional confirmou, em comunicado de imprensa divulgado ontem, as mortes e que o acidente resultou na destruição de três viaturas, a terceira afecta a uma empresa de táxis. Até ao fecho da presente edição, ontem à noite, o comissário-geral encontrava-se internado numa unidade sanitária de Luanda.

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