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PGR interroga preso algemado no Hospital

O representante do Ministério Público, que se encontrava ladeado por efectivos da Polícia, nem sequer ordenou que lhe fosse retirada a algema para assinar o auto de interrogatório. Pelo que, deverá permanecer algemado até ser transferido para o Hospital Prisão de São Paulo.

Um quadro sénior da Procuradoria- Geral da República junto do Serviço Provincial de Investigação Criminal (SPIC) de Luanda deslocou-se ontem ao hospital geral para colher os depoimentos do cidadão Estevão Mala Vicente João António, de 30 anos, que está há nove dias algemado a uma camas de uma das enfermarias desta unidade sanitária. Segundo fontes de OPAÍS, o procurador decidiu mantê-lo algemado fazendo fé nas informações segundo as quais existe a probabilidade dele fugir do hospital, caso seja solto. Por outro lado, manifestou a pretensão de transferi-lo para o Hospital Prisão.

“Depois de o interrogar, o procurador questionou a direcção do hospital sobre se havia uma ambulância para transferi- lo para o Hospital Prisão de São Paulo, onde deverá aguardar para ser assistido enquanto estiver a decorrer a instrução processual, ao que lhe foi respondido positivamente”, disse a fonte. Em função disso, o magistrado comunicou que isso seria feito até ao princípio da noite de ontem ou na manhã de hoje. No entanto, até ao princípio da noite de ontem, Estevão António permanecia algemado no Hospital Geral de Luanda. O representante do Ministério Público, que se encontrava ladeado por efectivos da Polícia, não ordenou que lhe fosse retirada a algema, sequer, para assinar o auto de interrogatório. Pelo que deverá permanecer algemado até ser transferido .

O magistrado fará um pronunciamento sobre o assunto, através de um despacho, ainda essa semana. No entender da nossa fonte, independentemente de ele ter ou não cometido crime, o facto de estar algemado na cama do hospital constitui uma flagrante violação aos direitos humanos e à Carta Universal dos Direitos do Homem, da qual Angola é signatária. O jovem, que diz ser taxista, encontra- se nessa situação desde Segunda- feira, 30, depois de ter sido alvejado na perna direita por alegados efectivos da Polícia Nacional, no bairro do Calemba II, município do Kilamba Kiaxi. O corpo clínico do hospital tomou todas as providências necessárias para que o paciente, que se encontra sob observação médica com o referido membro inferior engessado, pudesse prestar declarações sem qualquer inconveniente. De acordo com a nossa fonte, o suspeito reafirmou que foi abordado por dois membros da corporação trajados à paisana que, sem tecerem qualquer comentário, o alvejaram. O interrogatório, o primeiro realizado pelo procurador encarregue desse caso, começou no período da manhã e terminou depois das 14horas.

O alegado mote do crime

Conforme noticiou OPAÍS na Segunda- feira, Estevão António, algemado, queixa-se de restrições na sua higiene pessoal para satisfazer as necessidades fisiológicas, consideradas de vitais para todo o ser humano. “Também não consigo fazer as refeições devidamente. Tenho suportado terríveis dores no corpo por não conseguir mudar de posição. Tem sido muito difícil”. O jovem disse que se encontrava em casa da sua sogra, no bairro Calemba II, de visita à mulher e ao filho, quando apareceu um moto- taxista, identificado apenas por Yuri, que ele contratara há um mês para, em companhia de um amigo, comprarem blocos de construção civil para depositar na sua obra. Afirma que o moto-taxista estava acompanhado de dois presumíveis agentes da Polícia trajados a civil, cujos nomes não conseguiu precisar.

Segundo conta, o facto de Yuri ter ficado indevidamente com os 100 mil kwanzas que serviriam para custear o aluguer da motorizada de três rodas, também designada de “avó veio”, e os blocos, levou-o a apreender temporariamente o meio rolante até que lhe fosse devolvido o dinheiro. Estevão António disse que, depois de várias tentativas fracassadas de o moto-taxista reaver a motoriza, por se ter manifestado indisponível para devolver o valor acima referido, eis que ele terá recorrido aos supostos agentes da Polícia para o auxiliarem na recuperação da sua moto. Depois de baleado, os seus alegados algozes abordaram um taxista que circulava pela zona naquele momento e exigiram que os levasse do Calemba II, ao Hospital Geral de Luanda e, para o incriminar, puseram- lhe droga num bolso “Estão a dizer que é estupefaciente do tipo cocaína. Eu nunca vi isso na minha vida”, declarou o jovem. que diz sustentar a sua família com recursos que ganha através da actividade como taxista.

Polícia diz ser “altamente perigoso”

Uma fonte afecta à Polícia Nacional diz que a razão do disparo sobre o jovem não foi o facto de ele ter apreendido a motorizada da pessoa a quem entregara, há um mês, 100 mil kwanzas para comprar blocos de cimento para construção, conforme o próprio havia declarado a OPAÍS. “Ele é um marginal altamente perigoso”, disse. Para sustentar a sua tese, explicou que dias antes de ter sido baleado, Estevão António terá assaltado uma motorizada e, curiosamente, nesse dia 30, em que foi baleado, tinha-se encontrado com a sua vítima, que o reconheceu, ele e a sua moto. Para seu dissabor, segundo a fonte, circulavam por aquela zona, naquele exacto momento, três agentes da Polícia Nacional que, diante da aflição do cidadão, abordaram o presumível marginal. No entanto, este terá reagido de forma violenta atirando-se contra os agentes da Ordem, tendo daí resultado o disparo. Disse ainda que a Polícia encontrou- o com elevadas quantidades de estupefacientes.

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