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A pobreza e o ensino superior

Milhares de jovens ingressam anualmente nas universidades angolanas , buscando com urgência um emprego que lhes permita subsistir e realizar os seus planos de vida. Mas apesar de ter cada vez mais jovens com estudos universitários não se geraram condições que lhes ofereçam instrumentos para um desenvolvimento profissional óptimo.

POR: Miguel Filho

Oxalá possamos num futuro próximo sair da discussão sobre uma Reforma educativa de nível básico para a reforma universitária e as condições indispensáveis para oferecer aos nossos jovens um melhor horizonte profissional, salarial e de vida. Mas isso não acontecerá se as estruturas universitárias, tão aferradas aos interesses de sua criação que são da pior espécie, não despertarem e enquanto os seus promotores continuarem com mentalidades retrógrados. O mundo mudou e oxalá que as universidades angolanas façam um esforço para o acompanhar. A realidade angolana é marcada por fortes desigualdades sociais, de cujas assimetrias se polarizam com grande visibilidade os que têm muito e os que não têm nada e um caminho a trilhar, nessa direcção, para mitigar a diferença de desenvolvimento entre os dois grupos é a educação. A população carente começa a entender o processo, a necessidade de se cursar uma universidade para se afirmar socialmente. A criança precisa frequentar a boa escola, desde os primeiros anos de alfabetização, porque a aprendizagem é um processo em que uma etapa influi e explica a outra. A construção do conhecimento exige tempo, é preparação sistemática, gradual, encadeada, ligando os diferentes graus de ensino. Não é um simples “depósito bancário”, recordando Paulo Freire. Não adianta avançar etapas, se a aprendizagem não se concretizou. Hoje, temos bem clara a noção de que o importante não é a quantidade do que se ensina ao aluno, mas a  qualidade do que ele aprende. A escola deve lutar, buscar os meios para realizar este objectivo, para dar aos alunos as ferramentas mentais de acção, a fim de que possam enfrentar o mercado de trabalho, hoje tão exigente. Universidades para pobres O desinteresse oficial por uma escola pública de qualidade constitui-se em mecanismo de reprodução das desigualdades. Ultimamente e com alguma frequência, através dos meios de difusão, descobrem-se cada vez mais na periferia e zonas rurais, escolas sem as mínimas condições para se exercer um ensino que garanta qualidade. Dá-me a impressão que os gestores do erário estão somente preocupados com o semblante das instituições das áreas urbanas. Ou seja, ali onde abundam os adultos analfabetos, aumenta-se a possibilidade de se herdar o analfabetismo dos seus ancestrais e os que frequentam o 1º ciclo do ensino primário fazem-no em salas superlotadas com professores mal preparados. Nestas comunidades carentes têm dificuldade de frequentar o ensino fundamental quanto mais o ensino superior! A grande maioria que frequenta a escola pública pára bem antes de chegar à universidade e, quando chega, a desfasagem de conhecimento não a permite ingressar numa faculdade pública, tendo que ralar muito para pagar uma faculdade privada. Mas como diz o ditado: “a desgraça do pobre vem sempre acompanhada”. As universidades da periferia, para além de estarem alojadas em lastimáveis edifícios, a falta de água e lavabos decentes também é uma marca. A pobreza afecta a capacidade das famílias para enviar os seus filhos à escola, mas também a capacidade das crianças para aprender. Por isso, nas zonas necessitadas, que se encontram no interior, toda escola deve ter em conta esta realidade para poder cumprir com a sua missão de transmitir conhecimentos e formar cidadãos. Se não for o caso, o atraso educativo potencia a postergação social das pessoas de menores recursos e reduz as possibilidades de melhorar a sua condição social. Beverley Carlson, especialista em educação, convidado a apresentar os seus resultados no Fórum do Banco Mundial sobre “Educação e Pobreza: incluindo os excluídos”, celebrado em Madrid em 2000, sugere uma expressão mais definida sobre as desejadas mudanças, concentrando-se na reforma das escolas, para que as políticas educacionais e a prática se conjuguem nos colégios. A experiência nas escolas revela que se haver excelentes directores, com autoridade para actuar, produz-se uma grande diferença. Também aprecia-se que o coração de uma boa escola é o seu professorado estável, qualificado e motivado. Estes componentes permitem alcançar uma diferença mensurável no desempenho dos alunos, enquanto a alta rotação de professores, as suas baixas qualificações e o seu desinteresse, deterioram o rendimento. As soluções são complexas e ainda distantes. Poder-se-ia pensar em aumentar as vagas dos cursos nocturnos das universidades públicas e garantir mais bolsas aos estudantes das faculdades particulares, que não têm como pagá-las. Em regiões afastadas da cidade, onde a maioria da população enfrenta o desemprego, a violência, a falta de oportunidade de estudar é grande. Urge criar, no governo e na sociedade, a consciência dessa realidade, consciência da necessidade de colocar a pobreza na sala de aula. A realidade angolana testemunha o movimento de promotores querendo levar o ensino superior às regiões mais pobres, mas com dupla intenção, na qual prevalece o lucro, sem se importarem em verificar se os títulos académicos dos seus docentes são autênticos. O entendimento corrente é de que os alunos de famílias ricas não sairão de seus bairros cosmopolitas para estudar na periferia, mesmo a universidade sendo pública. Muitas vezes esta cultura urbana obriga os jovens a deixar o campo em busca de uma “vida melhor”; por vezes resulta que essa “vida melhor” é uma vida feita de consumo e dívidas, que distancia-se da natureza e de uma relação harmoniosa com ela. Nas universidades privadas instaladas nas periferias, predominam cursos de ciências humanas e sociais e os escassos cursos técnicos são de curta duração, e realmente teóricos, pela avarícia e/ou incapacidade financeira dos promotores para o apetrechamento de laboratórios, devido ao baixo poder aquisitivo dos alunos e pela necessidade destes em chegar mais rápido ao mercado de trabalho. Entre os cursos mais baratos e, consequentemente, de maior procura em instituições localizadas em áreas de população de baixa renda, são os de Direito, Psicologia, Gestão e Economia. As áreas de engenharia e saúde precisam de muito investimento e encarecem a mensalidade, afastando o candidato, que tem como propósito conseguir logo um emprego.Como reduzir as assimetrias intelectuais O bom seria a criação de mais universidades públicas; as privadas, em que pese a intenção de facilitar a locomoção, instalando-as próximas à moradia do aluno, acaba, contudo, pesando no salário do estudante trabalhador. Na realidade, a desigualdade na educação é causada por forças sociais profundas, como a pobreza e o trabalho, incluindo, seriamente, o trabalho infantil. Todos os cursos devem estar acompanhados por um trabalho muito intenso em extensão social e no acompanhamento constante aos jovens para que ponham em prática o aprendizado na construção de novos tecidos sociais, produtivos e económicos nas zonas rurais, daí a pertinência de estabelecerem-se universidades cujos cursos sejam afins ao tipo de produção local. Para a realidade angolana, se reduziria o abandono escolar e o exército de desempregados se, por exemplo, na província do Uíge, criar-se um Instituto de Ciências Agropecuárias relativamente a um com cursos de Tecnológicos puros, porque no primeiro se proveriam cursos de Veterinária, Agronomia, Engenheira Genética, investigação agrária e tecnologias afins, orientada para o fomento da revolução verde e alcançar o abastecimento alimentar regional, crescimento da economia com excelentes profissionais e a investigação no campo. Uma característica que se evidencia nas Instituições de Ensino Superior públicas a maioria dos docentes trabalham em tempo integral, já as instituições privadas contam com a prevalência de docentes eventuais (vulgo turbo/garimpeiros), o que permite a estes trabalhar em mais de uma instituição de ensino e ou exercer outra actividade profissional. Nas instituições de ensino privadas a qualificação dos professores é baixa pois a maioria dos docentes, em todas as áreas, possui apenas graduação e especialização. A maioria dos docentes das instituições privadas inicia a sua carreira trabalhando noutros ramos ou leccionando na educação básica e ou ensino médio e mais tarde migram para a universidade, inclusive a idade média dos docentes no ensino privado ronda os 35 anos e nas públicas, 45 anos. Uma Universidade só cumprirá realmente a sua missão se é altamente selectiva, desde o professorado aos alunos. E, se pretende ser a melhor, deve ser selectiva por natureza. Tenho imensas dúvidas sobre o real foco dos políticos que estiveram na génese dos projectos de criação e reformas verificadas na universidade. Estes serão algum dia responsabilizados, vivos ou post mortem.

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