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151 mil crianças benguelenses desistiram de estudar no ano lectivo passado

Na província de Benguela, cento e cinquenta e uma mil crianças desistiram de estudar no ano lectivo de 2017. Estando vários problemas na base disso, a falta de merenda escolar há-de ser um dos factores, segundo declarações do director do Gabinete Provincial da Educação, Evaristo Calopa Mário.

POR: Zuleide de Carvalho

No ano transacto, na província de Benguela, centenas de milhares de crianças ficaram fora do sistema de ensino, por falta de escolas, existentes em número notavelmente insuficiente, comparando com a elevada demanda. Apesar deste factor gritante, 151.000 outras crianças, das 926.000 matriculadas em 2017, desistiram de estudar durante o ano lectivo passado. Motivaram o abandono a inexistência de merenda escolar, a migração e às extremas dificuldades económicas das famílias.

151 mil desistentes vs. 85 mil sem vagas

No presente ano lectivo, de acordo com as estatísticas apresentadas pelo director Evaristo Calopa Mário, aproximadamente 85.000 crianças ficaram fora do sistema de ensino por falta de vagas nas escolas, ao que se junta a insuficiência de professores. Este quadro grave merece reflexão e intervenção. Se, por um lado, 85.000 crianças não se matricularam este ano, por não haver salas de aulas nem educadores disponíveis, por outro lado, 151.000 abandonaram a escola em 2017. De modo que resta esperar pelo fim deste ano lectivo para se averiguar quantos milhares de crianças irão desistir, sabendo-se que, 16,3% do total das matriculadas no ano passado renunciaram à continuidade dos estudos. A província tem apenas 1.276 escolas. A maioria, 1.132, são públicas. De resto, 64 são comparticipadas e as demais 80 são escolas privadas, os chamados colégios. O volume actual de 11.009 salas de aulas “não é suficiente. Deste número de salas, há que destacar que 9347 são de escolas públicas, 64% delas são provisórias e improvisadas”, sendo apenas 3289 as definitivas. Distribuindo-as por municípios, Cubal é o que mais salas inapropriadas detém, perfazendo 1.521 provisórias e improvisadas. Segue-se-lhe Benguela, com 585 salas provisórias e improvisadas e, o maior município, Baía Farta, tem 197 salas nessa categoria.

Escolas “improvisadas”: remédio para evitar exclusões

Um levantamento demográfico tem permitido à Direcção Provincial da Educação saber onde residem as crianças excluídas do sistema de ensino por falta de vagas nas escolas. Assim, “temos orientado as repartições municipais no sentido de continuarem a fazer o alistamento dessas crianças e encontrar espaços alternativos, provisórios ou improvisados, no sentido de garantir que essas crianças sejam escolarizadas”, informou Evaristo Calopa. Todavia, trata-se de uma solução temporária, por tempo indefinido e é só um primeiro passo, porque “depois vêm as necessidades do professor”, fez saber o director provincial da Educação. Face a isto, resta sobrelotar as turmas, o que, “naturalmente, põe em causa a qualidade do sistema de ensino, mas, pelo menos, a um ritmo razoável, assegura que um número considerável de crianças sejam escolarizadas.” Segundo o director, no ensino primário há várias turmas com 80 alunos, sendo que a maioria ultrapassa os 40 alunos por sala de aula e no 1º ciclo somam-se em média 60 alunos por turma. Juntando-se os factores relevantes, nomeadamente número de crianças fora do sistema de ensino, sobrelotação das salas, escassez de salas de aulas definitivas e insuficiência de professores, Benguela precisa sensivelmente de mais 7058 salas de aulas.

Cerca de 4 mil professores em falta

De acordo com as estimativas do titular da pasta educativa provincial, 3.922 professores seriam necessários para o presente ano lectivo, permitindo aos efectivos reduzir “a excessiva carga horária que alguns têm” e aliviar as turmas superlotadas. Porém, no mais recente concurso público, que culminou em Julho último, abriram-se apenas 1.376 vagas, o correspondente a somente 35% das necessidades reais. Contudo, essas necessidades, reais, podem sofrer aumento, porque, só no primeiro semestre de 2018, cento e 97 professores saíram do quadro de pessoal do Gabinete da Educação em Benguela, quer por reforma, morte ou transferências. Pelo que, numa avaliação circunstancial, o director Calopa calcula que, se tiver em conta o número de professores controlados pelas administrações municipais, 380 ou 400 docentes saíram do sistema de ensino nos 6 últimos meses.

Quando o peso do futuro é colocado sobre os pés…

O PAÍS apurou, na escola de Santo Estêvão, município sede, que os longos quilómetros caminhados diariamente para a escola, por crianças daquela instituição, chegam a 14. Sete de ida e 7 Km de regresso. Esse trajecto árduo, feito pela esmagadora maioria sem alimentos no estômago, saindo de casa de madrugada, às 6h, para não chegar tarde à escola, pode culminar em desistências ou mau aproveitamento escolar, dada a fadiga matinal. Na extensão territorial provincial, este quadro de dificuldades repete-se, dia após dia, ano após ano, para milhares de crianças que querem estudar e precisam de aprender, representando a promessa de transporte escolar uma grande ajuda. Sabe-se que redes de autocarros serão adquiridas pelo Estado para transportar alunos e professores e, em Benguela, “está bastante avançado, já se encontram no Porto do Lobito” as primeiras viaturas, indicou o director Calopa. Previamente, “identificámos as localidades que têm um número considerável de alunos e distam das sedes municipais. Naturalmente, têm necessidade de transporte escolar”. Assim, a ordem das prioridades foi definida de acordo com as maiores distância percorridas.

 

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