loader

Mais de três mil ex-militares das FALA preparam manifestação no Huambo

Prevista para 31 de Agosto, é anunciada como será pacífica e visa pressionar a direcção do seu partido para encontrar uma solução para a sua reintegração e reinserção social, mas o porta-voz da UNITA alega que este é um assunto da competência do Governo

POR: Norberto Sateco, no Huambo

Mais de três mil ex-militares das FALA, antigo braço armado da UNITA, vão realizar uma manifestação pacífica, em todos os municípios do Huambo, para reivindicar os seus direitos, 16 anos após o fim da guerra fratricida. Manuel Alberto, 62 anos, capitão, um dos organizadores desta manifestação, informou ao OPAÍS que se trata de uma reivindicação justa, na medida em que foram integrados alguns ex-militares e deixado outros. Falando em nome do grupo, Manuel Alberto informou que a maior parte dos ex-militares foi cadastrada pelas autoridades competentes há 14 anos, mas continuam à sua sorte.

O cadastramento decorreu por altura em que se estava a fazer o processo de transição das FALA para as Forças Armadas Angolanas (FAA) e até ao momento nenhuma luz se vislumbra no fundo do túnel. Manuel Alberto, que reside na cidade do Huambo, adiantou a O PAÍS que esta situação está a provocar a desestruturação familiar de muitos, sendo que a maioria não trabalha, por falta de empregos, e não consegue sustentar as suas famílias. A situação agrava-se ainda mais, segundo a fonte, com o facto de a maioria habitar zonas rurais, onde sobrevivem praticando agricultura de subsistência, mas com dificuldades para escoar os produtos para a cidade. Os que conseguem, de acordo com a fonte, transportam os produtos até à beira das principais estradas, onde os comercializam, para deles tirar algum dinheiro e comprar pouco do que precisam.

Acusações contra a direcção

A fonte deste jornal acusa a direcção da UNITA de fazer pouco ou quase nada para a resolução deste assunto que já se arrasta há vários anos. “Como todos os mais velhos da direcção estão acomodados no Parlamento, a ganhar o seu dinheiro, nem sequer se preocupam com aqueles com os quais combateram, e que hoje estão a passar mal”, desabafou Manuel Alberto. Para ele, o maior problema reside na falta de vontade política do líder do seu partido, Isaias Samakuva, que, segundo ele, “está a fazer ouvidos de mercador” ante este problema. As críticas são também extensivas aos responsáveis da UNITA que conduziram o processo de integração no Instituto de Reintegração e Reinserção dos Ex-Militares (IRSEM), ao “privilegiarem civis e familiares, em prejuízo dos verdadeiros antigos militares”.

Silêncio de Chiyaka

Bernardo Canhala, outro ex-militar das ex-FALA, disse que o grupo de desmobilizados da província do Huambo escreveu e tentou reunirse várias com vezes com o secretário provincial desta força política, Liberty Chiyaka, mas sem sucesso. Alega que das muitas vezes que os ex-militares de Jonas Savimbi tentaram reunir-se com Chiyaka, este sempre se mostrou indisponível, por razões que diz desconhecer. Canhala disse que a situação está insuportável e, caso o assunto não seja resolvido em tempo oportuno, a direcção da UNITA será responsabilizada no que vier a acontecer. Disse não se tratar de meras ameaças à direcção do partido de que é militante desde 1971, mas discorda da forma como a mesma está a encarar a situação dos antigos militares da UNITA. A situação, segundo a fonte, não se limita aos militares (oficiais) para a Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas (CSFAA), mas também para os antigos combatentes da UNITA, maioritariamente já velhos, e acima dos 60 anos.

ASACITA sem solução

Entretanto, numa entrevista concedida em Janeiro deste ano a OPAÍS o presidente da Associação dos Antigos Combatentes da UNITA (ASACITA), general reformado Antonino Filipe Chiola, deplorava a situação por que passa(va)m os seus associados no que tange o processo de licenciamento dos combatentes da liberdade da UNITA. Segundo ele, a maior parte dos que combateram não está licenciada no Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria (MACVP) por questões burocráticas. “Pede-se uma série de documentação ao antigo combatente, após reunir essa mesma documentação é entregue a quem de direito, mas depois fica-se à espera durante muito tempo, ou até mesmo o solicitante morrer”, disse, na altura. Para se pôr cobro a esta situação, Antonino Chiola havia solicitado a intervenção do Presidente da República, João Lourenço, enquanto Titular do Poder Executivo. “É urgente que o senhor Presidente intervenha para acabar com esta burocracia”, dizia.

“É um assunto do Governo”, diz Sakala

Contactado sobre o assunto, o porta-voz da UNITA, Alcides Sakala, disse nada saber da preparação da manifestação, avançando que a questão da desmobilização, reintegração e reinserção social dos ex-militares é da inteira responsabilidade do Governo, com base nos Acordos de Paz assinados em 2002. Reconheceu a situação por que passam os ex-militares, mas alega que a UNITA está de braços atados para resolver um assunto que não é da sua responsabilidade. “O Governo é que assumiu este processo, ele é que tem os meios para resolver este assunto”, disse Sakala, para quem o líder da UNITA está preocupado com este assunto, razão pela qual, no seu primeiro contacto com o novo Presidente da República, João Lourenço, abordou esta questão, concluiu. Entretanto, fonte do Comando Provincial da Polícia Nacional no Huambo disse que a corporação está acompanhar esta situação, mas nada lhes foi comunicado oficialmente. Se acontecer acompanhar para manter a ordem e a tranquilidade públicas durante a manifestação, garante a mesma fonte.

Últimas Notícias