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Desemprego, prostituição e delinquência é o que “sobrou” da Praia da Mabunda

Uma semana depois de o Governo de Luanda ter posto fim à venda de pescado no tradicional espaço livre da praia da Mabunda, os efeitos já são visíveis. Muitos dos cidadãos que dependiam daquele espaço para sobreviver, nos últimos dias, vêem no álcool, na prostituição e na delinquência a saída para continuarem a vida.

POR: Domingos Bento

Já passavam das 15 horas e o único dinheiro que Paulo Herculano tinham no bolso eram apenas 150 Kwanzas. Estesvalor não o conseguiu da sua actividade diária como escamador. Foi-lhe oferecido por uma antiga cliente que horas antes estava de passagem pela estrada da Samba. Com os 150 Kwanzas no bolso, o jovem escamador, de 28 anos de idade, faz imensas perguntas e contas à vida, mas não encontrou respostas. Paulo tem mulher, que deu à luz, dias antes, o segundo filho. Em casa, os mantimentos terminaram há já uma semana. Confome contou, no último Domingo teve que mandar o primeiro filho, de 6 anos, para a sogra porque em casa não há comida. Também, por falta de pagamento, o menor foi expulso da escola onde frequentava a segunda classe.

Dizendo-se desesperado, Paulo não sabia o que fazer com 150 kwanzas, pois precisava de apanhar um táxi até ao Rocha, onde vive, comprar algum alimento para a mulher que passara todo o dia sem comer nada, mesmo estando a amamentar o bebé que, por sinal, é xará de um falecido pescador da praia da Mabunda. Enquanto conversava com o OPAIS, Paulo endireitava a faca, de cabo amarelo, ponta cortada, pendurada na cintura. Horas antes o instrumento tinha sido utilizado para cortar pedaços de mandioca com que se alimentou durante o dia. Foi a primeira vez, depois de uma semana, que utilizou a sua ferramenta de trabalho que caiu em desuso com o fim da venda de pescado no tradicional espaço livre na praia da Mabunda, localizada no distrito urbano da Samba, município de Luanda. Com lábios secos, fraco e um ar preocupado, Paulo atira todas as culpas das dificuldades que tem enfrentado nos últimos dias à recente medida do Governo.

Essa medida, devida ao surto de cólera em Luanda, segundo Paulo, destruiu a sua vida, que era totalmente dependente da escama do peixe, actividade que vinha desenvolvendo desde os 13 anos de idade. Era como escamador que conseguia pagar a escola do filho, alimentar a família, ajudar a mãe que anda adoentada e a pagar a renda de casa, cujo prazo está prestes a terminar. “Parece azar, meu irmão. Tudo a acontecer ao mesmo tempo. O dono da casa já ligou na segunda-feira. O prazo acabou no final do mês. Com o nascimento do meu segundo filho, eu poderia estar a desfrutar da alegria, mas tenho é vivido muitas preocupações. Até dá vontade de se atirar ao mar e de lá não mais sair”, desabafou o jovem, bastante apreensivo. Enquanto conta as suas dificuldades, Paulo convida os repórteres de OPAIS a aproximar-se do mar.

Os passos lentos eram para escalar o seu antigo espaço de trabalho. Postos no local, o jovem mostra um pedaço de pedra larga, em espécie de banca, que está ao lado de uma pequena embarcação estragada. Por alguns minutos, o escamador esquece as dificuldades, solta um sorriso e fala dos ganhos e das alegrias que aquele pedaço de pedra lhe ofereceu. Eram mais de duzentos peixes, de várias espécies, que escamava diariamente. Os clientes vinham de todos os lados. Os anos na actividade tornaram- no num dos mais respeitados e conhecidos escamadores da zona. Por isso, granjeou a confiança de gente de vários cantos de Luanda que o procuravam para tratar do peixe. A actividade começava cedo. Por volta das cinco horas já estava na praia para receber os primeiros clientes, viajantes, comerciantes e outros tipos de clientes. Às 17 horas era quando largava o espaço, levando consigo entre 15 à 20mil kwanzas diariamente. “Com esse dinheiro, graças a Deus, consegui fazer o alambamento da minha mulher e finalizar a nona classe. Não precisei de roubar, nem de matar ninguém.

A praia me dava o mínimo para viver. Agora, assim, como vamos fazer? será que o governo não pensou em nós?”, questionou. De seguida, despediu-se da equipa de reportagem para ir ajudar um antigo cliente que acabara de chegar. Para além dos pescadores, o grupo de pessoas de que mais se falou e pelos quais foram criadas alternativas de sobrevivências como é o caso da construção do novo mercado do peixe, ao lado do antigo espaço, outras centenas de cidadãos que dependiam directamente da venda do pescado no tradicional espaço livre na praia da Mabunda ficaram com as vidas destruídas devido ao fim das suas actividades. Tal como constatou o OPAÍS junto dos populares, uma semana depois de o Governo de Luanda ter posto fim à venda de peixe na paria da Mabunda, os efeitos já são visíveis. Muitos dos cidadãos que dependiam daquele espaço para sobreviver, nos últimos dias inclinaram-se ao alcoolismo, na prostituição e na delinquência para continuarem a seguir a vida.

Aquele corredor da Samba, que até então era tido como relativamente calmo, segundo os frequentadores e moradores, nos últimos dias tem registado um aumento da delinquência e de outras desordens sociais, pelo que poderá afectar, num curto tempo de espaço, outras zonas circunvizinhas como a Camuxiba, Prenda e Corimba. “Utilmente, passar aqui está difícil. Há jovens que agora, a partir das 20 horas, ficam na esquina esperando por quem passe para atacar. E muitos destes jovens eram os antigos escamadores. Até algumas moças que não conseguiram lugar no mercado também passam aqui grande parte do tempo a se prostituírem de forma clandestina. Mas fazem isso porque perderam o seu ganha- pão”, afirmou Josiane Guilhermina, ex-vendedora. De acordo com a jovem, o aumento de roubos que a zona tem vindo a registar, há uma semana, está ligado aos jovens que trabalhavam na praia da Mabunda e que hoje estão sem nada para fazer. “Agora passamos o dia todo a beber porque não temos o que fazer. O Governo chegou aqui e tirou apenas as pessoas. Mas deixou- nos com fome. Como vamos fazer para continuar a sustentar os nossos filhos? Não estudamos, não temos emprego, nem outra profissão. Vamos é nos prostituir ou roubar. Somos milhares de pessoas que dependiamos desse espaço. Também somos humanos e temos necessidades”.

Os excluídos

Porem, dados não oficiais apontam para cerca de 150 escamadores, mais de 100 chamadores (pessoas que conquistavam os clientes para comprarem peixe nas embarcações) e um número elevado de vigilantes do parqueamento de viaturas e de comerciantes que operavam diariamente na praia da Mabunda. Todas essas pessoas, na sua maioria jovens, ao longo da vida não aprenderam a fazer mais nada senão ganhar a vida por intermédio do peixe. Hoje, com o fim das vendas no antigo espaço, grande parte delas está voltada ao abandono, sem nenhuma alternativa. Durante o processo de discussão sobre o paradeiro das pessoas que dependiam da praia, o Governo de Luanda focou as suas atenções nos pescadores e nas peixeiras, deixando de lado outras centenas de cidadãos que sobreviviam do espaço. O actual mercado do peixe, construído para albergar os comerciantes, não tem capacidade para acolher a toda a gente. A parte da escama, como constatamos, só tem capacidade para albergar dez escamadores, deixando de fora outros tantos.

Apesar de ser uma infra-estrutura nova, parte das mesas para a actividade da escama já está danificada e os dez escamadores disputam o pouco espaço que sobrou.Já os restantes dos escamadores que estão de fora passam as horas sentados na areia da praia à espera que alguma sorte caia. O local onde escamavam o peixe hoje está cheio de máquinas e de homens da fiscalização que a todo o instante proíbem a circulação de pessoas no recinto. À beira mar, as embarcações que traziam o peixe do fundo do mar já não atracam ali. E, com isso, as pessoas entram em desespero por verem os seus rendimentos cortados. Sentado numa das pedras da praia, João da Costa,32 anos, escamador há dez anos, aprecia o vai e vem das águas que batem forte e se espalham sobre a areia. Enquanto contempla o mar, faz contas do que será a sua vida daqui em diante. Os clientes, que durante muito tempo lhe davam o sustento, hoje já não vêem mais. Assim como Paulo, o primeiro entrevistado, João também tem mulher, e três filhos para sustentar.

Sobre o fim da venda do peixe naquela local, ele lamenta profundamente e considera a medida como sendo um autêntico golpe que chegou de forma inesperada, quando não estava preparado para deixar de exercer a actividade que representa o seu principal ganha-pão. “É muito difícil para nós, que só aprendemos a viver do mar, ter que arranjar outra coisa para fazer. Sempre dependi daqui, como vou conseguir arranjar outra coisa se não estudei nem aprendi uma outra profissão? Assim, se a pessoa pegar em arma e ir assaltar, a sociedade vai nos julgar, dizendo que somos bandidos. É triste, não sei o que passa pela cabeça dos nossos mais velhos do Governo. Mas são maus”, lamentou. É também de lamentações que Cipriano Singila fala.

Aos 27 anos de idade, o jovem exercia a actividade de chamador. Ele era um dos rapazes que ajudavam os clientes indecisos a chegarem até às embarcações de referência. Durante oito anos exerceu essa função e em troca recebia valores que, juntando, diariamente, oscilava entre os 10 e os 12mil Kwanzas. Com esse dinheiro pagava a escola onde está a frequentar a décima classe e conseguia ainda ajudar nas despesas de casa e a comprar roupas e calçados para os irmãos menores. Desde que foi anunciado o fim da venda do pescado naquele perímetro, o jovem disse estar a enfrentar sérias dificuldades. Já pensou em parar de estudar porque não vê formas de continuar a suportar os custos com as propinas. “Agora viemos todos os dias aqui só para conseguir alguma coisa. Antes, éramos nós que ajudávamos os outros, hoje estamos a depender para comer. Está duro. Mas o Governo é que sabe. Nós somos apenas povo”.

Perigo à solta no novo mercado

No novo mercado do peixe, construído pelo Estado para albergar o pescado que vem da praia da Mabunda, as vendedoras queixam- se das débeis condições de higiene postas à sua disposição. Grande parte das comerciantes recusaram-se a vender o peixe nas bancadas e estão a fazê-lo no chão, num espaço próximo da zona de escama e em péssimas condições. O perímetro em que as senhoras optaram para vender não dispõe de esgotos e toda a água do pescado, misturada com o sangue, “navega” pelo espaço, atraindo assim moscas e outros vermes que podem representar um perigo para a saúde dos usuários. Para além do aumento do preço, temendo pelas suas vidas, grande parte dos clientes desistiu de comprar peixe no novo mercado. Hoje, a Praia da Mabunda já não é frequentada por aquela moldura humana, entre nacionais e estrangeiros, que escalava o local em busca do melhor pescado. Dada a falta de clientela, uma boa parte do peixe que se vende na nova praça tem como destino o lixo, apesar de as senhoras pagarem uma taxa diária de 500 Kwanzas. “Tiraram-nos do mal para o pior. Falaram tanto do lixo, mas nos submeteram a uma condição suja. Aqui é que vamos pegar bem a cólera. Esse mercado não tem o mínimo de condições para as pessoas venderem peixe. Por isso é que os clientes fugiram. Ninguém aceita meter os pés dentro dessa lixeira”, desabafou Raimunda Lidia, peixeira.

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