Cadeba, a lagoa que dá vida aos populares de Kaculo-Kazongo

Situada numa zona baixa e afastada da comunidade, é apontada por quase todos os habitantes como a fonte de rendimento mais imediata, por causa da abundância de peixe e por facilitar a irrigação dos campos das redondezas

POR: Alberto Bambi
fotos de Pedro Nicodemos

António Gabriel é um dos pescadores da localidade de Banza Kaculu Kazongo, a pacata vila localizada no interior de Cassoneca, município de Icolo e Bengo, em Luanda. Ele assegurou que, graças à lagoa natural de Cadeba, a pesca é uma actividade que, diariamente, contribui para o sustento da população local. “A nossa pobre vila teve a sorte de ter essa lagoa abundante em peixe, peixe grande, por isso, a pesca é uma das três actividades principais da povoação”, referiu o pescador, conhecido nessas paragens pelo apelido de Chora, adiantando que as espécies mais capturadas são o cacusso, bagre, sevilhão e a choupa.

Segundo ele, em dias normais os pescadores podem capturar uma quantidade considerável de pescado, ao ponto de terem dificuldade de o escoar se os compradores não aparecerem apoiados com viaturas com capacidade para superar o terreno arenoso. “Porque aqui, as senhoras que vêm comprar o nosso peixe aparecem o mais das vezes apoiadas por condutores de motorizadas de três rodas, que conseguem passar pela areia”, detalhou Chora, tendo revelado que, de um tempo a esta parte, alguns cidadãos do ramo hoteleiro e prestadores de serviços de restaurantes passaram a trilhar bairro adentro, a fim de adquirirem o pescado por conta própria. O pescador asseverou que mesmo em períodos considerados teoricamente maus para a pesca, é possível adquirir o produto a partir da lagoa de Cadeba.

De acordo com António Gabriel, é isso que justifica o êxodo de pescadores de outras localidades, principalmente os de Mazozo, que no período das cheias do rio Cuanza preferem instalar-se em Kaculo-Kazongo, a mudarem temporariamente de ocupação. Lembrou ainda que a maior parte do bagre, cacusso e da choupa que são vendidos já confecionado nos mercados de Catete (Icolo e Bengo) e Quilómetro 30 (Viana), são provenientes da lagoa de Cadeba. “Só aqueles pequenos que vendem aí na estrada de Catete é que dificilmente é pescado daqui”, gabou-se Chora, sem poder evitar um sorriso irónico, referindo- se ao cacusso frito que é vendido por algumas senhoras imediatamente à entrada da sede municipal de Icolo e Bengo. Os seus companheiros, que pediram para não serem identificados, informaram que o preço do pescado variava em função da espécie e do tamanho, realçando, para isso, que qualquer que fosse o tipo do produto, ficava uma ou duas vezes mais barato do que em outro ponto de Luanda. Evitando falar de lucros, segundo eles, para não atrair assaltantes ao local, os pescadores disseram que os ganhos podiam garantir as despesas da família e acudir a muitas situações.

Potenciado comércio

Nascida em Banza Kakulo kazongo, a aldeã Carolina João Paulo, de 56 anos de idade, confirmou que o sustento dos moradores da sua povoação depende mesmo da referida reserva aquática. “Tanto para comermos, como para vendermos e podermos comprar outros tipos de alimento, dependemos do que vem dessa fonte”, declarou Carolina Paulo, desabafando que não sabia o que seria da vida dela e dos vizinhos se não existisse a lagoa de Cadeba. Carolina detalhou que o bagre é o peixe preferido para a dieta alimentar dos habitantes de Kakulo kazongo, porquanto, diferentemente de outras espécies, este pescado facilita a conservação quando processado e seco. Assim, os moradores da região comercializam em maior escala o cacusso, sevilhão e a choupa, não faltando ocasiões em que o bagre seco para o consumo completa o quite de produtos a serem vendidos, devido ao interesse que os forasteiros manifestam quando entram bairro adentro. A entrevistada falou sobre encomendas feitas pelos referidos interessados, que se disponibilizam a adquirir bagre fumado. “É por isso que pode encontrar o peixe tratado assim em algumas casas”, realçou. O comércio é uma actividade desenvolvida maioritariamente pelas mulheres da zona, segundo informou Carolina Paulo, que intercalam o pescado, a carne de caça e produtos agrícolas, entre os quites de venda.

Javali, o mais procurado

A carne do animal selvagem conhecido popularmente como porco do mato é a mais procurada pelos clientes forasteiros, devido à semelhança com a do suíno, soube OPAÍS da sua interlocutora que, na ocasião, abriu um saco de sarapilheira que jazia no chão, para mostrar a perna de javali, até então aí encoberto. “Só restou esta, já vendemos as outras três, porque precisamos de dinheiro para resolver alguns problemas de casa”, disseram Luzia Conte e Amélia Suzana, ambas para lá da casa dos 50 anos de idade, que tinham vindo a pé da aldeia de Macua, a mais de sete quilómetros de Caculo-Cazombo. Luzia Conte, cujo marido é caçador, disse que já comercializa este tipo de carne há bastante tempo, porque não fica muito tempo no posto de venda. “Cortamos o bicho em quatro partes e vendemos cada uma a mil e 500 Kwanzas”, revelou a comerciante, tendo, logo a seguir, recebido o sinal de um forasteiro acabado de chegar, que comprou a carne. Visivelmente satisfeita, desdobrou a parte do pano onde havia guardado outro dinheiro, enquanto apontava, com o dedo em riste, para o matagal montanhoso de acesso difícil para viaturas, por onde ela e a companheira tinham de percorrer os mais de sete quilómetros até Macua.

Hortícolas nas contas

Além de produzirem tomate e batata para o consumo da comunidade, há ocasiões em que a quantidade permite tirar parte para vender. Carolina Paulo também atribui a existência de condições viáveis para o cultivo dos campos à lagoa Cadeba, já que os terrenos cultivados estão próximos dessa bacia aquática. “Mesmo as hortas distantes tiram água da lagoa, por isso é que eu já disse que a nossa vida depende dela”, reiterou a moradora. A senhora aproveitou a ocasião desta reportagem para desmentir a informação segundo a qual os habitantes de Caculo-Cazombo também consomem água da lagoa, tendo adiantado que, para tal fim, elas e os seus vizinhos se servem de uma fonte mais viável, que fica próximo da comunidade. Aliás, durante o périplo de OPAÍS, foi possível observar obras na localidade que, de acordo com os trabalhadores destacados na zona, se tratava da colocação de tubos para a captação do líquido vital, a partir da referida fonte.