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Research Atlantico: Comportamento Atípico da Yield dos Títulos Norte-americanos

O rendimento dos títulos norte-americanos tem despertado a atenção de analistas ao apresentar uma trajectória que poderá sinalizar que a economia atravessará um período de recessão, num intervalo de tempo imprevisível, podendo se verificar nos próximos meses ou, no máximo, dentro de dois anos.

POR: Atlantico

A taxa de rendimento (yield) dos títulos de curto prazo norte- americanos tem apresentado uma trajectória crescente, que não se verifica nos títulos de longo prazo. A redução do gap entre as taxas de curto e longo prazo representa um movimento atípico tendo-se em consideração que quanto mais longo for o prazo de vencimento de um título, maior o rendimento exigido para mantê-los devido ao maior risco associado, a indicadores como a inflação – que reduz o poder de compra da moeda – e as taxas de juro de referência. O cenário económico saudável caracteriza-se por uma curva de rendimento dos títulos do tesouro (yield curve) crescente, em que títulos de menor maturidade rendem menos que títulos de maior maturidade. No entanto, a curva de rendimentos tem registado uma trajectória mais plana(flat yield curve), com a proximidade entre as yields de curto e longo prazo.

O desempenho da curva apresenta riscos, tendo-se em consideração que pode evoluir para a inversão (inverted yield curve), em que títulos de curto prazo apresentarão rendimento superior aos de longo prazo. A curva de rendimentos invertida é um indicador relevante que antecipa as crises financeiras, com o histórico de previsibilidade acertada a ser registado desde 1950. O diferencial entre o rendimento dos títulos a 2 e a 10 anos situa-se actualmente em 0,3 p.p., nível que não tem sido registado desde 2007, ano que precedeu uma das maiores crises económicas mundiais. Destaca-se que o gap se tem mantido em trajectória descendente desde 2014, quando atingiu cerca de 2 p.p.. Nesta perspectiva, a análise histórica contribui para que se considere que quando o diferencial entre as taxas de rendimento de curto e longo prazo reduzem, os investidores perspectivam que o crescimento económico não é sustentável.

O rendimento dos títulos, no entanto, além de reflectir as expectativas dos investidores, reflecte também o aumento da emissão de títulos de curto prazo em detrimento dos de longo prazo, o incremento das taxas de juro directoras pela Reserva Federal norte-americana que tem reflexo mais rápido sobre os títulos de curto prazo, a estratégia de estímulo à economia adoptada pelos EUA, que se caracterizou pela compra de títulos de longo prazo detidos pelos bancos com o objectivo de disponibilizar liquidez e reduzir as taxas de juro no longo prazo, e o reduzido rendimento de títulos de longo prazo em outras economias desenvolvidas. No caso da Alemanha, os títulos a 10 anos apresentam yields de 0,4%, enquanto as yields norte- americanas fixam-se em 2,9%, o que pode contribuir para que os investidores aceitem baixas taxas de rendimento pelos títulos de longo prazo norte-americanos. Entretanto, a Reserva Federal norte-americana (Fed) tem mantido o controlo sobre este indicador relevante, de acordo com as declarações do Presidente da Fed de New York, John Williams. O crescimento da economia norte-americana tem-se mantido em trajectória ascendente, tendo registado uma taxa de crescimento homólogo de 2,8% no segundo trimestre do ano corrente, o maior nível desde o segundo trimestre de 2015 – quando se fixou em 3,4% -, a taxa de inflação tem-se mantido acima da meta de 2% desde Novembro de 2017, e a taxa de desemprego fixou-se em 3,9% em Julho, o mínimo histórico.

Os indicadores positivos da economia norte-americana podem estar a atingir o crescimento potencial tendo-se em consideração que o desemprego está em níveis próximos do pleno emprego, o que poderá limitar o crescimento do consumo e, consequentemente, o incremento do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB). Outras pressões menos positivas advêm da possibilidade do crescimento económico, que se regista não ser sustentável, sendo que poderá reflectir os estímulos à economia adoptados pelo actual governo de Donald Trump, com destaque para a redução da carga tributária tanto para as empresas quanto para as famílias, e da imposição de medidas proteccionistas aos principais parceiros comerciais, com destaque para a China e a União Europeia. A tensão comercial com a China poderá transformar-se numa pressão fiscal para os EUA, tendo-se em consideração que grande parte dos títulos norte-americanos são detidos pela economia chinesa, o que poderá acelerar o processo de inversão da curva de rendimento dos títulos e incrementar as perspectivas de uma recessão nos EUA.

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