Aprendizado do inglês atrai trabalhadores angolanos a Windhoek

Alguns trabalhadores angolanos que se encontram a estudar inglês em Windhoek afi rmam terem tomado tal decisão após terem passado por diversos constrangimentos no exercício das suas funções e por terem perdido oportunidades de promoção nas suas carreiras

POR: Afrodite Zumba

A insuficiência no domínio de línguas estrangeiras no currículo de profissionais angolanos, tanto do sector público como privado, têm-nos “forçado” a deslocarem-se a outros países a fim de melhorarem as suas competências linguísticas, sobretudo na língua inglesa. Na capital da República da Namíbia, Windhoek, OPAÍS manteve conversa com um grupo desses cidadãos que, por iniciativa própria, decidiram largar temporariamente os seus postos de trabalho em Angola para se dedicarem ao aprendizado do inglês. Entre eles, há quem afirme já ter perdido promoções de carreira e enfrentado dificuldades para comunicar com os clientes. Por esta razão, optaram por autofinanciar a formação com o objectivo de suprir estas deficiências e melhorar o desempenho profissional. Nesta condição encontra-se Sérgio Segunda, de 36 anos, que há quatro meses teve de tomar essa decisão e alterar o rumo da sua vida privada. Formado em Relações Internacionais, o ex-funcionário público colocado num Ministério teve de escolher entre preservar o emprego ou apostar na formação para a melhoria do seu currículo.

Segundo o entrevistado, foram várias as vezes em que passou por momentos constrangedores no exercício das suas funções, por não falar fluentemente a língua de William Shakespeare e, por consequência, perdeu oportunidades de promoção. Ansiando colmatar estas insuficiências, pediu autorização aos seus superiores hierárquicos para deslocar-se a Windhoek a fim de fazer um curso intensivo, mas, para surpresa sua, o seu pedido foi recusado e acabou no desemprego. “Fiquei surpreendido, uma vez que esperava o apoio . Infelizmente já não faço parte do quadro de funcionários daquela instituição”, detalhou. Para trás também ficaram a esposa e as duas filhas, as quais não vê há cerca de quatro meses, altura em que viajou até Windhoek para enfrentar o desafio a que se propôs. Apesar das dificuldades, acredita ter feito a melhor opção e que, brevemente, lhe trará bons resultados.

Deve existir maior investimento na formação dos quadros

Sérgio Segunda é de opinião de que deva existir maior flexibilidade para os trabalhadores que desejam actualizar os seus currículos com formações, tanto financiadas pelas empresas, como as autofinanciadas, uma vez que os resultados vão beneficiar ambos. Para si, a reconstrução do país faz-se diariamente com profissionais tecnicamente qualificados e, para tal, há necessidade de se investir no conhecimento. “Todo o funcionário ambiciona crescer profissionalmente e, para tal, é necessário que se façam investimentos na formação. Estou a fazer o meu e, certamente, terei emprego e oportunidade de promoções”, disse confiante.

“Já tenho maior fluência”

Sérgio Segunda afirma estar a viver uma experiência estudantil interessante, por estar numa cidade calma que oferece muitas “ferramentas de estudo” aos visitantes, sobretudo para os que querem aprender a falar e escrever fluentemente em inglês. A existência de bibliotecas apetrechadas e de locais turísticos tem facilitado o intercâmbio com cidadãos de outras nacionalidades. Já o estudante do centro de inglês West Gate Training Center, em Windhoek West, afirma que a metodologia de ensino dessa escola, uma das mais procuradas, tem facilitado a absorção de vários conhecimentos, lhe que o tem permitido tornar-se fluente e independente. “Hoje já não necessito de acompanhante para ir às compras ou resolver alguns assuntos pessoais. Tenho melhorado o meu desempenho dia após dia”, declarou.

Do “Google translate” ao domínio do inglês na vida real

Por seu turno, Sandra Francisco, de 25 anos, técnica superior de uma empresa privada de Consultoria de Recursos Humanos, contou a OPAIS já ter passado vários constrangimentos no que se refere à comunicação com os clientes, também por falta de domínio da língua inglesa. “Algumas vezes, tive de recorrer ao uso do Google Translate, do dicionário e depender da ajuda de colegas para atender a solicitações de clientes, dos quais cerca de 80 por cento não falam português”, elucidou. Segundo explicou, estas foram algumas das razões que a levaram juntar dinheiro e a deslocar-se à Namíbia. Inicialmente, disse ter pensado na possibilidade de rescindir o vínculo laboral com a organização para a qual trabalha, uma vez que pretendia ausentar-se por um período de cinco meses, mas esta hipótese veio a ser descartada ao receber total apoio da instituição. “Estudo inglês e trabalho simultaneamente, aqui em Windhoek, com o auxílio da Internet.

Deste modo, sairemos todos a ganhar”, disse sorridente. “Praticamente já não tenho acesso ao português”. Ao fazer referência da sua experiência ao longo de quatro semanas de aprendizado, no referido Centro de língua inglesa, Sandra Francisco afirma que neste período está a ampliar o vocabulário, a aprender regras gramaticais e a participar em aulas práticas de conversações. Sem menosprezar os centros de ensino em Angola, a interlocutora considera que o facto de os professores serem nativos de países de expressão inglesa e por ter o contacto permanente com a mesma ao longo do dia a tem ajudado eficazmente. “Estou a aprender o vocabulário necessário para comunicar em diferentes situações e locais como lojas, agência de viagem, bancos, hospitais e manter conversas formais ao telefone”, detalhou. Além da metodologia de ensino escolar, Sandra Francisco disse ter-se hospedado numa casa de estudantes, onde 99 por cento deles são provenientes de diferentes países e comunicam entre si apenas em inglês. A par desta vivência, acrescentou ainda que ouve muita música e vai frequentemente ao cinema. “Estou focada neste objectivo e com persistência irei alcançá-lo”, concluiu.

Inglês visto como fundamental para garantia do sucesso profissional

Ouvido pelo OPAIS, o professor de Língua Inglesa do West Gate Training Center, Tawanda Zimanyi, considera o domínio do inglês como sendo determinante para quem deseje ter êxito profissional. Invocou ainda o facto de ser determinante nos negócios, por ser uma das línguas mais faladas no mundo. Natural do Zimbabwe, ele afirma que anualmente o centro tem recebido dezenas de estudantes estrangeiros, maioritariamente provenientes de Angola. Destes, destacam-se aqueles que se encontram a fazer o Ensino Médio neste país e não dominam fluentemente o inglês. Há ainda os que estão a preparar-se para o acesso ao ensino superior, bem como os estudantes que se deslocam para fazer cursos intensivos, geralmente já trabalham, alguns deles até são chefes de família. A formação dura cerca de um ano e está dividida em quatro níveis, nomeadamente o Básico, Elementar, Pre-Intermidiário e Intermidiário, que perfaz em média três meses para cada nível, em função do desempenho do aluno. “Regra geral, os estudantes angolanos matriculados no nosso centro têm bom aproveitamento. Assimilam com facilidade e a maioria termina com diplomas dos dois últimos níveis”, salientou.