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Joaninha Domingos Francisco procura os pais biológicos

Agora tem cerca de 40 anos, perdeu-se quando tinha cinco ou seis anos, quando decidiu ir ao encontro dos primos que conheceu no óbito da avó materna. Lembra que os seus pais biológicos a registaram como Joaninha Domingos Francisco, desconhece o nome da mãe, mas sabe que o pai é Domingos Francisco

POR: Stela Cambamba

Das poucas lembranças que Joaninha tem de quando vivia com os seus pais biológicos, é que viviam num bairro, numa humilde casa de um ou dois quartos e sala, quintal aberto, e nos arredores havia muitas plantações de pimento e bananeiras. Parecia que o local pertencia a brancos. Explica que podia observar estes detalhes quando passeava com a sua mãe, e de algumas vezes ter visto o comboio a passar. Lembra ainda que a sua mãe estava grávida e um certo dia, quando se encontrava em trabalho de parto na sua residência, na sala, Joaninha regressava à casa depois da brincadeira. Encontrou a mãe na sala com o bebé nos braços, pediu- lhe que chamasse a parteira. Depois de algum tempo o bebé, um rapaz, morreu. Joaninha tem um sinal de queimadura na mão esquerda e dois furos na perna. Contou que está perdida há mais de 30 anos. Tudo aconteceu quando a família saiu para o óbito da sua avó materna.

Na altura vivia com a mãe, pai e uma irmã mais nova. Joaninha pensa que na época tinha cinco ou seis anos, não se lembra do nome da mãe, apenas do pai, que deve ser Domingos Francisco (sabe que tem um outro nome, mas não recorda). Na casa da avó, Joaninha lembra que ficou muito entusiasmada com a enchente de pessoas que estavam no óbito, principalmente com os primos da sua faixa etária. De regresso à casa, ficou cansada da brincadeira com os primos e chegou a terfebre. Posteriormente perguntou aos pais por que que em sua casa não vinham os parentes. “Por que que estou sempre sozinha”? O pai respondeu que não tinham boa relação com a família da mãe porque estes não aceitaram a sua relação. Depois de alguns dias os pais foram ao local do trabalho, a mãe levou apenas a irmã mais nova e Joaninha ficou sozinha em casa, e pensou em ir ao encontro dos primos, pegou em algumas moedas no quarto dos pais e apanhou o autocarro.

Não sabia a sua paragem e acabou por ir até à última estação da linha. Lembra-se que o motorista parou em frente a uma unidade policial e disse que iria deixá-la no local. Joaninha disse ao senhor que não era o local a que pretendia chegar, pelo que preferia regressar para a paragem onde subiu, mas não foi possível porque o caminho estaria interditado, “iriam fazer trabalhos na via, colocar alguns tubos para passagem de água”, segundo o motorista. Pelo facto, acabou por deixar Joaninha na unidade policial. Ela lembra-se que depois de o autocarro parar, passaram por um jardim e entraram longo no interior das instalações policiais, ficou por lá por cerca de uma semana. Havia uma senhora que vivia nos edifícios a frente da Polícia e trabalhava no local como cozinheira, conhecida como Dona Alice, predispôs -se a levar a menina e cuidar dela até que os parentes aparecessem. Ao contrário do que havia prometido aos polícias e à menina, de que seria bem cuidada, isso não aconteceu. Logo no dia seguinte, dona Alice, mandou-a lavar a loiça, e Joaninha recusou-se.

A senhora bateu- lhe. Com lágrima nos olhos, lembra que passou por momentos difíceis, naquela casa, foi obrigada a aprender diferentes tipos de trabalhos domésticos, apesar de ser a mais nova em casa (a senhora tinha cinco filhas), os afazeres de casa estavam sob sua responsabilidade. Acabou por fugir. Foi parar na Mutamba, onde permaneceu na rua durante algum tempo, até ser amparada por uma outra mulher, dona Luzia. Na casa desta teve uma vida normal, mas, infelizmente, teve de sair porque a residência era pequena para albergar determinado número de pessoas, pois que as suas filhas regressavam do estrangeiro. “Passei de casa em casa até conhecer a mãe Matondo, que me acolheu por algum tempo e, posteriormente, fui viver com a sua irmã mais velha, mãe Esperança, para ajudá-la a cuidar dos dois filhos gémeos de dois anos”, frisou, Joaninha. Viveu cerca de dois anos com a dona Esperança no país, depois a família toda foi para África do Sul, isto em 1992.

Neste período Joaninha passou a fazer parte do agregado familiar como filha. Lembra que nas casas onde viveu nunca chegou a frequentar a escola, porque cuidava apenas das crianças e das actividades domésticas. Depois de viverem dois anos na África do Sul, a família foi viver na Holanda, onde Joaninha passou a frequentar a escola por ser uma obrigação naquele país. “Toda a criança é obrigada a ir a escola, foi por isso que eu aprendi o pouco que sei”. Chegou um determinado período em que os miúdos estavam já com 17 anos e Joaninha pensou em dar outro rumo à sua vida, foi então que decidiu ir viver para a América do Norte, em casa da irmã da Dona Esperança, e lá viveu por três anos, quando regressou para a Holanda, agora para a casa de uma amiga. Joaninha é mãe de um menino de 14 anos, que pergunta quase sempre pelos avós biológicos. Perguntou aos cinco anos e ainda questiona. “Ele vê o relacionamento dos amigos com os avós e ele sente a diferença com a minha mãe adoptiva, neste contexto, renasceu a necessidade de encontrar os meus pais biológicos”.

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