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Morreu o ícone

Competia consigo mesmo e superava-se a si mesmo. É assim que se pode descrever a pujança física e psicológica de um mito, de uma lenda, de um guardião dos valores da prática desportiva continuada, saúde alimentar, disciplina social e sexual, descrito por especialistas como um caso único em Angola e raro no Mundo. Alberto Silva “Pepino”, era um potencial candidato a “super centenário”, ou seja, era dos poucos seres humanos no mundo que poderia atingir a idade dos 110 anos pelo seu perfil genético. Mas traiu-nos com a sua morte na noite deste Sábado, 11 de Agosto de 2018, ocorrida no Hospital Geral de Benguela

POR: Lilas Orlov

Uma indisposição. Um resfriado e um internamento. Em menos de 24 horas, Angola perde uma das figuras desportivas mais queridas, pela sua vitalidade e desafio à longevidade. A 24 de Outubro de 2018, Alberto Silva “Pepino” completaria 96 anos. É um marco que valoriza a trajectória desportiva deste cidadão ímpar, inspirador de novas gerações. O velho-leão ainda pedalava a sua bicicleta mais de 100 km/semana, num autêntico desafio à resistência física e ao seu equilíbrio psicológico. Patriarca dos “Pepinos”, tinha um quotidiano rigorosamente regrado, desde a alimentação, descanso, cuidados primários de saúde, sexualidade e socialização. Vestindo-se religiosamente de calções, o nonagenário construiu um império familiar que começou com a Marcenaria Muxima, passou pela sua Equipa de Ciclismo, pelo Hotel Luso e agora, há quase uma década, projectou a sua Fundação para perpetuar o nome e valores assentes numa saúde exemplar, alimentação saudável, cultura, desporto, civismo, patriotismo e espírito de vencer.

A sua “arma secreta” tem um nome e rosto: Odete Silva, sua amada esposa. Professora de profissão, licenciada em Ciências de Educação, era a balança que regulava o quotidiano do ancião. Impôs uma disciplina comportamental, vida regrada e alimentação padronizada. “O Alberto está sempre bem disposto e a brincar. Não abusa de gorduras e a sua alimentação é a base de legumes, saladas, papas de flocos, grelhados de peixe e churrasco de galinha gentia”, explicava Odete Silva, assegurando que as suas bebidas de eleição eram a quissangua de farinha de milho feita no dia e sumos naturais. Alberto Silva nunca adoeceu, apesar da idade. Qualquer sintoma de desequilíbrio na sua saúde deixava-o muito nervoso e com insónias. “Ele é muito medroso na doença. É próprio das pessoas que nunca ficam doentes, mas não preocupa muito”, dizia Odete Silva numa entrevista que me concedeu.

O indigesto Pepino

Nascido no Bairro Gingolote (planta que serve de cerco cujo leite-cola era utilizado para armadilhar pássaros) a 24/10/1922, um bairro pobre da periferia de Benguela, partilhou o seu nacionalismo em momentos com Agostinho Neto, em Brazzaville, onde cumpriu missões que preferia manter em sigilo (mas OPAÍS apurou que era pombo-correio entre os maquizard). Filho de um bancário português e de uma angolana, foi criado pelo padrasto. Teve uma infância de traquinice que à altura era indigesta para as tias, dai o cognome Pepino. A etimologia do nome parece contradizer os valores éticos, sociais e antropológicos que representava nos dias de hoje para a sociedade. “Sou cristão, mas não sou católico”, afirmava em conversa na sua marcenaria, onde se resguardava com muito carinho, numa sala repleta de quadros de figuras como Agostinho Neto, Eduardo dos Santos, Roberto de Almeida, Kundy Paihama, Percy Sledge, entre outros. Do Gingolote onde tudo começou, Pepino palmilhou dificuldades e discriminações. Assumia-se como cristão, democrata, liberal e patriota. Já foi preso e salvou-se de dois fuzilamentos por ter sido reconhecido como um homem bom, inspirador de causas nobres. Partilhava a sua invejável simpatia e simplicidade que herdou do Gingolote com pobres e estadistas que em 2007, no aniversário do Presidente Eduardo dos Santos, mereceu honras de abertura do salão perante uma assistência atónita.

Mapa genético

Os mistérios e sucessos de Alberto Silva podem residir no seu grande coração. É um coração diferente. Há poucos “Pepinos no mundo”. Até prova contrária, Pepino pode ser o primeiro angolano a ter o seu próprio genoma humano. O Mapa Genético do ADN do veterano ciclista tinha sido elaborado nos Estados Unidos de América. O mapa indica o cruzamento dos genes europeu e africano, sua resistência e a sensibilidade às doenças a que era propenso. O mapa genético foi elaborado em Agosto 2009, durante a sua participação nos Jogos Olímpicos para Veteranos, em São Francisco, Estado Unidos de América, onde Alberto Silva ficou em 4º lugar nos 40 Km e em 6º lugar nos 20 Km, na classe dos 85 e 89 anos. A classificação indicava que Pepino era bom nas grandes distâncias. Especialistas em gerontologia diziam, na altura, que “Pepino não pode deixar de correr”.

Foi muito ovacionado durante as corridas dos Jogos Olímpicos para Veteranos e criou uma forte empatia com outros concorrentes vindos da Europa e dos 50 Estados dos EUA por ser o único africano a participar. Calcula-se que o seu perfil genético, características psicológicas, físicas, saúde e hábitos desportivos, sejam partilhados no mundo por menos de 100 pessoas. Essas características, empurraram-no para um sério candidato africano a atingir a idade de 110 anos, record detido por apenas 75 pessoas em todo mundo, das quais 90% são mulheres. Os seres humanos com 110 anos são chamados de “Super Centenários”. “É um privilégio para Angola ter uma pessoa com essas características e deve ser objecto de atenção, carinho, cuidados especiais e estudo por inspirarem sociedades com bons exemplos de longevidade”, declarou um familiar horas depois da morte do veterano ciclista.

Teimosia de uma lenda

Para surpresa de todos, Pepino participou nas Olimpíadas de Veteranos dos EUA com uma hérnia inguinal. Escondeu de todo o mundo, até dos seus médicos, o risco que corria se competisse. Só depois de regressar a Benguela é que foi operado com sucesso. O passo seguinte foi a operação às suas cataratas. Na altura, em conversa, franqueou o seu coração e confessou mais: no seu desafio “Correio ao Presidente” em 2007, não tomava os remédios que o seu médico recomendava. Guardava-os numa caixinha de fósforo e superava tudo pela força do seu hino espiritual. A sua participação nas Olimpíadas de Veteranos, sem grande apoio técnico, nem experiência competitiva, despertou curiosidade por ser o único africano no meio de 9.300 atletas com mais de 50 anos, de todas as modalidades.

A sua extraordinária forma física, lucidez e simpatia vibrante granjeou-lhe muitas amizades e convites. “Ele é corredor individual e sempre foi sonho dele competir com pessoas da sua idade”, revelou, na ocasião, Odete Silva, tida como o pilar dos sucessos do nonagenário. “Quando chegamos à São Francisco, foi-nos indicado um percurso errado com uma montanha muito perigosa e ele ficou muito nervoso, dizendo que não iria conseguir. Passou toda a noite triste. Foi chocante e desencorajador”, confessou Odete. Alberto da Silva “Pepino” “tem” muitas surpresas ainda na manga. Não revelou os contornos da acção, mas prometeu que estava a trabalhar num projecto que iria mexer com o país todo. “O ciclismo é o único desporto onde não se paga nada para ver, mas alegra milhares de pessoas”, sustentava o veterano.

Fundação Pepino

Na véspera dos seus 96 anos, as autoridades de Benguela procuravam dar resposta às preocupações da sociedade para perpetuar o nome desta lenda. Admite-se que venha a ser criada uma Bolsa Desportiva para atletas com serviços médicos, preparação física e nutrição. Em passo avançado está a criação da Fundação Pepino – cidadania, saúde, alimentação e desporto, e, um complexo gimnodesportivo para acolher eventos que contribuam para preservar o seu legado. O património da Fundação será constituído com base em bens que o fundador achou por bem destinar: donativos, subsídios, heranças e o resultado das iniciativas a organizar. Benguela queria, assim, elevar os seus artífices, enquanto vivos, para a galeria dos “benfeitores”. Mas o candidato a “super centenário” desistiu da longa estrada.

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